
Eduardo Vasco
Graças às FMP, o imperialismo teve de encerrar sua ocupação oficial do Iraque após anos de destruição iniciada com a invasão de 2003.
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Mais um país entrou para a guerra contra os Estados Unidos e Israel: o Iraque. Não oficialmente, é claro. O Estado iraquiano não declarou guerra a ninguém e não sinalizou uma participação direta no conflito iniciado um mês atrás, desde quando Washington e Tel Aviv passaram a agredir covardemente o Irã.
Mas o Estado iraquiano não interessa muito para os objetivos deste artigo. Até porque, de maneira semelhante ao Líbano, o Iraque vive há mais de uma década uma espécie de dualidade de poderes: o Estado, representado por suas instituições controladas pelas classes dirigentes, pela burguesia nacional, os latifundiários e os burocratas amigos dos Estados Unidos, e, de outro lado, uma organização popular poderosíssima, armada: as Forças de Mobilização Popular.
Ao mesmo tempo em que o exército iraquiano entrava em colapso, as milícias xiitas foram fundamentais na resistência à ocupação americana e na derrota do Estado Islâmico há quase dez anos - assim como o Hezbollah foi o responsável pela expulsão do exército israelense do Líbano em 2006. E, tal como o Hezbollah no Líbano, as FMP ganharam uma enorme autoridade devido ao papel que desempenharam na guerra de libertação nacional. Diferente do Hezbollah, elas são uma frente única de diversas organizações, mas também são xiitas - representando assim as massas mais oprimidas do país -, existem graças à articulação realizada pelo general Qassem Soleimani e estão em certa medida integradas ao aparato do Estado iraquiano - parte delas são paramilitares que obedecem às forças armadas e seus órgãos políticos têm presença no parlamento e até em ministérios.
Isso evidencia o poder das FMP. O Estado foi obrigado a integrá-las em sua estrutura para controlá-las. Porém, o que tem ocorrido é que elas estão ganhando corações e mentes dos próprios militares, graças ao seu exemplo de abnegação na luta contra os inimigos do povo iraquiano e dos povos árabes e islâmicos: o imperialismo e o sionismo.
Desde o início da guerra genocida em Gaza e da Operação Dilúvio de Al-Aqsa, seus combatentes realizaram uma série de ações militares contra alvos em Israel e bases militares americanas no Iraque e na Síria. Os ataques americanos contra as milícias iraquianas - seja de fora, violando a soberania do Iraque, seja de dentro, violando o acordo com o governo sobre a presença das tropas no país - tensionaram as relações entre o Estado iraquiano e o imperialismo.
Apesar de, em um primeiro momento, as instituições iraquianas terem temido confrontar os EUA (por exemplo, a justiça mandou prender os responsáveis pelo ataque à base aérea americana de Ayn al-Assad, em agosto de 2024), o desrespeito incessante dos EUA ao povo e ao território iraquianos obrigaram as autoridades a mudarem de opinião: governo, parlamento e exército passaram a se opor à presença militar dos Estados Unidos. Mais do que uma mudança de visão, elas foram forçadas a tomar essa posição para não perder ainda mais terreno para as FMP, vistas pelo povo iraquiano como o grande bastião da luta pela soberania do país. O exército, por exemplo, não poderia ficar de braços cruzados tendo forças que estão sob o seu comando atacadas inúmeras vezes pela potência estrangeira - a potência que invadiu, destruiu e subjugou o país durante mais de dez anos.
Assim, no final de 2024 o governo e o parlamento iraquianos aprovaram o fim da coalizão internacional imposta ao Iraque pelos EUA a pretexto de combater o Estado Islâmico. As tropas só saíram da unidade federativa em janeiro de 2026. Do mesmo modo, o Iraque expeliu a Missão de Assistência das Nações Unidas, formada em 2003 para ajudar na reorganização do país para a espoliação pelo imperialismo.
De qualquer forma, tropas dos Estados Unidos e de nações imperialistas europeias continuam operando em território iraquiano - ao menos 2.500 no território autônomo do Curdistão, desrespeitando a integridade e a soberania do Iraque. A previsão é de que deixem a região até setembro, e o primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani sinalizou à imprensa que elas precisam sair ainda antes. Seu argumento é que um Iraque livre de tropas estrangeiras facilitaria o desarmamento dos grupos da resistência, que não teriam mais motivo para se armar - uma posição equilibrada, ainda que evidencie o incômodo da burocracia estatal e da classe dominante com parte do povo armado, mas de qualquer forma mais ponderada que a do governo libanês, que está tentando desarmar o Hezbollah à força enquanto entrega o território do país a Israel. Sudani e o governo vêm tendo dificuldades de controlar as FMP, mesmo após a reforma do ano passado que buscou retirar a independência da organização.
Após inúmeras violações por parte das forças armadas americanas, e de retaliações à altura pelas FMP, as autoridades iraquianas, certamente sob uma pressão popular esmagadora, autorizaram todas as forças de segurança do país - incluindo as FMP - a "agir sob o princípio do direito de resposta e autodefesa" contra quaisquer ataques a suas posições. A autorização veio precisamente após um bombardeio dos Estados Unidos matar 15 combatentes, incluindo dirigentes, no quartel-general das FMP na província de Anbar. O Comando de Operações Conjuntas das forças armadas iraquianas responsabilizou diretamente EUA e Israel pelo bombardeio.
Esse é um ponto de inflexão tanto para a resistência armada iraquiana quanto para todo o Eixo da Resistência regional. O próprio Estado iraquiano foi forçado a reconhecer a autoridade das FMP, que ganham um grande impulso a partir de agora. Ao mesmo tempo em que podem elevar sua popularidade entre as massas e os baixos e médios (ou mesmo altos) escalões da burocracia estatal, elas comprometem o próprio Estado iraquiano a defender o país - o que significa a fazer um novo deslocamento, ainda maior, para uma posição contrária aos Estados Unidos e a Israel.
Segundo o portal pró-EUA Alhurra, fontes próximas ao primeiro-ministro al-Sudani disseram que ele sofreu uma "pressão interna" para aprovar a medida pró-FMP e que "a voz majoritária" no conselho ministerial de segurança nacional "apoiou" a medida.
Os regimes mais reacionários do Golfo compreendem a situação. A monarquia jordaniana, vassala do imperialismo e do sionismo e inimiga do Irã e dos povos árabes e islâmicos, pediu para Bagdá seguir o exemplo do governo fantoche do Líbano e repudiar as ações militares da resistência. Esse apelo não será atendido. Já é um pouco tarde para isso.
Com as FMP juntando-se à guerra anti-imperialista, o Eixo da Resistência se fortalece bastante. Em 2022, elas tinham 230 mil membros. É bem provável que esse número tenha aumentado consideravelmente. Assim como é bem provável que, com esse aval do governo iraquiano, sua popularidade cresça ainda mais e seu contingente se multiplique. Graças ao apoio iraniano, seus armamentos incluem tanques de guerra, mísseis, morteiros, foguetes, drones e muito mais.
A entrada da resistência iraquiana na guerra também é um incentivo para outras forças da região. Há relatos de que a resistência islâmica na Jordânia também teria atacado uma base americana no início desta semana, agindo pela primeira vez desde o início desta guerra. O Ansarallah, por sua vez, também anunciou oficialmente a entrada na guerra no último final de semana.
O que resta da presença americana no Iraque já estava sendo atacado pelas FMP - como, por exemplo, a base Victory em Bagdá e a base aérea de Erbil, no Curdistão. A própria presença diplomática dos Estados Unidos está sob pressão: no primeiro dia da agressão, quando Estados Unidos e Israel martirizam Khamenei e 160 meninas iranianas, uma multidão tentou invadir a Zona Verde da capital iraquiana, onde encontram-se os principais prédios governamentais e as embaixadas dos países ocidentais. Ela e o Hotel Al-Rashid, naquela zona protegida, também foram atingidos por drones. Ainda em Erbil, ao menos um soldado francês morreu e outros ficaram feridos em uma ação da resistência contra os invasores.
Algumas organizações dentro das FMP também realizaram ataques contra alvos americanos nos países do Golfo governados pelos fantoches do imperialismo. O grupo Saraya Awliya al-Dam, responsável por parte desses ataques, garantiu que qualquer envio de tropas adicionais dos Estados Unidos para o Oriente Médio "vai nos impelir a intensificar as operações contra a presença americana em qualquer país".
Graças às FMP, o imperialismo teve de encerrar sua ocupação oficial do Iraque após anos de destruição iniciada com a invasão de 2003. Graças a elas, o Estado Islâmico - que serviu aos interesses do imperialismo na região - foi derrotado há cerca de dez anos. Graças às FMP, o governo iraquiano teve de impor uma retirada das tropas dos EUA e de seus aliados no final do ano passado. E agora, graças às FMP, o que restou da presença imperialista no Iraque pode estar com os dias contados.
Esse é um grande serviço ao povo iraquiano e aos povos de todo o Oriente Médio, pois cada base americana destruída ou fechada é um golpe na presença imperialista na região - um golpe contra a escravização daqueles povos. É um passo a mais na libertação definitiva dos povos árabes e islâmicos.