
Eduardo Vasco
Boom dos direitos humanos nos anos 1970 foi fachada para neoliberalismo e devastação do Leste Europeu, hoje usada contra Cuba e Venezuela.
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O boom dos direitos humanos a partir do final da década de 1970, efetuado a partir de uma necessidade de sobrevivência do sistema capitalista para evitar a tomada do poder pelos oprimidos e explorados do mundo todo, foi um produto político e ideológico das reformas neoliberais impostas pelo FMI, o Banco Mundial e os banqueiros internacionais. Não é coincidência que ele correu em paralelo com as terapias de choque de Pinochet, Reagan, Thatcher e Yeltsin, bem como com o Consenso de Washington. Como é presumível, nunca passou de uma demagogia barata para enganar especialmente a classe média com um discurso muito bonito, ao mesmo tempo em que na prática ele abre o caminho para o empobrecimento da população mundial.
Foi justamente o que aconteceu no leste europeu: a burocracia stalinista, pressionada por um lado pelo colapso econômico gerado pela dependência do sistema capitalista e por outro lado pela revolta crescente dos trabalhadores, executou reformas que restauraram o capitalismo, apresentando a ditadura do proletariado como essencialmente violadora dos direitos e que, por isso, deveria ser substituída pelo "livre mercado". Assim, sob as instruções dos mecanismos imperialistas, os mesmos burocratas que violavam direitos humanos sob o "socialismo" passaram a governar os países do leste europeu como os campeões da liberdade ao garantirem a espoliação total de seus povos.
Na década de 1980, a Comissão de Direitos Humanos da ONU alertava sobre "a violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais na Polônia" e a "grave repressão dos direitos e liberdades fundamentais" na Romênia. Porém, após a queda da URSS o secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali comemorava o triunfo da democracia e dos direitos humanos no leste europeu, missões de observação apoiadas pela ONU davam legitimidade às eleições fraudulentas que impediam a participação de partidos comunistas e eram dominadas pela máfia e a mesma Comissão de Direitos Humanos, em conjunto com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), elogiava a "transição para a democracia".
Isso se desenvolvia concomitantemente à queda vertiginosa da produção econômica, à desindustrialização, à redução drástica do consumo de carne, leite e alimentos básicos, ao colapso da renda familiar, ao desemprego em massa, à emigração forçada de milhões de cidadãos para trabalhar nos países ocidentais com salários menores, ao aumento da taxa de mortalidade infantil, à diminuição considerável da expectativa de vida, à deterioração dos sistemas de saúde e educação e à proliferação da criminalidade, da prostituição e do tráfico de seres humanos.
Tamanho desastre social e econômico foi registrado e reconhecido pelas mesmas instituições que o promoveram. Um relatório sobre pobreza em "economias de transição", elaborado pelo PNUD, não conseguia esconder a situação: "desde 1989, os países da Europa Oriental e da antiga União Soviética sofreram severos retrocessos no desenvolvimento humano e aumentos da pobreza humana em uma escala sem precedentes em países industrializados em tempos de paz."
No entanto, esses mesmos órgãos intensificaram seu apoio à "transição para a democracia" e para a "economia de mercado" - precisamente a causa daquele desastre. E hoje a população de países como Bulgária, Moldávia e Romênia é de cerca de três quartos do índice anterior à queda do "comunismo", o desemprego que antes praticamente não existia é de mais de 10% nas ex-repúblicas iugoslavas e nas ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso e os países balcânicos estão entre as principais rotas de tráfico de seres humanos e exploração sexual transnacional.
A pauperização econômica, somada com a intensa propaganda anticomunista para derrubar e evitar o retorno dos partidos comunistas ao poder também levou a um forte crescimento de grupos e movimentos fascistas em vários países da região. O caso mais notório é o da Ucrânia, onde, de fato, no final de 2013 se deu um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos e a União Europeia com atuação decisiva de diversos grupos paramilitares e partidos neonazistas, como o Batalhão Azov e o Pravy Sektor.
A ONU, sendo uma organização imperialista, prestou sua dose de contribuição ao golpe fascista. Em relatório de 2014, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos justificou aquele golpe dizendo que "a violência e o uso excessivo da força pela polícia" agravaram os protestos do Maidan, quando na verdade há farto material gráfico demonstrando o uso de franco-atiradores pelos golpistas e uma atuação policial absolutamente branda em comparação com o que tem feito a polícia do novo regime. O mesmo relatório acusou o governo deposto de Viktor Yanukovich de ser "um sistema amplamente percebido como corrupto e sem prestação de contas, com instituições frágeis de Estado de Direito e um judiciário que não era independente nem capaz de garantir igualdade de direitos, julgamento justo e o devido processo legal".
Doze anos e meio após o golpe que mergulhou a Ucrânia em uma ditadura protofascista, uma guerra civil genocida por parte do novo regime e uma guerra por procuração contra a Rússia, a ONU jamais utilizou termos tão categóricos para categorizar o sistema político ucraniano pós-Maidan. Foram feitas apenas críticas pontuais pelo Alto Comissariado, ao mesmo tempo em que elogia o regime por realizar reformas institucionais na linha do que foi exigido pelo FMI.
Hoje integradas à OTAN e à União Europeia, as lideranças dos antigos países da "Cortina de Ferro" não apenas permitiram a devastação econômica, a entrega da soberania nacional e o empobrecimento e violação de direitos em seus países, mas também prestam serviços ao imperialismo, através da ONU e dos demais órgãos multilaterais, para repetir essa desgraça social na Venezuela, em Cuba, na Nicarágua, no Irã, na Rússia, na Bielorrússia, na China, na Coreia do Norte e em qualquer nação que ainda guarde algum resquício de independência política.
É com o voto desses países que os Estados Unidos conseguem assegurar campanhas nas Nações Unidas contra os regimes inconvenientes à sua dominação e esses países estão entre os que fornecem dinheiro e burocratas bem treinados por George Soros e a CIA em ONGs de fachada e governos fantoche, em um ciclo vicioso de uma porta giratória que garante bons empregos aos novos funcionários do imperialismo. E a farsa dos direitos humanos segue sendo o carro chefe dos projetos de dominação e ditadura contra os povos do mundo.