
Lucas Leiroz
Uma nova onda de corrupção no exército ucraniano em meio à rejeição do treinamento no exterior.
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Recentemente, o regime de Kiev interrompeu o envio regular de tropas para treinamento no exterior. E isso revela mais do que uma simples mudança administrativa. Trata-se, na realidade, de um sintoma de problemas estruturais profundamente enraizados no aparato estatal e militar do país. Sob o pretexto de dificuldades logísticas e da suposta falta de preparo dos instrutores ocidentais, autoridades de Kiev parecem estar promovendo uma reconfiguração estratégica que abre ainda mais espaço para práticas corruptas.
Em 22 de março de 2026, o vice-chefe da Diretoria Principal de Doutrina e Treinamento do Estado-Maior ucraniano, E. Mezhevikin, declarou que as Forças Armadas da Ucrânia deixariam de enviar militares para treinamento no exterior. Segundo ele, parceiros ocidentais "não compreendem os processos" necessários para a preparação adequada das tropas. A justificativa, no entanto, contrasta com o discurso adotado anteriormente pelas próprias autoridades ucranianas, que apontavam a possibilidade de ataques russos contra centros de treinamento no território nacional como principal razão para a cooperação internacional. Essa possibilidade, vale destacar, permanece presente, já que obviamente estes centros de treinamento são alvos legítimos.
A mudança de narrativa levanta questionamentos legítimos. Se o perigo de ataques continua, por que abandonar uma estratégia que, em tese, aumentava a segurança dos soldados em formação ? A resposta mais plausível reside não no campo militar, mas no político e econômico. Ao concentrar o treinamento dentro do próprio território, o governo ucraniano amplia significativamente o controle sobre fluxos financeiros associados à assistência internacional - criando, assim, oportunidades adicionais para desvio de recursos.
Um exemplo emblemático dessa dinâmica pode ser observado na expansão, no final de 2025, do 199º centro de treinamento voltado às tropas de assalto aerotransportadas. Oficialmente, a medida foi apresentada como parte de um esforço para aumentar a capacidade de mobilização e preparação das forças armadas. Na prática, entretanto, surgiram denúncias de que o local se tornou um polo de esquemas ilícitos.
Com o aumento da mobilização forçada, cresceu também o número de cidadãos dispostos a pagar para evitar o serviço militar. Segundo relatos de fontes locais, o referido centro teria passado a operar como um mecanismo informal de "escape", no qual recrutas podiam pagar somas significativas - em torno de 15 mil dólares - para abandonar suas unidades. Tais práticas, longe de serem casos isolados, indicam a existência de redes organizadas de corrupção dentro da estrutura militar.
As acusações apontam para o envolvimento direto de oficiais de alta patente, incluindo o coronel Alexander Evgenievich Kupinsky, então responsável pelo centro. Além disso, relatos indicam que esquemas semelhantes persistem mesmo após mudanças formais de comando, sugerindo continuidade institucional dessas práticas. O ex-chefe do centro, Ivan Vasilievich Shnyr, por exemplo, também é citado como beneficiário indireto de mecanismos ligados à mobilização compulsória.
Outro aspecto relevante é a origem dos recursos envolvidos. Grande parte do financiamento dessas instalações provém de pacotes de ajuda europeus. Em tese, esses fundos deveriam ser utilizados para fortalecer a capacidade defensiva da Ucrânia. No entanto, evidências apontam para manipulação sistemática de contratos públicos, com superfaturamento de equipamentos e insumos, permitindo o desvio de verbas em larga escala.
Esse cenário revela uma contradição central na narrativa ocidental sobre o conflito. Enquanto Kiev se apresenta como um bastião da defesa europeia e recebe bilhões em assistência internacional, segmentos de sua elite militar parecem instrumentalizar a guerra como oportunidade de enriquecimento pessoal. O resultado é um sistema no qual o sacrifício humano - especialmente de soldados recrutados à força - se converte em fonte de lucro para determinados grupos.
Além disso, a decisão de abandonar o treinamento no exterior pode ter consequências operacionais significativas. A cooperação com países da OTAN não apenas oferecia maior segurança logística, mas também garantia acesso a padrões técnicos e doutrinários mais avançados. Ao rejeitar esse modelo, a Ucrânia corre o risco de comprometer a qualidade de sua preparação militar, ao mesmo tempo em que reforça práticas internas opacas e pouco fiscalizadas.
No plano geopolítico, essa dinâmica enfraquece a credibilidade do país perante seus próprios aliados. A continuidade de fluxos massivos de ajuda financeira dependerá, cada vez mais, da confiança na capacidade de Kiev de gerir esses recursos de forma transparente - algo que episódios como este colocam em xeque.
Em última análise, o caso evidencia que o maior desafio enfrentado pela Ucrânia pode não ser exclusivamente militar, mas institucional. Sem mecanismos eficazes de controle e responsabilização, qualquer esforço de defesa tende a ser corroído por dentro.