
Raphael Machado
Milei ataca Lula e isola Brasil, num cerco orquestrado pelos EUA via Argentina, Paraguai e tarifas. Mas aprovação do argentino cai.
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Faltando apenas 2 meses para as eleições brasileiras, as relações entre Brasil e Argentina são as piores em mais de cem anos. De fato, o governo brasileiro rebaixou a relação diplomática entre ambos países, solicitando a saída do embaixador argentino, Daniel Raimondi, do país e mantendo o embaixador brasileiro fora da Argentina. Agora, as relações entre Brasília e Buenos Aires são conduzidas por encarregados de negócios.
Antes da situação chegar neste ponto, já por um bom tempo, Javier Milei vinha antagonizando o governo brasileiro de inúmeras maneiras. Em visita ao Brasil para prestigiar o lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro - e para tentar visitar Jair Bolsonaro em sua prisão domiciliar, o que não foi possível fazer - reiteradas vezes Milei se referiu ao presidente brasileiro Lula como "ladrão", "corrupto" e "lixo socialista", bem como ofendeu diversas outras autoridades brasileiras. Os insultos foram reiterados em entrevista ao canal argentino LN+, onde Milei disse que Lula só não estava preso por um erro judicial.
Após o rebaixamento das relações entre ambos países, felizmente,o governo argentino decidiu não responder à decisão brasileira, o que poderia representar uma escalada nas tensões entre ambos países. E, de fato, o governo brasileiro confirma que pretende retomar relações normais com a Argentina após a situação se apaziguar, caso Milei não retome os ataques verbais. Provavelmente, vozes mais racionais prevaleceram internamente na Argentina, provavelmente por causa da atuação da vice-presidente Victoria Villarruel, que criticou duramente o comportamento de Milei, questionando sua sanidade.
As falas de Milei, porém, devem ser colocadas em seu contexto para que se possa compreender plenamente as suas possíveis ramificações e conexões.
Em primeiro lugar, não se trata de um tensionamento isolado, na região, em relação ao Brasil.
Além dessas tensões com a Argentina, nas últimas semanas também foi possível testemunhar um tensionamento semelhante em relação ao Paraguai.
No caso paraguaio, a justificativa é a memória histórica da Guerra do Paraguai, conflito no qual os paraguaios, liderados por Francisco Solano López, invadiram o Brasil, e foram duramente derrotados pela aliança militar entre Brasil, Argentina e Uruguai. Lula - talvez desnecessariamente e desastradamente - fez uma referência a este conflito num discurso sobre a necessidade de modernização das Forças Armadas do Brasil, o que foi considerado pouco respeitoso pelo governo paraguaio e levou à convocação do embaixador brasileiro em Assunção para o recebimento de uma nota de repúdio.
A Guerra do Paraguai foi o maior conflito travado na América do Sul no século XIX, e o custo do conflito foi altíssimo - em vidas para o Paraguai, financeiramente para o Brasil. Ambos países possuem perspectivas divergentes sobre a história do conflito e quem estava com a razão - o que, aliás, é perfeitamente natural. Mas o tema ainda gera ressentimento no Paraguai, que ocasionalmente se aproveita de pequenos desentendimentos para, por exemplo, reivindicar troféus tomados pelo Brasil no conflito.
O tensionamento com o Paraguai parece já ter sido solucionado, mas recordemos que no ano passado houve um outro tensionamento por conta da hidrelétrica de Itaipu, bem como constantes problemas fronteiriços por causa da atuação do crime organizado e de questões fundiárias.
Simultaneamente, o Brasil passa por meses de tensionamento orquestrado por parte dos EUA. Talvez para influenciar as eleições brasileiras, talvez para convencer o governo brasileiro a ceder em determinadas negociações de interesse dos EUA (como no tema das terras raras), Washington tem usado a arma das tarifas, bem como investigações comerciais e ameaças veladas e indiretas contra o Brasil. Essas tensões envolvem críticas ao principal meio de pagamento interno usado no Brasil, o Pix, bem como a designação de organizações narcotraficantes brasileiras como grupos terroristas. Mais recentemente, o governo dos EUA suspendeu o visto da embaixadora brasileira em Washington Maria Luiza Viotti, em resposta a uma suposta demora brasileira em reconhecer e aprovar as credenciais diplomáticas de Daniel Perez, recém-indicado embaixador para o Brasil.
Pontue-se que o Brasil não dispunha de um embaixador dos EUA em seu território desde o início do governo Trump, por escolha da própria Casa Branca, o que por si só já indica o desprestígio e desinteresse do engajamento em relações diplomáticas normais. Ademais, com 1 ano e 6 meses de demora em indicar um embaixador, é obviamente sem sentido organizar uma retaliação pelo fato de se demorar apenas 2 meses para reconhecer as credenciais do novo embaixador. Deve-se recordar, ainda, que os EUA tentaram enviar dois deputados para "fiscalizarem" as eleições brasileiras, o que levou o Brasil a rejeitar o seu visto.
Claramente, Marco Rubio dirige de forma bem orquestrada essa retomada da Doutrina Monroe. O Brasil sofre, hoje, uma tentativa de isolamento diplomático após as vitórias eleitorais de candidatos trumpistas na maioria dos países do continente. O tensionamento da Argentina e do Paraguai não parecem, portanto, coincidência. Em resposta, o Brasil mediou a restauração das relações entre Peru e México, para evitar o próprio isolamento firmando relações mais próximas com o Peru de Keiko Fujimori.
Em segundo lugar, Milei hoje conta com apenas 36% de aprovação em seu governo. É fácil compreender o porquê. O desemprego aumentou de 6.1% para 7.8% desde 2023. O % de trabalhadores informais cresceu para 44%. Enquanto isso, o custo de vida aumentou aproximadamente 30%, simultaneamente a uma estagnação dos salários médios reais.
A situação, de fato, não está boa para Milei e ele sabe disso. A única coisa que dá alguma esperança a Milei quanto Às próximas eleições argentinas é o fato da oposição ainda ser monopolizada pelos kirchneristas e, ainda assim, estar fragmentada e indecisa no que concerne a escolha de um nome para disputar a presidência.
Nesse sentido, é bem possível que a agressividade de Milei para com o Brasil seja uma cortina de fumaça, uma tentativa de desviar a atenção em relação a seu fracasso na condução da Argentina, mas também uma tentativa de galvanizar apoio popular por meio da designação de um inimigo externo. Um outro indício disso é o fato de que Milei inventou, no contexto da Copa do Mundo, uma teoria da conspiração sobre a difusão de ódio antirgentino pelo Brasil.
Em outras palavras, Milei age contra o Brasil metade por subserviência a Washington, metade por medo de não conseguir se manter na Casa Rosada.