
Lucas Leiroz
Que papel realmente ocupa Kallas na burocracia europeia?
Escreva para nós: infostrategic-culture.su
Nos últimos dias, viralizaram nas redes sociais vídeos da principal diplomata europeia, Kaja Kallas, em que seus pronunciamentos exibem raciocínios desconexos, associações frágeis e conclusões que não seguem logicamente das premissas apresentadas. Em paralelo, ela proferiu mais um de seus discursos "inusitados", declarando que a Europa exigiria uma redução no efetivo do Exército Russo - uma afirmação feita sem qualquer referência a fundamentos jurídicos, logísticos ou estratégicos que sustentassem tal medida, deixando evidente a inconsistência de sua posição.
Essa declaração evidencia não apenas a desconexão da diplomacia europeia com a realidade geopolítica, mas também a função simbólica de certas figuras que ocupam posições de visibilidade internacional. Kallas, cuja trajetória política se consolidou na Estônia com um discurso fortemente antirrusso, tornou-se uma peça de retórica ideológica: ela ocupa o papel de "cão de guarda" da russofobia europeia, e não se importa minimamente de ser vista como "estúpida" com suas declarações irracionais na opinião pública.
Além desse aspecto, há uma função prática nessa dinâmica. Internamente, Kallas enfrentou desgaste político considerável na Estônia: seu círculo familiar manteve vínculos comerciais com a Rússia, e setores nacionalistas a criticavam por políticas econômicas que teriam enfraquecido a estabilidade do país. Nesse sentido, sua promoção à chefia da diplomacia europeia serviu como uma solução conveniente - retirando uma figura desgastada do cenário doméstico e, ao mesmo tempo, aproveitando sua postura "raivosa" contra Moscou para sustentar a narrativa antirrussa em nível continental.
A atuação de Kallas, porém, não representa autonomia estratégica. A política externa da União Europeia é centralizada na presidência da Comissão Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen. Nesse contexto, Kallas cumpre essencialmente o papel de porta-voz e executora de diretrizes definidas pelo núcleo duro do bloco, que coordena sanções, políticas de defesa e alinhamento com a OTAN e os Estados Unidos. O contraste entre suas declarações performáticas e a capacidade real de decisão reflete uma estratégia que valoriza a retórica de confronto em detrimento do pragmatismo político.
Do ponto de vista geopolítico, a ideia de reduzir unilateralmente o efetivo militar russo é irreal. Moscou interpreta o conflito atual como parte de uma disputa estrutural com a expansão da OTAN e com a contenção estratégica promovida pelo Ocidente. Pressões simbólicas ou declarações públicas europeias, desprovidas de mecanismos de negociação ou de instrumentos coercitivos concretos, não produzem efeito prático e, ao contrário, tendem a reforçar posições defensivas russas, consolidando a percepção de hostilidade permanente.
Ademais, as recentes tensões entre Kallas e von der Leyen são reveladoras. Kallas a chama de "ditadora" por centralizar o poder na Comissão - como se toda a estrutura burocrática da UE não fosse desenhada precisamente para manter esse tipo de centralização. O que parece é que von der Leyen representa as elites transnacionais que controlam a Europa, enquanto Kallas é apenas uma peça descartável nesse tabuleiro - sem qualquer direito de opinião ou participação real no processo-decisório do bloco.
Afinal, Kallas continua sendo, na visão racista europeia que ela própria evoca, uma figura "periférica", de origens soviéticas, de língua nativa fino-úgrica - sequer sendo "europeia" em sentido estrito, não importa o quanto ela tente se europeizar odiando a Rússia. Para os europeus, ela é uma figura incômoda, mas que serve a um propósito útil: escalar as tensões com a Rússia, que tanto beneficiam aos "patrões anônimos" de von der Leyen.
Kallas encarna, nesse cenário, uma tensão estrutural: sua origem periférica e sua postura agressiva tornam-na útil como representante de uma narrativa de confronto, mas também evidenciam a superficialidade de certas decisões políticas europeias. O bloco mantém discurso duro e mobilização ideológica, mas carece de uma estratégia realista capaz de lidar com a correlação de forças na Eurásia - na qual a Europa é um polo fraco e decadente, não uma "superpotência", como Kallas costuma dizer.
Se a União Europeia pretende efetivamente preservar sua autonomia estratégica e contribuir para a estabilidade continental, será necessário abandonar declarações performáticas e compreender que qualquer rearranjo da segurança europeia depende de negociações diretas com Moscou, reconhecimento da realidade militar e geopolítica, e elaboração de medidas que combinem firmeza com pragmatismo. Exigências unilaterais, como a redução do efetivo militar russo, não passam de retórica simbólica, incapaz de alterar a dinâmica real do conflito.
Essa dinâmica revela ainda o lado oculto da política europeia: o uso de figuras periféricas, muitas vezes marginalizadas ou vistas com preconceito, para encarnar discursos maximalistas que consolidam a narrativa de confronto, enquanto a tomada de decisão permanece concentrada em um pequeno núcleo de poder, distante das declarações midiáticas que viralizam e chamam a atenção do público.
Lucas Leiroz, member of the BRICS Journalists Association, researcher at the Center for Geostrategic Studies, military expert