USA

31/08/2026 strategic-culture.su  9min 🇸🇹 #325098

A imprensa americana é um aparato de propaganda e espionagem da Cia

Eduardo Vasco

CIA e grandes jornais dos EUA atuaram juntos: NYT, CBS e Time cederam credenciais e arquivos. Imprensa é braço de propaganda do império.

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A concepção corriqueira, sobretudo no Ocidente, diz que a imprensa deve atuar como uma espécie de "cão de guarda" (watchdog) do interesse público. Em diferentes variações, esse é o slogan de todos os grandes jornais.

Trata-se de um anacronismo. Quando a burguesia lutava contra o feudalismo e o antigo regime, suas ideias iluministas de liberdade de pensamento, expressão, palavra etc. eram baseadas na necessidade de independência em relação ao poder do Estado para derrubá-lo e desenvolver o capitalismo. A premissa central era de que, para garantir a democracia e os direitos dos cidadãos - essenciais para o desenvolvimento capitalista em sua fase progressiva - a imprensa deveria atuar como um contraponto independente ao poder do Estado, fiscalizando governantes, denunciando abusos e garantindo a transparência pública.

Quando a burguesia finalmente se estabeleceu como classe dominante e a propriedade capitalista passou a se concentrar em poucas mãos, o mesmo ocorreu com os jornais. A concentração do poder econômico foi acompanhada passo a passo pela concentração do poder político, até surgir a era dos monopólios e do Estado imperialista, no qual a grande propriedade privada se confunde com o poder estatal.

Desde então, a imprensa deixou de ser um cão de guarda contra o Estado para se tornar um dócil chihuahua obediente a esse Estado. Ainda mais no Estado mais concentrado e poderoso de todos, os Estados Unidos.

Em outubro de 1977, a revista Rolling Stone publicou um dos trabalhos mais devastadores para a mitologia do "jornalismo livre" e da "imprensa independente" no Ocidente. O artigo intitulado "The CIA and the Media", assinado pelo consagrado jornalista Carl Bernstein - coautor das investigações do caso Watergate -, expôs a anatomia de uma aliança orgânica e estrutural: o cartel dos grandes meios de comunicação dos Estados Unidos atuava formal e clandestinamente como um braço operacional, informativo e de propaganda da CIA e do aparato de inteligência do Estado imperialista americano.

Longe de ser uma infiltração marginal ou involuntária de agentes isolados em redações, o trabalho de Bernstein provou que a cooperação partia diretamente do topo da pirâmide dos veículos de imprensa. Os donos, editores e executivos do cartel de imprensa dos EUA - um punhado de conglomerados que já monopolizava o fluxo de informação - colocaram voluntariamente a infraestrutura de suas empresas a serviço do Estado.

A investigação de Bernstein revelou que, ao longo do período pós-Segunda Guerra Mundial, mais de 400 jornalistas americanos executaram tarefas secretas para a CIA. Essas funções variavam desde a coleta de dados de inteligência e recrutamento de espiões estrangeiros até a disseminação direta de propaganda ostensiva e operações de desinformação.

Entretanto, o aspecto mais grave revelado pelo repórter está na cumplicidade dos magnatas da imprensa. William Colby, ex-diretor da CIA, chegou a desabafar em tom de censura aos investigadores do Congresso: "não peguem no pé de alguns coitados dos repórteres, pelo amor de Deus. Vamos às direções. Elas sabiam de tudo".

Os arquivos da agência comprovaram que William Paley (CBS), Henry Luce (fundador do império Time Inc., responsável pelas revistas Time e Life), Arthur Hays Sulzberger (publisher do The New York Times) e James Copley (do Copley News Service) mantiveram relações pessoais e diretas com os diretores da CIA. A cooperação incluiu a cessão de credenciais jornalísticas para disfarçar agentes da agência no exterior, a entrega de relatórios não publicados, o compartilhamento de arquivos de imagens e a alteração deliberada de coberturas.

No caso do The New York Times, a parceria foi descrita por altos funcionários da CIA como a mais valiosa da agência no meio impresso. Entre 1950 e 1966, por ordens diretas e acordos de princípio de Arthur Hays Sulzberger, o jornal forneceu disfarce jornalístico para cerca de dez agentes da CIA no exterior. As tratativas ocorriam diretamente entre os dirigentes do NYT e da CIA:

"Naquele nível de contato, eram os poderosos falando com os poderosos. Havia um acordo em princípio de que, sim, de fato, nós nos ajudaríamos mutuamente. A questão do disfarce surgiu em várias ocasiões. Foi acordado que os arranjos reais seriam manipulados por subordinados Os poderosos não queriam saber dos detalhes; eles queriam 'denegabilidade plausível'".

Se o The New York Times serviu como pilar no meio impresso, a CBS estabeleceu-se como o ativo de difusão mais precioso da agência de inteligência. O presidente da rede, William Paley, e o lendário diretor da CIA, Allen Dulles, cultivavam uma relação de amizade e trabalho constante.

A CBS não apenas cedeu credenciais para agentes operarem sob a fachada de correspondentes de TV, mas abriu seus arquivos de filmagem, permitiu a interceptação de relatórios internos dos repórteres nas redações de Washington e Nova York, e estabeleceu linhas telefônicas diretas e não rastreáveis entre os chefes de redação e a sede da CIA. Richard Salant, ex-presidente da CBS News, revelou inclusive ter integrado uma comissão secreta da CIA na década de 1960 para estudar estratégias de propaganda pelo rádio direcionadas à República Popular da China.

Nas revistas do grupo Time Inc., o bilionário Henry Luce encorajava ativamente seus correspondentes a colaborar com a CIA. Seu representante pessoal junto à agência, C.D. Jackson, vice-presidente da Time Inc., participou inclusive da redação de estudos da CIA que orientaram a reorganização do sistema de inteligência americano. Na Newsweek, o editor Malcolm Muir admitiu em entrevista que mantinha reuniões regulares para municiar a CIA com impressões coletadas por seus correspondentes e que seu editor de assuntos internacionais despachava com a liderança do serviço de inteligência.

Operações de inteligência sob a máscara jornalística

A reportagem de Bernstein demoliu a ilusão de independência profissional ao detalhar como colunistas renomados e analistas de prestígio internacional atuavam voluntariamente como instrumentos da estratégia geopolítica americana.

Nomes célebres da imprensa internacional, como Joseph Alsop, Stewart Alsop e C.L. Sulzberger (do The New York Times), mantinham vínculos formais e acordos de confidencialidade com a CIA. Em determinado caso, C.L. Sulzberger publicou quase na íntegra, sob sua própria assinatura no Times, um memorando de inteligência fornecido diretamente pela CIA:

"Cy veio e disse: 'Estou pensando em fazer um texto, vocês podem me dar algum material de fundo?' Nós o entregamos a Cy como material de fundo e Cy o entregou aos tipógrafos e colocou o nome dele nele".

A desfaçatez desses propagandistas ao justificar a sua promiscuidade com a CIA revela o nível de cumplicidade inclusive ideológica com a máquina de guerra, terror e dominação imperialista. Quando questionado sobre suas missões secretas para a agência nas Filipinas e no Laos, Joseph Alsop reagiu com desdém aos padrões éticos da profissão.

"Tenho orgulho de terem me pedido e orgulho de ter feito. A noção de que um jornalista não tem o dever de servir ao seu país é uma completa bobagem", disse. Claro que esse serviço não era ao país, mas sim ao governo e, sobretudo, ao aparato burocrático, que nada tem a ver com a população comum norte-americana e que, ao contrário, é um instrumento natural de opressão dessa população.

Os jornalistas recrutados ou cedidos pelos conglomerados faziam muito mais do que reportar fatos de interesse do Estado: eles agiam diretamente no terreno geopolítico. Na América Latina, na Europa Ocidental e no Sudeste Asiático, correspondentes foram utilizados para pagar propinas a políticos, transmitir instruções codificadas a agentes estrangeiros e plantar desinformação direcionada - a chamada "propaganda negra".

Nos anos 1960, por exemplo, a imprensa americana serviu como ponta de lança na ofensiva desestabilizadora promovida pela CIA contra o governo nacionalista de Salvador Allende no Chile. A agência financiou e produziu material de propaganda antigovernamental distribuído a jornais controlados pela CIA no continente. Muitas dessas mentiras sistematicamente orquestradas retornavam aos EUA através das agências de notícias e eram republicadas como "fatos" pelos jornais da indústria de propaganda da CIA.

A infraestrutura jornalística oferecia uma cobertura perfeita porque o profissional de imprensa dispõe de acesso desimpedido a autoridades, trânsito em áreas restritas e permissão para cultivar contatos sem despertar suspeitas imediatas. Como admitiu de forma brutalmente transparente um alto funcionário da CIA entrevistado por Bernstein, "um jornalista vale mais do que vinte agentes. Ele tem acesso, a capacidade de fazer perguntas sem despertar suspeitas".

Quando os meandros dessa promiscuidade começaram a vir à tona nos anos 1970, o Estado americano agiu rapidamente para proteger a reputação do monopólio propagandístico disfarçado de jornalismo. Durante as investigações do Comitê de Inteligência do Senado, presidido pelo senador Frank Church, a direção da CIA - sob os comandos sucessivos de William Colby e George H. W. Bush - atuou nos bastidores para limitar e distorcer os achados da comissão sobre a imprensa.

Colby e Bush convenceram os senadores de que a exposição pública dos donos dos veículos e dos jornalistas envolvidos deflagraria uma "caça às bruxas" e destruiria a pouca credibilidade que restava às instituições americanas após a Guerra do Vietnã e o escândalo Watergate. O resultado foi um relatório final deliberadamente omitido e maquiado. As 400 fichas resumidas sobre a cooperação da imprensa foram ocultadas da opinião pública, e o capítulo dedicado à imprensa reduziu a amostragem a cerca de cinquenta casos isolados, isentando a cúpula dos conglomerados e mantendo o público na ignorância.

As revelações trazidas por Carl Bernstein não retratam um desvio temporário conduzido durante a Guerra Fria, mas sim a natureza da imprensa capitalista. Esse monopólio da comunicação - pertencente a grandes fundos de investimento e ligada aos complexos financeiro e militar-industrial - cumpre o papel intrínseco de linha de transmissão ideológica do imperialismo.

Décadas após a denúncia de Bernstein, a promiscuidade revelada entre a inteligência do Estado e as redações não se dissolveu; ao contrário, aprofundou-se e ganhou refinamento.

A cobertura desse cartel - NYT, Washington Post, CBS, CNN, Fox News, Wall Street Journal etc. - permanece exatamente a mesma. Os regimes que não se submetem à ditadura imperialista são tratados como monstruosos, violadores dos direitos humanos e uma ameaça ao mundo. O sinal de emissoras de TV e rádio continua sendo usado para fazer propaganda pela derrubada dos governos incômodos e seus correspondentes não buscam apenas informações a serem publicadas nos jornais, mas também a serem repassadas secretamente à CIA.

Não é à toa que, poucos anos atrás, em plena guerra econômica e propagandística dos EUA contra a Venezuela, Nicolás Maduro fechou a sucursal da CNN em Caracas. Ou que, de tempos em tempos, o serviço de inteligência russo prenda jornalistas de grandes veículos americanos que fazem o trabalho de coleta de informação para a CIA.

É claro que esse mesmo cartel acusa esses governos de violar a liberdade de imprensa, ao mesmo tempo em que ocultam a sua verdadeira tarefa: ser um tentáculo do aparato de Estado imperialista.

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