26/03/2025 strategic-culture.su  5min 🇸🇹 #272948

O lóbi brasileiro nos Eua

Raphael Machado

Na disputa entre direita e esquerda na política brasileira o bem comum da nação é a última das preocupações de todos os envolvidos.

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Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro anunciou que se licenciaria de seu cargo político para permanecer nos EUA por tempo indeterminado. Segundo ele, estaria sendo vítima de perseguição política, sendo mais seguro permanecer lá para não ser preso no Brasil. Supostamente, Eduardo Bolsonaro temia ter seu passaporte apreendido caso permanecesse no Brasil, em um conflito com o Judiciário que se arrasta por anos e que pode, também, culminar com a prisão do ex-presidente.

O caso é parte de uma construção narrativa que visa retratar a família Bolsonaro como sendo injustamente perseguida por instituições tirânicas, "comunistas", de modo que esse autoexílio seria a única maneira de lutar pela liberdade do Brasil sem precisar temer as consequências que poderiam advir dessa luta.

Na prática, porém, o motivo real para a permanência do mais politicamente ativo filho de Jair Bolsonaro nos EUA provavelmente é outro. Trata-se de um esforço de consolidar, organizar e institucionalizar o lóbi que tem sido gradualmente construído ao longo dos últimos anos em Washington pela direita brasileira.

Mas a ideia de um "lóbi brasileiro em Washington" não foi inventada pela direita, é parte de um processo de embate dialético entre direita e esquerda - infelizmente, ambos, em uma chave antinacional.

Anos atrás, por exemplo, falar em um "lóbi brasileiro em Washington" era falar no Washington Brazil Office.

O Washington Brazil Office é uma organização pouco conhecida pelo grande público, mas que desempenha um papel significativo como lóbi nos EUA. Mas diferentemente dos lóbis nacionais ou étnicos comuns, trata-se de um lóbi especificamente ideológico. Ele nasce num contexto internacional no qual coexistem o governo Bolsonaro, no Brasil, e o governo Biden, nos EUA, com um objetivo de - através de relatórios, diálogos e conferências - influenciar as políticas públicas dos Democratas contra o governo brasileiro da época.

Não surpreendente, a sua composição é fruto de uma coalizão entre dezenas de ONGs brasileiras, todas elas ligadas ao "ativismo de direitos humanos", em suas mais variadas vertentes: ambientalismo, indigenismo, feminismo, teoria racial crítica, ideologia de gênero, legalização das drogas, crítica do combate à criminalidade, e assim por diante. E como não poderia deixar de ocorrer, entre as organizações que participam ou colaboram para o Washington Brazil Office a maioria delas recebe fundos de alguma fundação ou agência internacional, seja da USAID, da Open Society, da Fundação Bill & Melinda Gates, ou alguma outra.

É importante ressaltar, por exemplo, que em 2019, 15 representantes dos EUA enviaram uma carta ao seu governo pedindo sanções contra o Brasil por supostos crimes ambientais e supostas violações de direitos humanos por parte da polícia brasileira. O documento em questão continha uma série de dados e informações claramente oferecidas por ONGs brasileiras que eventualmente estariam no Washington Brazil Office. O autor principal da carta, o recém-falecido representante Raúl Grijalva, era colaborador próximo do Amazon Watch, que eventualmente seria um dos parceiros do WBO.

Quando ele começa a sua atuação em 2022, imediatamente iniciar um trabalho cujo objetivo era, basicamente, exigir a intervenção dos EUA no processo eleitoral brasileiro - sob a justificativa de que Bolsonaro estaria preparando um golpe. Isso foi conseguido, com inúmeros pronunciamentos públicos do governo dos EUA, e até mesmo uma carta. O problema é que aí talvez tenhamos uma profecia autorrealizável, já que foi exatamente a interferência dos EUA no processo eleitoral brasileiro um dos elementos que convenceu Bolsonaro a não aceitar o resultado das eleições. Foi exatamente nesse período que o Brasil foi ameaçado diretamente por autoridades dos EUA, e recebeu até mesmo visitas de Victoria Nuland para tratar de como deveria ser organizado o processo eleitoral brasileiro.

Cambiado o governo no Brasil, com Lula passando a governar o país, os deputados e senadores da direita bolsonarista brasileira imediatamente começaram a construir o seu lóbi nos EUA junto ao Partido Republicano. Mesmo sob o governo Biden, esses deputados fizeram algumas visitas estratégicas que culminaram nesse anúncio de abandono de cargo por parte de Eduardo Bolsonaro, com destaque para 3 visitas: Uma em março de 2023, quando uma comitiva liderada por Eduardo Bolsonaro foi aos EUA se reunir com alguns congressistas para denunciar uma deriva autoritária do governo brasileiro. Depois, em 2024, Eduardo Bolsonaro novamente liderou uma comitiva para solicitar sanções contra o Brasil por supostas violações de direitos humanos e ataques à democracia.

E agora que os EUA estão sob o governo de Trump, que possui uma relação pessoal relativamente próxima com os Bolsonaros, os congressistas brasileiros de direita praticamente não saem de Washington, especialmente Eduardo Bolsonaro.

O comportamento, portanto, é análogo ao da esquerda quando da construção do Washington Brazil Office, e indica um projeto de construção de uma articulação formal visando consolidar esse lóbi antibrasileiro.

O que é mais lamentável, ao que tudo indica, é que nessa disputa entre direita e esquerda na política brasileira o bem comum da nação é a última das preocupações de todos os envolvidos.

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