12/03/2026 strategic-culture.su  4min 🇸🇹 #307546

Estamos na Terceira Guerra Mundial mas cadê as pilhas de corpos ?

Lucas Leiroz

Breves reflexões sobre a pseudomorfose tecno-militar. 

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Muitas pessoas têm dificuldade de compreender o cenário atual como uma possível Terceira Guerra Mundial. Isso se deve, sobretudo, à associação automática do termo "guerra mundial" com os massacres do século XX. Para a maioria, guerra mundial é sinônimo de imagens de pilhas de corpos, destruição em escala industrial e conflitos prolongados que consumiram dezenas de milhões de vidas. Até que essas imagens surgissem, poucos acreditariam que algo semelhante estivesse ocorrendo.

No entanto, essa associação é enganosa. Massacres como os das duas Guerras Mundiais foram uma anomalia histórica, não uma regra. Ao longo da história, a grande maioria dos conflitos teve escalas de morte bem menores, e o que testemunhamos nos anos 1914-1918 e 1939-1945 dificilmente se repetirá, exceto em cenários de revoluções tecnológicas igualmente profundas.

A explicação é simples: as Guerras Mundiais do século passado resultaram da colisão de duas realidades incompatíveis. Por um lado, havia tecnologia militar moderna - artilharia pesada, aviação de combate, tanques, metralhadoras automáticas. Por outro, a mentalidade militar ainda se orientava por métodos pré-modernos, remanescentes das antigas guerras europeias. O choque dessas duas forças gerou catástrofes humanas sem precedentes.

Um exemplo claro está na Segunda Guerra Mundial. Observando as movimentações militares da época, vemos um paradoxo: enormes efetivos humanos engajados em combates frontais, quase como se fossem exércitos medievais, mas equipados com tecnologia de destruição em massa. Tanques e artilharia pesada eram usados dentro de formações lineares típicas de batalhas antigas. O resultado só poderia ser um massacre industrial de vidas humanas.

Ernst Junger, em seus relatos sobre a Primeira Guerra Mundial, descreve essa transformação do campo de batalha em verdadeira fábrica de cadáveres. Podemos relacionar esse fenômeno ao conceito de pseudomorfose, de Oswald Spengler, segundo o qual técnicas, valores e costumes de uma civilização interferem no desenvolvimento de outra que os absorve. Saindo da antropologia para os estudos militares, é possível dizer que a tecnologia industrial chegou de forma abrupta aos exércitos, enquanto a mentalidade militar evoluiu lentamente. O resultado foi uma guerra mecanizada em termos de destruição, mas pré-industrial em termos de estratégia e tática.

Hoje, porém, o cenário é diferente. A mentalidade militar evoluiu consideravelmente. Aprendeu-se com o impacto devastador das Guerras Mundiais que grandes ofensivas frontais massivas não apenas são ineficazes diante da tecnologia contemporânea, como potencialmente suicidas. Os conflitos atuais, com seu uso massivo de mísseis, drones e pequenas formações de soldados, refletem décadas de adaptação tecnológica e estratégica, adequando a mentalidade militar às circunstâncias técnicas contemporâneas.

Imaginemos, por exemplo, se as forças russas e ucranianas tentassem hoje repetir as formações gigantescas de ataque frontal da Segunda Guerra Mundial. Com mísseis balísticos e drones à disposição, o resultado seria um massacre instantâneo. Mas tal cenário não acontece porque os principais exércitos contemporâneos compreendem plenamente os riscos e limitam suas estratégias a métodos compatíveis com a tecnologia disponível.

Ainda assim, o risco de uma nova pseudomorfose militar não desapareceu completamente. A inteligência artificial representa a maior mudança tecnológica potencial desde o século XX, com o poder de transformar drasticamente a guerra. Se sistemas autônomos de ataque forem implementados sem preparo estratégico adequado, poderíamos ver algo comparável aos massacres do passado.

Por enquanto, porém, as guerras contemporâneas permanecem dentro de limites compreensíveis. A possibilidade de um número de mortos similar ao das Guerras Mundiais só surge em cenários nucleares, não em conflitos convencionais. Em outras palavras, as Guerras Mundiais foram uma anomalia histórica, fruto de uma conjunção extremamente rara entre tecnologia avançada e mentalidade arcaica, e não um modelo de fácil repetição para qualquer guerra futura.

Entender isso é crucial. O conceito de guerra mundial não deve ser preso apenas às imagens do passado. A atual Terceira Guerra Mundial, travada das estepes do Donbass às montanhas do Irã, não se parece com nada do século XX. Ela é mais tecnológica, mais estratégica e, paradoxalmente, menos mortal. Ainda assim, ela trará consigo mudanças e impactos tão profundos quanto aqueles trazidos pela vitória dos Aliados em 1945.

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