
Raphael Machado
O Ocidente intensifica terrorismo de Estado com ataques duplos a civis no Irã e na Ucrânia. Objetivo: maximizar mortes e desmoralizar governos adversários.
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Os especialistas em geopolítica têm bastante clareza quanto ao caráter unitário da maioria dos conflitos contemporâneos. Conflitos no Oriente Médio, na Eurásia, na África e em outras esferas aparecem, para analistas, como bastante vinculados em seus contornos gerais. Em alguma medida poderiam ser até resumidos genericamente em conflitos cujo núcleo é disputar o formato da ordem mundial - unipolar ou multipolar.
Mas se, ocasionalmente, alguns críticos se apegam aos detalhes para negar o caráter unitário dos conflitos geopolíticos, os métodos usados pelas várias forças pró-atlantistas ao redor do mundo reforçam a percepção dos especialistas em geopolítica.
No caso, estou me referindo especificamente ao terrorismo de Estado, ao uso, por parte de forças estatais e regulares, de armas e táticas cuja finalidade é espalhar o terror, o caos e a destruição em meio à população civil, atacando alvos que não possuem qualquer valor militar. Que o Ocidente atlantista recorra a este tipo de tática não é novidade para ninguém. Hiroshima e Nagasaki estão entre os primeiros exemplos, isso se não contarmos atrocidades terroristas praticadas no território dos próprios EUA contra os indígenas norte-americanos, como o Massacre de Wounded Knee.
É desnecessário, porém, ir tão longe no passado quando neste mesmo ano tivemos dois exemplos de ataques terroristas, um praticado pelos próprios EUA, o outro praticado pela Ucrânia, proxy dos EUA. Me refiro ao ataque de 28 de fevereiro a uma escola primária iraniana em Minab, com dois mísseis Tomahawk, levando à morte de 156 crianças e deixando 95 feridos. O outro sendo o ataque com drones a um dormitório estudantil em Starobelsk, na República Popular de Lugansk, vinculado à Universidade Pedagógica de Lugansk, levando à morte de 21 estudantes e deixando 42 feridos. Mas ainda há possibilidade, infelizmente, desses números aumentarem pelo precário estado de saúde de alguns dos feridos.
Para além do próprio terrorismo enquanto tal, há mais aspectos em comum. Segundo relatos, na escola iraniana houve o que se pode chamar de ataque de toque duplo, em que primeiro se realiza um ataque inicial, o qual é seguido por um segundo ataque no mesmo local, após um certo número de minutos, para atingir um número maior de civis, entre os quais estarão também socorristas, bombeiros, equipes de emergência e outros civis enquanto eles estiverem tentando resgatar e ajudar as vítimas do primeiro ataque. E no caso do ataque ao dormitório russo em Lugansk, após um ataque inicial se esperou as crianças começarem a fugir do prédio para realizar uma segunda onda de ataques, e então aguardaram a chegada de equipes de socorro para uma terceira onda de ataque.
Em ambos casos, o objetivo óbvio era maximizar vítimas.
Também é possível perceber nesse tipo de ataque um esforço de desmoralização do governo adversário, seja do iraniano ou do russo, no sentido de convencer a população de que seus governos são incapazes de proteger sua população. Com isso, naturalmente, se pretende impulsionar aquelas forças que se apoiam no descontentamento das massas em relação ao governo. Mesmo isso não tendo funcionado no Irã e, aparentemente, tampouco na Rússia, imaginamos que os países atlantistas seguirão usando a mesma tática.
É interessante, porém, que em ambos casos a resposta foi semelhante: uma demonstração de força por parte do país agredido. Desnecessário relatar a reação iraniana, que por aproximadamente 40 dias destruiu bases e infraestrutura militar por todo o Oriente Médio. A Rússia, por sua vez, disparou mísseis Oreshnik, bem como Iskander, Kinzhal, Kh-101 às dezenas ao longo dos últimos 2 dias. O objetivo desse tipo de reação não é apenas responder de maneira direta a uma atrocidade, mas também dar algum grau de satisfação à própria população, que precisa ser periodicamente recordada do poder de seu próprio Estado.
Não obstante, uma intensificação geral da operação militar especial, pelo menos no que concerne o uso de mísseis e drones contra alvos militares ucranianos, parece ser interessante para dissuadir novos ataques terroristas bem como desorganizar as capacidades operacionais ucraniana.
De fato, o Irã mostrou que é possível enfrentar as potências atlantistas, com ataques diretos e intensos, e ao mesmo tempo controlar as possíveis consequências negativas. Lembremos que o Irã chegou, inclusive, a acertar com mísseis alvos que estariam cobertos pelo Artigo 5 do tratado de segurança coletiva da OTAN, como a base britânica de Akrotiri no Chipre, sem grandes consequências.