
Bruna Frascolla
Seria Menasseh Ben Israel um gênio geopolítico do quilate do sionista Henry Kissinger?
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Em junho de 1654, a rainha Cristina da Suécia, aos 27 anos, solteira, abdica do trono. Na véspera do Natal, em Bruxelas, então capital dos Países Baixos espanhóis, ela se converte secretamente ao catolicismo. Quando a conversão foi tornada pública, tornou-se grande escândalo na sociedade luterana. O Vaticano, por outro lado, em 1655 recebe-a com pompa e circunstância, vendo nela um ótimo ativo para propaganda.
Há uma excelente obra sobre a vida da excêntrica rainha: Christina of Sweden and Her Circle [Cristina da Suécia e seu Círculo], de Susanna Åkerman. Mais do que do círculo de Cristina, a obra trata do ambiente intelectual do século XVII, mostrando que, longe de ser um prelúdio da era da Razão, era um período de messianismo alucinado e febre ocultista, especialmente nos mundos judaico e calvinista - porém com penetração no mundo católico, em especial entre jesuítas e germânicos (por causa do crédulo Imperador Rodolfo II). Nos anos de 1964 e 1965, dois cometas davam aos ocultistas certeza de que o fim dos tempos se aproximava, e em 1666 Sabbatai Zevi se proclama messias, entusiasmando judeus do mundo inteiro.
A vida de Cristina ilustra essa mentalidade. Ela tinha um primo que a sucederia, caso ela não tivesse herdeiros. Assim, ele patrocinou secretamente um astrólogo para dizer-lhe que não estava apta para a concepção. Após a abdicação, de fato o primo ganhou o trono, e era esperado por protestantes do Leste Europeu como o Leão do Norte, que iria libertá-los do jugo católico. Eles acreditavam nas profecias de uma calvinista polonesa chamada Kristina Poniatowska.
Seria uma imprecisão representar Cristina como uma simples crédula. Por um lado, ela acreditava em alquimia e astrologia; por conseguinte, em alquimistas, astrólogos e demais ocultistas. Mas isso fazia parte de sua autoimagem de Cristina Minerva, que incluía, desde quando rainha, a pretensão de transformar Estocolmo num centro de pensamento livre na Europa, recebendo todos os tipos de religiosos (incluídos judeus e muçulmanos), exceto unitaristas (por uma questão prévia da Suécia, não de Cristina em particular - aliás, ela seria uma financiadora do agitador unitarista polonês Lubieniecki em exílio).
O filósofo mais ilustre que Cristina conheceu em toda a sua vida foi René Descartes, que foi para a Suécia ser seu professor. No entanto, ela não tinha muito apreço por ele, e pouco depois de sua morte convidou seu rival epicurista Gassendi. Já depois da conversão ao catolicismo, Cristina causou algum escândalo dizendo aos seus conhecidos que sua religião era a dos filósofos, que, embora imprecisa, é melhor expressa pelo De rerum natura, de Lucrécio - obra pioneira na explicação da religião como uma simples consequência da ignorância e da ansiedade.
Apesar da criação luterana e da conversão ao catolicismo, Cristina é melhor compreendida como uma livre pensadora herética, tão crédula quanto os racionalistas da época, que buscavam na cabala e no ocultismo um suposto conhecimento antigo e verdadeiro, proibido pela Igreja Católica (um assunto que já vimos ao discutir Francis Bacon). Se ela tinha esse perfil, então por que ela fez questão de mudar de religião e perder um trono ? A interessante tese de Susanna Åkerman em Christina of Sweden and her Circle é que a rainha tinha plano teológico-político sustentado pelas credulidades da época. Cristina era louca por poder e nunca desistiu de conquistar uma coroa - nem que fosse a coroa sueca, quando seu primo morreu e seus planos mais ao sul foram frustrados.
Quando ainda estava na Suécia, Cristina negociava secretamente com a Espanha por meio de jesuítas. Não à toa, foi em terreno espanhol que ela se converteu ao catolicismo. Seu projeto no início era ganhar uma coroa em Flandres ou Nápoles, ambos domínio espanhol. Quando Cristina viu que a Espanha não iria lhe dar nenhuma regência (na verdade, a Espanha queria que ela ficasse na Suécia e se casasse com um católico), passou secretamente para o lado da França e incitou os franceses a invadirem Nápoles com o fito de dar-lhe a coroa da ilha. Em resumo, Cristina se converteu ao catolicismo porque tinha ambições maiores do que o que o mundo protestante poderia lhe oferecer. Ela tinha ambições universalistas limitadas pelo luteranismo. E para ver que ambições seriam essas, é preciso olhar para o messianismo marrano, ou seja, o messianismo dos judeus portugueses mais ou menos cristianizados.
Quando Cristina abdica, ela se muda para a casa de um rabino na Antuérpia, Países Baixos Espanhóis, e deixa na mão de banqueiros judeus as suas rendas, para que se multipliquem. Qual seria o interesse dos judeus nessa rainha sem trono ? Dado o seu perfil intelectual, "se a intenção de Cristina era ascender como uma regente católica liberal em Flandres ou, quando isso falhou, em Nápoles, então os anseios dos judeus e dos intelectuais por um novo espaço para o pensamento livre na Europa (de um tipo que eles sabiam que existia em Amsterdã) não eram mais só um sonho" (Åkerman, 223-4). Uma Amsterdã católica em Nápoles era o que Cristina ambicionava junto com os judeus. Se ocultistas faziam profecias a dedo para manipular políticos, é bem possível que a jovem rainha, órfã de pai e filha e louca, tenha sido teleguiada desde antes da abdicação.
Após a abdicação, sabe-se que de três figuras messiânicas rondando Cristina: La Peyrère, Menasseh Ben Israel e Antonio Vieira. O primeiro era um cristão novo francês criado como calvinista de provável origem portuguesa (pois Peyrère é Pereira afrancesado). Em 1654, na condição de secretário do Príncipe Condé, que aspirava ao trono da França, La Peyrère se muda para uma casa anexa à da residência de Cristina. Sua obra mais famosa é Prae-Adamitae, impressa em 1655 com dinheiro da recém-católica Cristina. Nela, afirma que Adão é ancestral apenas dos judeus, que a lei mosaica se aplica somente a eles, e que os judeus têm uma relação com Deus diferente dos gentios - que descendem de outros homens mais velhos que Adão, os pré-adamitas. O livro enfureceu tanto católicos quanto protestantes e em 1656, teoricamente arrependido, La Peyrère segue os passos de sua patrona e converte-se ao catolicismo.
O rabino português Menasseh Ben Israel, nascido Manoel Dias Soeiro, morava em Amsterdã, e é famoso por ter negociado com Oliver Cromwell a permissão para os judeus constituírem comunidades na Inglaterra (de modo que, espalhando-se ainda mais pela terra, acelerassem a vinda do Messias). Outra atividade sua era a de proselitismo judaico para o público cristão. Ele traduziu o Talmude para o espanhol (terá incluído partes ofensivas a Jesus?) e redigiu a curiosa obra El Conciliador, que "compila 210 fontes hebraicas, e 54 fontes gregas, latinas, espanholas e portuguesas para mostrar que as supostas inconsistências da Bíblia podem ser esclarecidas com a exegese correta. Autoridades como Eurípides e Virgílio, Platão e Aristóteles, Agostinho, Alberto Magno e Duns Scotus são citadas junto com o Zohar e o Midrash, Maimônides e Leão Hebreu, Gabirol e Nachmânides, Paulo de Burgos e Nicolau de Lyra, Isaac Luria e Moisés Cordovero. Como a simples extensão dessa lista de cabalistas, filósofos e poetas gregos e judeus indica, o trabalho é uma tentativa gigantesca de aproximar os pensamentos filosóficos cristão e judeu no problema da interpretação bíblica. Lastreado no pensamento judaico tradicional, o trabalho também introduz métodos cabalistas e projeções apocalípticas. El Conciliador deveria ser uma ponte entre o mundo judaico e mundo cristão." (Åkerman, p. 185) Sabem esses neopentecostais cheios das profecias judaizantes ? Pois é. Menasseh Ben Israel era acessado como um repositório de conhecimento bíblico especialmente por calvinistas, já que residia em Amsterdã e existia essa busca por uma autoridade não-católica. Seria conveniente uma pesquisa que descobrisse o quanto da teologia da Bíblia Scofield não se lastreia nessa obra de 1632.
O jesuíta Antonio Vieira, como aponta Ronaldo Vainfas no seu livro Antônio Vieira, era de provável origem judaica do lado materno. Ele não teve um papel muito especial conhecido na vida política de Cristina. No entanto, foi um importante sinal de status ela conseguir que ele fosse o seu confessor em Roma, já que ele era o orador predileto das celebridades do período.
Do trio, quem teve maior importância direta foi Peyrère. Outra obra controversa sua é Du rappel des juifs (1643), onde ele pretende instaurar uma monarquia universal sediada na Terra Santa. O Príncipe Condé se tornará Rei da França, derrotará os turcos, devolverá os judeus à Terra Santa e governará o mundo de lá. Aparentemente, Peyrère seguia a obra Le Thresor des propheties de l'univers (1547) de um cabalista cristão chamado Guillaume Postel (1510-1581), segundo o qual há dois Messias: Cristo, o messias universal, e um descendente do rei da França, que seria o messias político e particularista esperado pelos judeus. Essa obra estava disponível na Antuérpia, e com Cristina, Israel Ben Menasseh provavelmente conheceu Peyrère.
Agora vamos a Vieira, o imperador da língua portuguesa. Um artigo muito útil é "Antonio Veira, Menasseh Ben Israel et le Cinquième Empire", de A. J. Saraiva. É bem sabido que Vieira teve inúmeros problemas com a Inquisição, e que o gênio da retórica não era bom da bola. Por exemplo, um processo teve início após ele escrever para o Bispo do Japão que D. João IV iria ressuscitar. Para piorar, em vez de renegar as próprias ideias (o que era o normal), Vieira trata de convencer os inquisidores de que ele está certo e a Igreja está errada. O fato de ele ter escapado só mostra o tamanho do seu poder político.
Pois bem, graças a essa extravagância, as ideias heréticas de Vieira são bem conhecidas, e no artigo supracitado Saraiva convence de que ele estava repetindo Menasseh Ben Israel, que ele mesmo contou aos inquisidores ser seu interlocutor, e o esquema messiânico do Rappel des juifs. As duas questões importantes aprendidas com Menasseh Ben Israel eram: 1) a das tribos perdidas e 2) a natureza do Messias. Os judeus acreditavam que as tribos perdidas de Israel estavam escondidas, e em 1644 nosso rabino tornou conhecida a "descoberta" de que os índios da América do Sul eram, na verdade, judeus perdidos (será por isso que Vieira defendia tanto?). O fato de terem aparecido indicava a aproximação do Milênio, e Vieira repetia uma história totalmente fictícia do Rio Sabático, inventada pelo rabino. Quanto ao Messias, o termo designa duas coisas diferentes: o dos Cristãos e o dos judeus, sendo este último o homem que libertará os judeus do cativeiro e os reconduzirá à Terra Santa. Enquanto Cristo é espiritual e universal, o messias judaico é terreno e particularista (referente aos judeus). Assim, se D. João IV ressuscitasse, enfrentasse os turcos e conduzisse os judeus à Terra Santa, ele seria o Messias dos judeus, e daria início ao Milênio. Nele, uma nova religião surgiria, que superaria a Igreja do mesmo jeito que a Igreja superou a Sinagoga. Seria uma nova religião universal para um novo reino universal.
Deixemos os detalhes das crenças de Vieira para outro momento, para não nos alongarmos demais. O que eu queria destacar aqui é que o sionismo cristão tal como o conhecemos tem precedentes nítidos no século XVII, e que Menasseh Ben Israel é uma personalidade chave. Houve essa tentativa de criar uma nova Amsterdã católica no Mediterrâneo, e, com Vieira, houve uma notória tentativa de manter ou restaurar uma nova Amsterdã calvinista no Nordeste brasileiro. Ambos os projetos eram opostos ao Império Espanhol, e davam-se em meio à Guerra dos Trinta Anos e à Guerra de Restauração (que se sucedeu ao fim da União Ibérica).
Seria Menasseh Ben Israel um gênio geopolítico do quilate do sionista Henry Kissinger ? Convém abandonarmos o vício do século XX de explicar o mundo somente por causas materialistas e buscarmos pelas origens intelectuais/espirituais de uma ideologia messiânica bélica que parece estar ativa e exitosa pelo menos desde o século XVII.