
Eduardo Vasco
Israel torturou sexualmente palestinos com cães, nudez forçada e ameaças de estupro antes de 7 de outubro. Relatório revela impunidade total.
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Durante décadas, os patrocinadores de Israel (regimes imperialistas, monopólios de propaganda e think tanks capitalistas) tentaram apresentar os crimes de Tel Aviv contra os palestinos como resultado de "excessos", "abusos isolados" ou desvios de conduta de alguns soldados. O relatório A Predatory State: Israel's Systemic Sexualized and Gendered Violence Against Palestinians, que estamos analisando nesta série de artigos, desmonta essa enganação peça por peça. O que ele comprova não é uma coleção de incidentes desconexos, mas a existência de um sistema que utiliza a violência sexual sistemática como instrumento de dominação colonial.
As páginas dedicadas à década imediatamente anterior ao início do grande genocídio atual em Gaza são particularmente reveladoras. Elas mostram que a tortura sexual contra palestinos - homens, mulheres e crianças - não apenas continuou após décadas de ocupação, mas se intensificou. A violência sexual aparece como mecanismo de humilhação, coerção psicológica, obtenção de confissões, intimidação coletiva e destruição da sociedade e dos valores palestinos.
Já era perceptível o nível de depravação do sionismo quando dispararam as incitações públicas, por parte de autoridades intelectuais ou políticas, para que as mulheres palestinas fossem violentadas. Em 2014, enquanto Israel se preparava para lançar mais uma guerra devastadora contra Gaza, o professor israelense Mordechai Kedar declarou em uma rádio que "a única forma de dissuadi-los [os combatentes palestinos] é que saibam que sua irmã ou sua mãe será estuprada se forem capturados".
A frase não partiu de um soldado anônimo, mas de uma figura pública ligada a um importante centro estratégico israelense. Pouco depois, moradores do assentamento de Or Yehuda exibiram uma faixa dirigida aos militares israelenses, na qual estava inscrito: "soldados israelenses, os moradores de Or Yehuda estão com vocês ! Batam nas mães deles e voltem em segurança para suas mães."
O slogan transformou-se em palavra de ordem entre soldados que participariam da ofensiva de 2014 contra Gaza.
Não se trata apenas de retórica obscena. O relatório demonstra que, após esse período, aumentaram as denúncias de violência sexual nos campos de concentração israelenses.
Em 2015, a organização Addameer registrou 929 prisões de crianças palestinas. Destas, 486 ocorreram somente no mês de outubro. O dado mais chocante não é apenas a quantidade de menores encarcerados, mas a descrição do tratamento recebido:
"As crianças foram submetidas a insultos, xingamentos, humilhação, tratamento degradante e ameaças sexuais dentro dos veículos militares. () A maioria das crianças foi espancada com coronhas de fuzil por todo o corpo, causando fraturas, perda de visão e outros danos físicos."
O caso de Nadeem Zahran mostra como essas práticas funcionam na realidade. Preso aos 16 anos, ele foi espancado, arrastado algemado, privado de água e submetido a ameaças sexuais por soldados israelenses. "Os soldados começaram a tirar fotos comigo; quando tentei me defender, ameaçaram me estuprar", denunciou o adolescente.
A violência sexual aparece repetidamente como método de interrogatório, o que, naquele momento, já havia se constituído em uma tradição dentro do "exército mais moral do mundo". O jornalista palestino Mohammed al-Qiq, mantido em detenção administrativa sem acusação formal, relatou ter sido submetido durante 25 dias a torturas físicas e ameaças de agressão sexual. Ele permanecia amarrado por horas em posições de estresse enquanto era interrogado.
Ainda mais perturbador é o caso de Bilal Amr Abu Ghanem. Sob custódia israelense em um hospital, ele relatou espancamentos constantes e humilhações sexuais deliberadas. O relatório diz que
"as feridas mais profundas, segundo Abu Ghanem, foram a humilhação que sofreu quando policiais o fotografaram nu em sua cama de hospital. Às vezes, um policial retirava seus genitais para fora da roupa e os colocava perto do rosto de Abu Ghanem, enquanto outros oficiais tiravam selfies degradantes com ele."
O documento também registra uma das acusações mais graves de todo o período. Em 2015, uma mulher palestina denunciou três policiais israelenses e três agentes do Shin Bet - incluindo um médico - por estupro e sodomia durante uma invasão noturna à sua casa.
Segundo seu relato, os agentes ordenaram uma busca invasiva em suas cavidades corporais sob o pretexto de procurar um cartão SIM. A agressão ocorreu diante de soldados homens e mulheres. Anos depois, o Ministério da Justiça israelense arquivou o caso. Não porque os fatos tivessem sido desmentidos, mas porque, segundo as autoridades, não era possível determinar qual dos agentes havia ordenado a ação.
Tal impunidade não é exceção. O relatório revela que mais de mil denúncias de tortura apresentadas por palestinos ao Ministério da Justiça israelense entre 2001 e 2016 não resultaram em uma única investigação criminal. Nenhum responsável foi punido.
Essa ausência absoluta de responsabilização ajuda a explicar os números encontrados posteriormente pela Addameer no centro de interrogatório de Al-Moscobiya, conhecido como "complexo russo". Entre os palestinos estudados, 17,1% relataram avanços sexuais sugestivos por parte dos interrogadores e 13,1% sofreram ameaças sexuais. Entre as mulheres presas, 13% denunciaram assédio sexual durante os interrogatórios.
O relatório mostra ainda que o sistema judicial israelense não apenas ignora essas práticas, mas frequentemente participa de seu encobrimento. O caso do prisioneiro identificado como Q.S. é ilustrativo. Após ser mordido nos genitais por um cão policial e sofrer novas agressões durante interrogatórios, ele compareceu diante de um juiz israelense em 2019. O magistrado ordenou que se despisse para exibir os ferimentos, gerando um enorme constrangimento e humilhação para a vítima. As marcas foram observadas, mas desapareceram do registro oficial da audiência.
A violência sexual não se restringe às prisões. Em julho de 2023, soldados israelenses invadiram a casa da família Aljouni, em Hebron. Mulheres e adolescentes foram obrigadas a se despir completamente sob ameaça de cães militares. Amal Aljouni, mãe de quatro filhos, relatou: "não tive escolha e tirei tudo, chorando. A soldado ordenou que eu me virasse enquanto meus filhos observavam, incapazes de parar de chorar e tremendo de medo."
Zeinab Aljouni, então com 17 anos, declarou: "a soldado ordenou que eu tirasse o resto [das roupas], e eu fiquei completamente nua, chorando. Foi humilhante e insultante."
O aspecto mais importante do relatório talvez não sejam os casos individuais, mas o padrão que eles revelam. As mesmas práticas aparecem em diferentes cidades, diferentes anos, diferentes unidades militares e diferentes instituições israelenses. A mesma combinação de nudez forçada, ameaças de estupro, humilhação sexual, agressões aos órgãos genitais, chantagem e impunidade reaparece continuamente.
Essa conclusão é corroborada por investigações posteriores das Nações Unidas, que identificaram a violência sexual, a nudez forçada e a tortura sexual como práticas sistemáticas empregadas contra palestinos sob custódia israelense. É uma política de Estado, uma doutrina e praticamente um dogma do Estado sionista: estuprar, abusar sexualmente, devastar a mente, assassinar e exterminar os palestinos, mesmo que sejam mulheres e crianças. Não se trata de desvios individuais, mas de uma tecnologia de poder empregada para humilhar, subjugar e quebrar a resistência de um povo inteiro.
Embora não conste do relatório, essa situação me lembra uma declaração compartilhada justamente naquela época (2014) pela ex-ministra da Justiça e do Interior de Israel, Ayelet Shaked, segundo a qual as mães palestinas deveriam ser mortas para impedir o nascimento de terroristas. "As mães dos mártires () devem seguir seus filhos. Nada seria mais justo. Elas devem desaparecer, assim como as casas físicas onde criaram as serpentes. Caso contrário, mais pequenas serpentes serão criadas ali."
Já era o prenúncio do genocídio iniciado em 2023 e planejado e preparado durante décadas pelos sionistas, os verdadeiros terroristas. Isso também mostrava que os palestinos não podiam ficar de braços cruzados e deveriam realizar a Operação Dilúvio de al-Aqsa a fim de combater tamanha opressão. Afinal, a melhor defesa é o ataque e a situação já era claramente desesperadora. Era hora de a Resistência agir energicamente, como nunca antes, contra a brutal repressão que mulheres e crianças eram submetidas pelo regime de ocupação.