
Bruna Frascolla
Nos dias de hoje, caso perguntemos o que é o homem, simplesmente não há uma definição que se pretenda inequívoca e válida em todos os campos do saber.
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Antes da Revolução Científica, se perguntássemos o que é o homem, a resposta padrão seria "animal racional". É a resposta aristotélica. Antes da Revolução Científica, a ciência (scientia), sinônimo de conhecimento, era um corpo coeso no qual havia uma resposta para as questões de todas as disciplinas: da formação do arco-íris à natureza dos anjos, passando pelo casamento e os juros.
Nos dias de hoje, caso perguntemos o que é o homem, simplesmente não há uma definição que se pretenda inequívoca e válida em todos os campos do saber. A resposta do biólogo será uma, a do psicólogo, outra, a do antropólogo, uma terceira, e a do filósofo, uma quarta - e nenhuma autoridade científica se preocupará em conciliar todas as respostas com a realidade objetiva.
Embora a ciência moderna tenha surgido com a finalidade de compreender a realidade objetiva, sua subdivisão em infinitas especialidades levou a uma espécie de relativismo prático, já que cada disciplina pode tratar de um mesmo aspecto do objeto, sem verificar com os cientistas de outras disciplinas como eles veem o mesmo objeto. Que os físicos digam que o vidro é líquido e os químicos digam que é sólido, pois a física e a química são, na prática departamental, disciplinas autônomas e autossuficientes.
Quando se trata das humanidades, e sobretudo da filosofia, a situação é ainda mais desordeira. Se perguntarmos numa faculdade de humanidades "o que é o homem?", a coisa mais próxima de um consenso será que "não existe natureza humana", o que é a mesma coisa que dizer que o homem não pode ser definido. Essa ideia absurda, que Sartre defendeu em O existencialismo é um humanismo (1946) com uma pretensa refutação da escolástica, é repetida por pós-modernos a torto e a direito como se fosse uma verdade autoevidente, sem nem mesmo citar Sartre. Como esses pós-modernos habitam os departamentos de todas as humanidades, por isso, e só por isso - só por uma contingência política, não por uma questão científica -, tal é a resposta mais próxima do consensual.
Num departamento de filosofia, é de se esperar que alguém saiba dizer que o homem é o animal racional. Não obstante, quem repete Aristóteles e Tomás é o historiador da filosofia, cuja tarefa não é dizer o que é um homem, mas sim registrar e transmitir o histórico das opiniões dos filósofos. Pós-modernos à parte, os departamentos de filosofia têm a oferecer filósofos analíticos (que debatem de maneira diacrônica questões clássicas, em geral ligadas ao mundo das exatas) e filósofos da mente, que debatem ficção científica e fazem de conta que são sérios só porque têm muitos artigos revisados por pares.
Assim, senhoras e senhores, não é de admirar que a nossa era, mesmo tendo enviado o homem ao espaço e desvendado o seu código genético, não saiba diferenciar homem de mulher. Ora, se não há autoridade intelectual capaz de dar uma definição do homem que seja reconhecida por todas as áreas do conhecimento, apenas o bom-senso impedia que pessoas importantes nas instituições científicas e políticas determinassem que mulheres têm pênis.
É fácil seguir o chorume e ver de onde vem esse absurdo: da filosofia de Sartre, segundo a qual não há natureza humana, mas sim uma existência livre que deve fazer o seu próprio projeto sem se prender a nada de natural. Nesse espírito, sua esposa diria que "não se nasce mulher, torna-se". De maneira velada (pois não se assumia como filosófica), a antropologia cultural fomentou essa desconstrução da natureza humana antes mesmo do existencialismo de Sartre. As mentiras de Margaret Mead sobre a longínqua Samoa Ocidental eram da década de 20; o opúsculo de Sartre, da década de 1940.
A falta de conversa entre as disciplinas é notória, e ao longo do século XX, não faltaram tentativas de resolver o problema por meio de alterações curriculares. Tomou-se por uma simples questão curricular o que era, na verdade, um problema epistemológico grave. Na Idade Média e na Renascença, os sábios não eram mais completos por causa de um currículo, mas por causa da concepção do conhecimento.
Para entendermos bem isto, comparemos três personagens da Renascença: o escolástico, o cientista moderno e o alquimista. O escolástico é aristotélico-tomista, e há uma resposta aristotélico-tomista para tudo. O cientista moderno formou-se na escolástica, mas descobriu que o geocentrismo e a teoria dos cinco elementos estão errados, de modo que o sistema aristotélico-tomista não pode ser todo ele verdadeiro. Qual é a verdade inteira, ele não sabe. Por fim, há o alquimista, que mesmo durante a revolução científica continua usando a teoria dos cinco elementos e geocentrismo implícito da astrologia.
O escolástico e o cientista moderno têm em comum a visão do conhecimento como um todo: se Aristóteles e Tomás de Aquino estavam certos, então não é possível que o elemento terra não esteja no centro do cosmos; Copérnico e Galileu têm que estar errados. Mas se Copérnico e Galileu estão certos, então todo o maravilhoso edifício construído por Tomás de Aquino sobre as bases aristotélicas fica comprometido e tem que ser reexaminado. Já os alquimistas, que iam atrás de Platão, Aristóteles, cabala, astrologia, magia persa, eram uns onívoros incapazes do pensamento sistemático exigido para fundar ou refundar a Ciência.
Diante de uma concepção realmente objetivista do conhecimento, o natural é inventar uma instituição responsável por aumentá-lo e sistematizá-lo dentro de uma hierarquia: a universidade, que estuda o universus. Que estuda tudo, ou o todo, que é o que universus significava antes de virar um sinônimo de cosmos.
Por outro lado, vimos no último texto que Bacon representa o lado feiticeiro da ciência moderna, o lado que bebe dos alquimistas que jamais foram capazes de criar um projeto universalista. Sobre Bacon, vale citarmos mais uma vez Jason Josephson:
"A concepção baconiana do conhecimento se baseava na falibilidade humana, piorada por um universo descrito como um vasto labirinto negro, cheio de becos sem saída, atalhos secretos e desdobramentos intrincados. [...] Bacon defendia que, como a mente humana era profundamente defeituosa e o mundo era fundamentalmente enigmático, o máximo por que se poderia esperar era uma forma fragmentária de conhecimento, e mesmo assim, tal só era possível por meio da fé em Deus." (The Myth of Disenchantment, p. 47) No entanto, a experiência do presente século ensina que conhecimento fragmentário é a mesma coisa que conhecimento nenhum, pois leva ao relativismo no qual cada disciplina tem a sua verdade.
No final das contas, o fato é que a Revolução Científica causou um trauma na Igreja Católica e na Universidade que se sente até hoje: uma vez derrubado um sistema inteiriço, não se colocou nada de inteiriço no lugar. Restam essas ciências que não têm autoridade umas sobre as outras, organizadas em burocracias anárquicas que têm o nome de universidade.
O atual estado de coisas - no qual ninguém tem autoridade para dizer o que é um homem, e se quantos sexos tem - mostra a necessidade de uma instituição responsável por produzir e sistematizar o conhecimento. Uma instituição que já foi inventada antes, na Idade Média, com o nome de Universidade.