
Bruna Frascolla
A história do sionismo é a história de uma vertente da cabala que tentou se infiltrar no cristianismo e dominar o judaísmo.
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A Igreja Universal do Reino de Deus foi fundada por Edir Macedo no Rio de Janeiro em 1977. Em 2014, após consolidar a sua presença em variados países do mundo (em especial na África e na Ibero-América), inaugurou em São Paulo o gigantesco Templo de Salomão. O edifício pretender ser uma réplica do templo veterotestamentário, e se assemelha aos emblemas do Terceiro Templo usados pelo exército de Israel. Desde então, Edir Macedo não se apresenta mais como um pastor protestante normal de terno e gravata. Ele faz cosplay de rabino num ambiente que poderia ser usado nas filmagens das novelas bíblicas da Record, a sua rede de televisão.
Edir Macedo apenas torna visível a olho nu o fato de que os tele-evangelistas, de modo geral, aboliram o Novo Testamento e se dedicam a viver uma fantasia de inspiração veterotestamentária que ordena a submissão a Israel e promete dinheiro ao povo. Tudo isso não deixa de ser surpreendente, já que é um cristianismo sem Cristo que goza de grande popularidade.
Parece um delírio coletivo. Ouvindo os pastores-coach da "teologia da prosperidade", não podemos compreender por que Jesus viveu na pobreza, em vez de se tornar o maior comerciante da História. Multiplicando pão, peixe e vinho, ele seria o único comerciante capaz de lucrar com investimento zero. Quebraria a concorrência com dumping e conquistaria o mercado de todo o Império Romano. Depois ainda venderia aos incautos curso de multiplicação de pão.
A ascensão do sionismo cristão de modo geral e do tele-evangelismo de modo particular ensejam profícuas pesquisas sobre as ingerências da CIA e do Mossad. No entanto, venho mostrando que o sionismo cristão tem uma história mais velha. Vimos, por exemplo, que o primeiro sionista cristão da História provavelmente é o padre cabalista do século XVI Guillaume Postel, que foi considerado louco pela Igreja e proibido de ensinar. Ele queria que o Rei da França reconquistasse a Terra Santa, acabasse com o papado corrupto de Roma e reconstruísse Terceiro Templo no lugar da Mesquita Dourada. Quando isso acontecesse, todas as coisas ocultas se revelariam e o mundo teria uma única religião: a da cabala.
Cheguei ao nome de Postel porque ele é apontado como uma provável inspiração para Isaac La Peyrère no século XVII. Tal como Postel, Peyrère achava que o Rei da França tinha um papel especial na História da salvação e que deveria reconquistar Jerusalém. Peyrère argumentava que a França era a "terra da liberdade" porque lá não havia escravidão, então por isso todos os judeus do mundo deveriam ir para lá e aguardar que o Rei da França os conduzisse até Jerusalém. Nessa fase preparatória, deveria ser criada uma igreja judaico-cristã para receber os judeus.
Sirvo-me do resumo do historiador Richard Popkin em La Peyrère (1596-1676): His Life, Work and Influence: "O método de La Peyrère era criar uma igreja judaico-cristã especial que iria aderir a uma crença cristã mínima que seria ao mesmo tempo aceitável para os judeus. Tal igreja, imaginava, não teria doutrinas, dogmas nem credos, exceto pela crença em Jesus e a crença na ressurreição dos mortos. Essa igreja não teria teologia racional (porque engendra ceticismo). As cerimônias seriam reduzidas a duas: o batismo e a eucaristia. Obviamente, notou La Peyrère, isso simplificaria mais a vida dos judeus cristãos do que se eles continuassem a seguir a lei mosaica. Nessa igreja, o batismo substituiria a circuncisão. A Eucaristia seria a base para fazer as pessoas levarem vidas virtuosas. O efeito de tudo isso seria, segundo La Peyrère, a recriação do cristianismo primitivo, que era, afinal de contas, cristianismo judaico. A liturgia dessa igreja seria simplificada. Enfatizaria a base do Velho Testamento para a cristandade judaica. Toda a miríade de argumentos teológicos que foram desenvolvidos desde o primeiro seculo seria abandonada. Assim, o cristianismo judaico se desenvolveria estritamente do judaísmo."
O tele-evangelismo do final do século XX e início do XXI é um cristianismo ainda mais despojado do que o planejado por La Peyrère. Por certo, o tele-evangelismo não atendeu à expectativa de converter os judeus. Ainda assim, olhando para o judaísmo atual, que é esmagadoramente sionista, e para o sionismo cristão, podemos concluir que o plano de La Peyrère foi tão bom que os judeus nem precisaram se converter: os cristãos é que se descristianizaram e passaram a apoiar a mesmíssima agenda dos judeus.
É, portanto, um discurso sionista bem diferente do de Theodor Herzl (o ateu do século XIX, pai do movimento sionista), porém bem semelhante do sionismo atual, que une Netahyahu a milhões de protestantes.
Quem era esse La Peyrère ? Publicamente, era um calvinista francês que trabalhava para o Príncipe Condé, primo do rei Luís XIV. Condé, a seu turno, queria tomar o lugar do primo - assim, os escritos messiânicos de Postel foram ótimos para Peyrère puxar o saco do chefe. É relevante o dado de que o Grand Condé era um libertino erudito, tal como a rainha Cristina da Suécia, que notoriamente tinha o hábito de blasfemar mesmo depois de abdicar do trono sueco e se converter ao catolicismo. E quando Cristina abdicou, ela se mudou para a casa de um comerciante judeu em Bruxelas, e o Grand Condé enviou La Peyrère para morar no prédio anexo. Lá ele fez política e influenciou, via Cristina, outros messiânicos já abordados aqui na SCF: Menasseh Ben Israel e Antônio Vieira.
Segundo Popkin, La Peyrère era com toda probabilidade um marrano, pois "Peyrère" deve ser um afrancesamento do nome português Pereira, e porque Bordeaux, sua cidade de origem, era um ponto de judeus sefarditas fugidos de Portugal (os irmãos Péreire, banqueiros do século XIX, eram sefarditas de Bordeaux). Além disso, numa correspondência, Peyrère se disse judeu cristão.
Peyrère tornou-se conhecido no mundo das letras pelo seu manuscrito Prae-Adamitae, no qual interpretava uma carta de São Paulo para concluir que existiam homens antes de Adão, que Adão é o ancestral apenas dos judeus, e que os judeus são os responsáveis pela salvação da humanidade, já que eles fizeram o favor de rejeitar Cristo e deixá-lo para nós. Pré-adamitismo à parte, isso é a crença mainstream do neopentecostalismo hoje: a salvação da humanidade se dá por meio do povo escolhido, e Jesus é visto antes como um judeu do que como Deus encarnado. Não obstante, Peyrère gerou fúria dos calvinistas da época e acabou se convertendo ao catolicismo para escapar. Converteu-se e abjurou do pré-adamitismo, alegando que sua filosofia era a decorrência natural do calvinismo, uma religião sem autoridade que permite o livre exame. A essa altura, o manuscrito já havia sido impresso com o financiamento de Cristina.
De tudo isso, que concluímos ? Que provavelmente a história do sionismo é a história de uma vertente da cabala que tentou se infiltrar no cristianismo e dominar o judaísmo. Não conseguiu se infiltrar no catolicismo; conseguiu se infiltrar rápido no protestantismo, e só no século XX tornou-se dominante no judaísmo. O movimento sionista mais famoso, liderado por Herzl, surgiu entre judeus ateus do século XIX. Como ele contava com o apoio de protestantes ingleses e oposição da ortodoxia rabínica, é comum os historiadores marxistas atribuírem a invenção do sionismo aos protestantes ingleses interessados no petróleo otomano. No entanto, é preciso lembrar que o judaísmo tem mais de uma vertente, e o século XVII (de Peyrère, Condé, Cristina da Suécia, Antonio Vieira, Menasseh Ben Israel) foi o século do maior movimento messiânico e cabalista judaico, o sabateísmo.
A História precisa ser reestudada levando em conta essas movimentações religiosas. Só assim podemos enxergar o fio que conecta um filósofo esquecido do século XVII aos pastores belicosos do século XXI.