
Bruna Frascolla
AOC admite que "wokismo 1 foi louco"; na Inglaterra, professor woke plagiador se mata; no Brasil, Wagner Moura chama identitarismo de "fascismo".
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Nos EUA, na Inglaterra e no Brasil, despontam notícias que dão indícios do declínio do wokismo.
No dia 2 de agosto, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) soltou uma frase que deleitou e irritou os adversários do wokismo: "woke 1 was crazy", ou "O wokismo 1 foi louco". Não se tratou de uma compungida admissão de falhas, mas apenas de um jeito de pedir ao eleitorado que deixe para lá as maluquices pretéritas dela e de sua correligionária Francesca Hong. O identitarismo 1.0 era muito louco, então deixemos para lá tudo o que foi dito antes, de modo que basta focarmos no que as candidatas dizem no presente momento.
As maluquices eram do seguinte quilate: "Em 2020, Hong tuitou que apoiava 'o desfinanciamento da polícia como um primeiro passo para a abolição da polícia' e que 'a polícia existe para defender a supremacia branca'. Hong também pediu o cancelamento do Dia de Ação de Graças: 'Isto deveria ter sido feito isso em 1621. Se for necessária uma pandemia mundial para percebermos que deveríamos parar de celebrar o colonialismo e o acontecimento original que foi um super vetor de propagação que matou povos e mulheres indígenas, que assim seja'." E qual seria a explicação racional para tamanha sandice ? Segundo AOC, "naquela época, especialmente durante a covid, houve uma enorme abertura na janela de Overton. [...] Estávamos confinados. Por causa desses confinamentos, houve uma das maiores taxas de desemprego que jamais vimos, e eu acho que as portas estavam abertas para cogitar toda e qualquer política que nos levaria a uma situação melhor".
Note-se a linguagem apassivadora: houve uma abertura - não é que ninguém abriu. Os confinamentos causaram taxas de desemprego - mas os adeptos do woke 1 não eram os histéricos que endossavam os confinamentos, pediam medidas sempre mais duras e acusavam de genocida quem queria o relaxamento da tirania sanitária. Além disso, a fala confirma aquilo que a direita mais maluca e conspiracionista dizia à época: que o lockdown era um experimento social criado para implementar o "socialismo". Assim como os malucos do Q-Anon estavam fundamentalmente corretos, em linhas gerais, ao dizerem que o Ocidente é controlado por uma elite pedófila e satanista, os malucos que procuram o "socialismo" embaixo da cama estavam fundamentalmente corretos em sua avaliação da política de lockwdowns, se tivermos a boa vontade de entender que eles chamam de socialismo não algo como o experimento soviético (que desconhecem porque não têm estudo para tal), mas o capitalismo woke do Partido Democrata e de George Soros.
Outro problema é que a declaração faz parecer que o wokismo foi uma coisa da pandemia, o que não é verdade. Como bem resumiu o jornalista Ryan Zyckgraf, "por uma década, uma horda muito online de acadêmicos, jornalistas, profissionais de TI e ativistas operaram como o RH não eleito do regime americano - um Estado administrativo mesquinho com uma multidão de nerds reativos. Eram autoritários, coercitivos e sustentavam-se pela ameaça de humilhar publicamente, arruinar profissionalmente ou expulsar da sociedade polida qualquer um que não conseguisse dominar um vocabulário em eterna expansão. Latinx num ano, Latine no ano seguinte: escolha o sufixo errado e o RH pode abrir um inquérito. [...] Carreiras foram destruídas; reputações, vaporizadas; instituições, achincalhadas até a submissão, amiúde por transgressões tão tênues que ninguém fora do tribunal do movimento podia explicar que crime ocorreu." Ao cabo, o jornalista da Jacobin acusa os identitários de fazerem gaslighting, a mesma coisa que eles acusavam os MAGA de fazerem. De fato, foram anos dizendo que woke não existia, e de repente woke 1 was crazy.
Por um lado, é bom ver que nem os wokes levam o wokismo a sério. Por outro, a sem-cerimônia com que rechaçam o wokismo sem nenhum mea-culpa irrita os seus críticos, que estavam certos o tempo inteiro em se opor à maluquice.
Inglaterra
Na Inglaterra, causou comoção o caso de Jason Arday, o professor negro mais jovem da história de Cambridge. O resumo da longa ópera cujos detalhes sórdidos causam frisson nos anti-woke é o seguinte: um professor woke com todos os indícios de mitomania foi acusado de plágio por um "realista racial" (leia-se: um racista) daqueles que vivem exaltando o QI asquenazita com muita imparcialidade - sendo ele próprio um asquenazita. Ele pediu demissão e foi "encontrado morto"; ou seja, provavelmente se matou. O caso lembra o da reitora negra de Harvard, que também caiu por plágio ao defender a causa palestina e, segundo Norman Finkelstein, a mulher do denunciante (um judeu asquenazita de direita) também era plagiária. A mim me parece que esse é o típico caso em que não há mocinhos.
O trabalho de Jason Arday era uma autoetnografia vitimista que só se diferencia da lenga-lenga woke por ter seus toques de Barão de Munchhausen ou de Monsieur de Rocambole. Por exemplo, entre as suas aventuras conta-se a de ter corrido 35 maratonas em 30 dias, sendo que no vigésimo primeiro ele fraturou uma perna. Continuou correndo mesmo assim. Diante da magnitude das lorotas, restam duas constatações: 1) o wokismo pôs o nível acadêmico das minorias em um ponto próximo do magma no mais recôndito núcleo terrestre, baixo de qualquer perspectiva que se olhe; 2) se Jason Arday não se tornou branco nem neurotípico e teve que pedir para sair, então o ambiente universitário sofreu alteração. Que alteração será essa ? Ora, o declínio do wokismo. Assim, o caso de Jason Arday vale sobretudo pela cronologia que nos oferece: em 2020, a Routledge publica a autoetnografia dele, em 2023 ele é contratado por Cambridge e em 2026 se mata por não aguentar o seu próprio desmascaramento.
Esperemos que o wokismo não seja substituído por uma reciclagem do darwinismo social e do racismo científico.
Brasil
No dia 4 de agosto, mesma semana da declaração de AOC, o ator brasileiro Wagner Moura, um notório woke, se referiu ao identitarismo (usado como sinônimo de wokismo no Brasil) como fascismo de esquerda. Entrevistado por um figurão da Globo em Atenas, com vista para a Acrópole, o ator residente nos EUA se queixava da dura vida de homem bem sucedido que não consegue dialogar com a direita, porque a direita, embora seja meritocrática, condena um esquerdista de sucesso. O entrevistador observou que a esquerda identitária também condiciona a condição de cada um ao que se pode dizer (por exemplo, só gay pode apoiar gay), e o ator concorda veementemente com a crítica, afirmando que se trata de fascismo de esquerda. Tal como AOC, não há sombra de mea-culpa.
Em 2019, o escritor Antonio Risério, alvo recorrente de cancelamentos desde 2007, quando criticou o movimento negro, lançou o livro Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária, no qual Wagner Moura é citado da seguinte maneira: "Hesitei em acreditar quando deparei com a cretinice (ou a esperteza, vacilo em dizer) esquerdofrênico-identitária do ator-diretor Wagner Moura, justificando ter escalado um negão para fazer o papel de Carlos Marighella, no seu filme sobre o comunista baiano: 'Para mim, Marighella é um herói negro.' Só rindo. [...] O problema não é de cor, mas de ideologismo chinfrim. Um diretor pode muito bem colocar um preto no papel do judeu Bob Dylan [...]. O que vai ficar ridículo é ele dizer que assim o faz porque, para ele, Dylan é um 'herói negro'."
A escalação de um negro é do interesse woke no Brasil porque o movimento negro fazia questão de negar a mestiçagem e rotular todo mulato como negro. Marighella era filho de preta com italiano, e tinha uma compleição que poderia fazê-lo passar por egípcio. Não era um negro. Além disso, ele foi um guerrilheiro durante o regime militar, e a esquerda brasileira é obcecada pela "luta armada contra a ditadura". Assim, Wagner Moura foi ao governo de esquerda de sua Bahia natal pedir dinheiro para o filme sobre o "herói negro" Marighella. O filme é um bangue-bangue desconexo no qual o herói negro para um pouco para ter um encontro secreto com o filho e dar-lhe um recado muito importante: "respeite as meninas" - um slogan do governo para o carnaval. Herói negro e feminista. Se agora Wagner Moura elogia o capitalismo e diz que quer conversar com a direita, é porque não crê que Lula vai ganhar a reeleição.
É bem do que se tratou o wokismo no Brasil: um espetáculo de cinismo estrelado por oportunistas. Um informante espanhol me relata que em sua terra essas coisas têm amparo no sentimento geral; no Brasil, sempre se tratou de evidente oportunismo. As ONGs cheias de dinheiro compraram a mídia, as universidades, os políticos, os artistas. Depois veio o ESG do mercado financeiro para piorar. Agora, é esperar as medidas institucionais para reverter o wokismo de Estado. Isso não deve tardar, pois até pouco tempo atrás, quem criticava o identitarismo em público era cancelado.
Cronologia e causas
No Brasil, como as ONGs dos EUA atuam desde a década de 1960, é antiga a crítica às identity politics, oriunda da direita e da esquerda; e nos anos 2010 essas correntes acadêmicas passaram a ser chamadas primeiro de identitarismo - como hoje ocorre também nos EUA. Assim, "identitarismo" designa tanto correntes acadêmicas quanto o fenômeno de massas digitais surgido em meados dos anos 2010, que é chamado inequivocamente de wokismo.
É claro que o aspecto teórico está conectado com o movimento de massas. O prestígio oficial dessa teoria parece coincidir com as políticas federais de DEI, que valeram nos Estados Unidos desde 1969 até 2025. (Escrevi sobre isto aqui.) Foi pouco mais de meio século enchendo o saco do Brasil, mas parece uma eternidade. O arco mostra também que Jason Arday deu muito azar: entrou em Cambridge no apagar das luzes do grande lastro governamental do wokismo.
Quanto à histeria de massas, com certeza surgiu em meados dos anos 2010. Em entrevista a Tucker Carlson em 2024, o ex-agente do Departamento de Estado Mike Benz contou uma história plausível: que o Facebook era uma ferramenta de revoluções coloridas que, mantendo a liberdade de expressão, teve êxito em desencadear a Primavera Árabe em 2010, mas suas ferramentas de mobilização foram usadas também pelos russos em prol da anexação da Crimeia em 2014. (Nesta década, vimos que as redes sociais dos EUA fizeram muito bem à causa palestina, à revelia da intenção dos seus proprietários). Assim, em 2016 começa a haver censura woke nas plataformas. A crermos nele, então, o woke foi uma coisa motivada primariamente pela guerra contra a Rússia. Talvez por isso não dê sinais de arrefecimento na União Europeia.