
Eduardo Vasco
Toda a direita que se diz combatente da liberdade revela sua verdadeira face: são os grandes defensores da polícia e do encarceramento em massa, da lei e da ordem - ou seja, do controle completo do Estado sobre a sociedade.
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A direita que se passa por liberal, ou "libertária", finge defender o máximo de direitos e de liberdades individuais para os cidadãos e o mínimo controle do Estado sobre a sociedade. Mas ela defende direitos e liberdades apenas para ela mesma, para os "cidadãos de bem" (que ela escolhe quem são), enquanto para o resto ela defende a mais feroz ditadura. Esse "cidadão de bem", o arquétipo do homem de direita, não é nada senão o vassalo mais fiel ao Estado e à burguesia. Isto é o "cidadão de bem": o zelador da ordem burguesa, da ditadura de uma ínfima minoria exploradora sobre a esmagadora maioria explorada.
Até pregam o direito ao armamento, mas apenas para o "cidadão de bem", apenas para os guarda-costas dos banqueiros. Isso não é direito, é privilégio. E um privilégio que serve ao Estado, à máquina de oprimir da burguesia. Essa farsa dos pretensos "libertários", "anarcocapitalistas" ou meros "liberais" cai por terra com um simples sopro. Direito é para todos. O que não é para todos é privilégio. E uma sociedade onde uma parte é privilegiada - e em que esse privilégio é institucionalizado - não é uma democracia, é um regime profundamente antidemocrático, se essa parte privilegiada, como são os "cidadãos de bem", na própria visão da direita, não é a maioria do povo, mas a minoria.
Nenhum "cidadão de bem" que diz defender o armamento aceita a ideia de que os sindicalistas da CUT, que representa milhões de trabalhadores, andem armados. Sempre que eles ouvem falar do MST, torcem por um novo banho de sangue contra os sem terra, que, no entanto, são outros milhões de cidadãos. E os moradores de favelas ? Bandidos ! A antítese dos "cidadãos de bem". No entanto, também são milhões de brasileiros, trabalhadores e cristãos. Só o latifundiário (uma peça de museu pré-capitalista, mas santificado pelos nossos "liberais") pode se armar, não o sem terra; só o patrão, não o empregado; só o bolsonarista, não o petista.
Os bolsonaristas - o próprio partido de Bolsonaro chama-se "Partido Liberal" - são os mais fanáticos saudosistas da ditadura militar, que extirpou qualquer liberdade durante 21 anos. Como é possível que se digam defensores da liberdade ? Eles e os seus satélites que se descolaram da imagem de Bolsonaro para agradar a burguesia, quando esta passou a persegui-lo, babavam com as ilegalidades do julgamento do Mensalão e da Lava Jato contra o PT. Passaram a criticar o judiciário e o Estado só quando eles próprios começaram a sofrer aquilo que sofreram os petistas. São oportunistas desavergonhados. Defendem a liberdade apenas quando lhes convêm e apenas para eles.
E mesmo quando são vítimas de arbitrariedades do Estado, em um momento denunciam essas arbitrariedades e se projetam como baluartes da luta pelas liberdades democráticas, mas no momento seguinte pedem prisão para quem se expressa em defesa da Palestina e festejam as chacinas nas favelas, bradando que "bandido bom é bandido morto". E o que dizer dos "libertários" ou "anarcocapitalistas" antibolsonaristas, que fazem frente única com esses estatistas na defesa da censura ? Esses pseudo-iluministas viram de ponta-cabeça as concepções básicas daqueles que dizem seguir, assim como fazem os pseudomarxistas.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1791 diz que "ninguém deve ser molestado pelas suas opiniões" e a de 1793 acrescenta: "a necessidade de enunciar estes direitos supõe ou a presença ou a lembrança recente do despotismo"; a constituição da Pensilvânia declara que "nenhuma autoridade humana pode, em caso algum, intervir nas questões de consciência e controlar os poderes da alma" e a constituição de New Hampshire decreta que os direitos de consciência estão entre os direitos naturais "inalienáveis". E o que dizer da defesa do direito ao "ilimitado exercício da razão e da liberdade de opinião", dos "direitos de pensar e publicar nossos pensamentos, falando ou escrevendo", pregados por Jefferson, pai da constituição americana, defensor do autogoverno, inimigo da força pública e incentivador do direito de rebelião contra seu próprio governo ? A direita pseudo-iluminista joga tudo isso no lixo e chama a polícia contra seus adversários políticos.
Rosa Luxemburgo provava que os marxistas são os verdadeiros herdeiros das tradições libertárias da época revolucionária da burguesia quando afirmava que os socialistas "defendem o princípio de que a consciência e as opiniões das pessoas são coisas sagradas e intocáveis". Os pseudomarxistas provam que eles nada têm a ver com o marxismo.
Toda a direita que se diz combatente da liberdade revela sua verdadeira face: são os grandes defensores da polícia e do encarceramento em massa, da lei e da ordem - ou seja, do controle completo do Estado sobre a sociedade, do Estado policial e ditatorial que está se estabelecendo. São os maiores advogados da propriedade, em uma era em que a propriedade já está concentrada e monopolizada e os pequenos proprietários são esmagados pelos grandes, às vezes de maneira muito parecida com a qual são esmagados os despossuídos. Pregam a livre iniciativa apenas da boca para fora, somente como um argumento de defesa da ditadura dos monopólios. Para eles, o livre mercado é o regime de competição entre os monopólios e os pequenos proprietários, como se essa competição fosse livre. Acima de tudo, defender a democracia liberal (o regime político do livre mercado) na era dos monopólios, na sua fase imperialista (isto é, na época da supressão de qualquer igualdade que propicie a liberdade), é um anacronismo. Mas um anacronismo malandro, proposital, propagado pelos jornais e institutos do imperialismo para enganar a pequena burguesia e servir precisamente aos monopólios, aos grandes capitalistas, que são os maiores empecilhos para o desenvolvimento de qualquer liberdade e democracia.