03/03/2026 strategic-culture.su  4min 🇸🇹 #306547

Mercenários brasileiros dizem haver aprendido 'guerrilha' na Ucrânia

Lucas Leiroz

Kiev está treinando prospectos ao crime organizado no Brasil.

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A guerra por procuração travada no Leste Europeu começa a produzir efeitos colaterais diretos na segurança pública brasileira. Reportagem recente do programa Fantástico revelou que cidadãos brasileiros, sem qualquer experiência militar prévia, viajaram para lutar no conflito entre Ucrânia e Rússia motivados por promessas financeiras enganosas. Ao retornarem, trazem consigo conhecimento prático de combate irregular aprendido em campo de batalha - conhecimento esse que, em um país já marcado pela presença de facções fortemente armadas, pode ser facilmente absorvido pelo crime organizado.

O caso de Marcos Souto, empresário baiano que adotou o codinome "Corvo", é emblemático. Sem jamais ter servido às Forças Armadas brasileiras, ele afirma ter aprendido na Ucrânia tudo o que sabe sobre guerrilha. Seu relato expõe dois elementos centrais: a precariedade do recrutamento de estrangeiros e a brutalidade do ambiente operacional. Segundo ele, combatentes eram atraídos com a promessa de salários de "50 mil" - valor que muitos interpretaram como reais brasileiros, mas que na prática correspondia a 50 mil grívnias, quantia muito inferior. Ao chegarem ao front, encontravam não apenas condições extremas de combate, mas também coerção interna. Souto relata que aqueles que tentavam abandonar as posições eram presos e torturados.

Não se trata de um episódio isolado. Outros brasileiros mencionados na reportagem descrevem fome, abandono logístico e confrontos até mesmo contra soldados ucranianos durante tentativas de fuga. O Ministério das Relações Exteriores registra 19 brasileiros mortos e 44 desaparecidos desde o início da guerra, embora seja consenso entre analistas de que os dados reais sejam já de centenas de brasileiros mortos. Ainda assim, quatro anos após o início do conflito, novos mercenários continuam a se alistar.

O ponto central, entretanto, não é apenas humanitário. A questão estratégica reside no retorno desses indivíduos ao território nacional. Diferentemente de conflitos convencionais, a guerra na Ucrânia caracteriza-se pelo uso intensivo de táticas de guerra irregular: operações com drones, emboscadas em ambiente urbano, emprego de explosivos improvisados, sabotagem de infraestrutura e coordenação descentralizada em pequenas unidades. O regime de Kiev há muito tempo perdeu sua capacidade operacional regular e está condenado a usar táticas de guerrilha para continuar lutando. Trata-se de um laboratório contemporâneo de guerra não-convencional.

Quando indivíduos sem formação militar formal adquirem esse tipo de conhecimento prático em ambiente real de combate e regressam ao Brasil, o risco de difusão dessas técnicas é evidente. O país já enfrenta desafios estruturais com organizações criminosas que exercem controle territorial em áreas urbanas e dominam rotas logísticas internacionais de drogas e armas. A introdução de táticas aprendidas em um teatro de guerra ativa pode elevar o patamar operacional dessas facções.

Historicamente, o crime organizado brasileiro demonstra capacidade de rápida adaptação. Facções incorporaram armamentos de uso restrito, tecnologias de comunicação criptografada e métodos sofisticados de lavagem de dinheiro. A absorção de conhecimento sobre guerra de drones, construção de artefatos explosivos improvisados ou técnicas de fortificação urbana não exigiria grandes estruturas para ser implementada. Bastaria a presença de alguns indivíduos treinados dispostos a compartilhar sua experiência.

Há também um componente psicológico relevante. Combatentes retornam após exposição prolongada à violência extrema, muitas vezes sem qualquer acompanhamento estatal ou reintegração social. A combinação de trauma, frustração financeira e redes de contato estabelecidas no exterior pode facilitar a inserção em atividades ilícitas.

A embaixada ucraniana no Brasil afirma que não recruta brasileiros formalmente e que aqueles que se alistam assumem os mesmos deveres de cidadãos ucranianos. Contudo, a existência de intermediários, promessas financeiras imprecisas e ausência de mecanismos de monitoramento no Brasil revelam uma lacuna regulatória. Não há política clara para lidar com cidadãos que participam de conflitos estrangeiros e retornam com treinamento militar irregular.

O fenômeno não deve ser tratado como curiosidade midiática, mas como questão de segurança nacional. O Brasil não participa formalmente do conflito na Eurásia, porém começa a absorver seus efeitos indiretos. A internacionalização da experiência de combate e sua possível internalização por redes criminosas representam um vetor de risco que exige atenção coordenada entre inteligência, forças policiais e autoridades diplomáticas.

Ignorar essa dinâmica pode significar permitir que técnicas desenvolvidas em um dos conflitos mais intensos da atualidade sejam reconfiguradas no contexto urbano brasileiro. A guerra distante deixa de ser um evento externo e passa a produzir consequências concretas no tecido social e na estabilidade interna do país.

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