
Bruna Frascolla
Briga de família no Bolsonaro esconde racha na direita: Faria Lima quer Tarcísio e tripé macroeconômico; Flávio e Arthur Machado defendem ruptura.
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Poucas horas antes do angustiante jogo do Brasil contra o Japão, a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro publicou em seu Instagram um vídeo (dividido em duas partes) de inacreditáveis 27 minutos para dizer que seu enteado e pré-candidato à presidência da república Flávio Bolsonaro havia sido grossa com ela ao telefone, e por isso ela não faria campanha por ele. Seguiram-se acusações de machismo feitas por direitistas e esquerdistas. O bolsonarismo tem muito mais votos entre os homens do que entre as mulheres, e, para resolver o problema, o partido vinha apostando no carisma da ex-primeira dama desde a última eleição presidencial, em 2022.
Nesta eleição a direita tem que lidar com o fato de o ex-presidente e puxador de votos estar preso. Este não é um caso sem precedentes: em 2018, Lula coordenava a campanha de Fernando Haddad da sala da Polícia Federal na qual estava preso por corrupção. Jair Bolsonaro, que tem sérios problemas de saúde decorrentes da facada que tomou na campanha de 2018, fica num vaivém entre uma sala da Polícia Federal, o presídio para presos que demandam cuidados (a Papudinha) e a prisão domiciliar. Seu nêmesis Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo Tribunal Federal, fica tomando conta da vida privada do ex-presidente, incluindo em sua decisão judicial a recomendação de que Bolsonaro não coma bolachas farelentas em casa.
Se o leitor tiver a impressão de que o Brasil está maluco, esta nativa afirmará que ele está absolutamente correto. O Brasil está em crise política permanente desde 2013. Desde então, os dois protagonistas da Nova República (a democracia que se seguiu ao regime militar) têm mostrado cada vez mais as suas garras: os bancos e o judiciário, este auxiliado por uma anárquica horda de bacharéis em direito que ocupa postos nos Ministérios Públicos.
A confusão judicial
A Constituição de 1988 fez do Judiciário a última instância do poder, com o Supremo Tribunal Federal decidindo não só questões constitucionais, mas também os casos criminais de autoridades dos demais poderes. (No começo, isto parecia às autoridades um privilégio; depois, a sua relação com o STF azedou.) Já os procuradores do Ministério Público têm a liberdade de investigar processar, em nome do Estado, qualquer um em nome daquilo que eles entenderem ser uma questão de interesse público. Entre as questões de interesse público podem contar a salvaguarda das baleias contra a importunação perpetrada por Jair Bolsonaro. Sim, aconteceu: Bolsonaro andou de jet-ski e o Ministério Público o investigou por " importunação de baleia".
Resumindo a história recente do Brasil a partir de 2013, aconteceu o seguinte: após uma onda de protestos contra o governo Dilma, o Ministério Público começou um movimento anticorrupção articulado com o judiciário nas instâncias inferiores ao STF. Começou em Curitiba, no Paraná, com a Operação Lava Jato, tocada pelo juiz Sérgio Moro com o procurador Deltan Dallagnol. A operação se alastrou pelo país e tinha como alvo preferencial as relações espúrias do Partido dos Trabalhadores com grandes empreiteiras brasileiras e regimes não-alinhados com os EUA na Ibero-América e na África lusófona. A operação prendeu meio mundo - culpados e inocentes -; e, como cometeu uma série de ilegalidades, muitas das suas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. "Deu em pizza", como se diz no Brasil. Nisso, prendeu-se e soltou-se Lula.
A economia ficou seriamente comprometida: hoje, empreiteiras estrangeiras fazem as grandes obras do Brasil. A esquerda brasileira, antes dividida entre uma sucursal do Partido Democrata dos EUA e os chavistas nostálgicos da URSS, se tornou, em sua esmagadora maioria, woke. Quem gostou disso, do Brasil ? A Avenida Brigadeiro Faria Lima, o homólogo brasileiro de Wall Street, localizada na capital do estado de São Paulo. É aí que fica o escritório da única bolsa de valores do Brasil.
A República dos Bancos
Junto com o Judiciário, o outro pilar da Nova República é a Faria Lima. Em 1994, o sociólogo marxista Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito presidente. Se o marxismo brasileiro costumava se inspirar na União Soviética e ser, por isso, estatizante, o marxismo da Universidade de São Paulo, alma mater de FHC, preferiu ir direto ao texto, e lá encontrou o trajeto original do bonde da história, que precisa passar pelo liberalismo antes de chegar no comunismo. Assim, para esses marxistas, o problema do Brasil era falta de liberalismo econômico - que passou a ser defendido sob o eufemismo "modernização".
FHC governou de 1995 a 2002. No seu primeiro ano do segundo mandato, em 1999, ele criou o tripé macroeconômico que está em vigência até os dias de hoje, e que é a combinação de: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Para atingir as metas de inflação (isto é, para baixar a inflação), elevam-se os juros do Banco Central, tornando os empréstimos caros. Com o câmbio flutuante, o preço do real oscila conforme as leis de mercado - impedindo a indústria brasileira de inundar o mercado internacional como a chinesa. Com o superávit primário, o governo deve arrecadar mais do que gasta, porém excluindo da conta os juros das dívidas. Estes são altos por causa da política preferencial do Banco Central para abaixar a inflação. E como os juros das dívidas não entram na conta do orçamento, o resultado é que a dívida cresce. É uma política feita sob medida para agradar o mercado financeiro.
Por causa do câmbio flutuante, FHC entregou um país em processo de desindustrialização. E por causa do superávit primário, o seu governo buscou aumentar a receita vendendo estatais e reduzindo as despesas com serviços públicos. Ainda assim, pegou empréstimo com o FMI.
FHC não conseguiu fazer sucessor e Lula foi eleito pela primeira vez. Que fez Lula ? Ainda durante as eleições, publicou a Carta aos Brasileiros na acusava FHC de fazer "populismo cambial" e reconhecia como legítimo o nervosismo do mercado financeiro. Prometia, também, equilíbrio fiscal. Lula obteve assim a bênção da Faria Lima e a vitória eleitoral.
Lula manteve o tripé macroeconômico e fez mais: posando de anti-imperialista, quitou a dívida externa do Brasil com o FMI. O detalhe é que os juros do FMI eram de 4% ao ano, e para quitar o empréstimo Lula vendeu títulos da dívida a juros de 12% ao ano, para alegria do mercado financeiro. No entanto, ao mesmo tempo em que adotava essa política desastrosa, a China ascendia economicamente e injetava dólares em nossa economia graças à nossa colossal produção alimentícia. Assim, o governo Lula teve caixa para implementar um programa de distribuição de renda e fazer-se amado também pelo povo.
A disputa interna por poder
Até o advento do bolsonarismo, a Faria Lima estava sossegada diante das eleições disputadas entre o partido de Lula e o partido de FHC. Quando Bolsonaro chegou ao segundo turno, ele se comprometeu com um membro menos prestigiado da Faria Lima, o economista Paulo Guedes, e ganhou a eleição. Bolsonaro manteve o tripé macroeconômico e seguiu adiante com as agendas das privatizações de da abertura econômica. Fosse com Lula ou Bolsonaro, porém, a Faria Lima reclamava porque as privatizações feitas não lhe pareciam suficientes, ou porque a Petrobrás não adotava uma política de preços internacional que beneficiasse os acionistas em vez do público. Lula e Bolsonaro têm o defeito de serem políticos com apoio popular e, portanto, se preocuparem em ser benquistos pelo eleitor em vez de fazerem um governo "100% técnico", dentro da "ortodoxia" promulgada por FHC.
A Faria Lima queria que o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, um privatista indicado por Bolsonaro, saísse candidato à presidência com os votos do bolsonarismo. O nome de Michelle Bolsonaro era levantado como uma possível vice, cumprindo o papel de puxadora de votos. No entanto, Bolsonaro indicou o filho Flávio e assim Tarcísio não deixou o governo de São Paulo dentro do prazo estipulado pela legislação eleitoral para que pudesse concorrer à presidência. Vem à tona o nome da madrasta - que tem notórios conflitos com os três filhos do primeiro casamento de Bolsonaro. Michelle e o caçula, Carlos Bolsonaro, tem a mesma idade.
Em meio à briga ocasionada pelo vídeo, veio à tona o fato de que Michelle já brigava com o marido em 2022, querendo assumir protagonismo nas decisões nacionais do partido. Ela formou uma confraria informal de pessoas que iam ao cinema juntas e quis, à revelia do marido e do partido, indicar as amigas mais próximas para concorrer a vagas importantes. A atual senadora Damares Alves só virou senadora porque Michelle desobedeceu ao marido e fez campanha para ela; e Bolsonaro, para não tornar pública a briga doméstica, se absteve de fazer campanha para a própria candidata. A senadora Damares Alves é vista pela base bolsonarista como uma feminista, já que apoia quase todo tipo de projeto feminista, excetuado o aborto. Ela e Michelle pertencem a seitas pentecostais, e o feminismo (bem como o masculinismo) tem raízes profundas no protestantismo anglófono.
A oposição ao tripé macroeconômico
A Faria Lima tem, em geral, manifestado aversão a Flávio. Assim, boa parte da mídia fez campanha mais ou menos velada contra a candidatura de Flávio, exaltando as virtudes de Tarcísio e sendo simpática a Michelle. Rechaçado pela direita mainstream, Flávio foi empurrado para o mesmo trajeto do irmão, que inclui se aproximar do empresário Arthur Machado, o qual foi preso preventivamente pela Lava Jato com base apenas em palavra de delator. Antes da Lava Jato, Arthur Machado tinha o projeto de abrir uma bolsa no Rio de Janeiro para fazer concorrência à Faria Lima. Ele foi obrigado pela justiça a vender a sua empresa e o projeto da bolsa no Rio não foi adiante.
O mesmo empresário, que hoje mora em Portugal a salvo dos arbítrios judiciais brasileiros, tem um programa no Youtube no qual expões suas visões político-econômicas contrárias ao tripé macroeconômico, ao liberalismo e ao livre mercado. O programa vai ao ar no Youtube, num canal com apenas 328 mil inscritos chamado 5º Elemento, cujo proprietário é outro dissidente do mercado financeiro. O mesmo canal emprega o jornalista e influenciador Kim Paim, cujo canal próprio tem 871 mil inscritos. Arthur Machado e Kim Paim têm um discurso alinhado e são dissidentes antiliberais na direita brasileira - a qual, desde os anos 2000, é inundada por propaganda da escola austríaca à la Milei.
Para efeito de comparação, os veículos de direita Revista Oeste e Gazeta do Povo têm, respectivamente, 3,59 milhões e 2,11 milhões de inscritos no Youtube. Colunistas famosos, que trabalham em ambos os jornais, além de terem canais próprios e aparecerem em outros veículos de direita, têm, há mais de um ano, lançado uma campanha contra Arthur Machado, alegando que ele é: um agente russo seguidor de Alexandr Dugin; um ladrão de idosos que roubou fundos de pensão; um esquerdista infiltrado; um aliado do comunista Aldo Rebelo; um amigo íntimo do ministro do STF Gilmar Mendes; um bilionário que tenta comprar todos os veículos e influenciadores de direita; o patrão de Kim Paim. Um influenciador direitista que tem espaço em ambos os canais de Youtube e é filiado a um partido de direita foi mais longe e disse até que Arthur Machado (que é um calvinista histórico) usa uma pulseirinha da entidade africana Exu; e que seu cão Kim Paim é um satanista perseguidor de cristãos.
Dada a desproporcionalidade entre o alcance midiático de Arthur Machado e daqueles que o atacam, só se pode inferir que o seu pequeno grupo político tenha influência junto aos filhos de Bolsonaro e, por tabela, ao próprio Jair Bolsonaro. E por isso é que a direita está rachada, sendo parte dela capaz até mesmo de votar em Lula contra Flávio Bolsonaro: porque o que está em questão é a inquestionabilidade do status quo econômico vigente desde 1999.