
Lucas Leiroz
O que a Academia Panyu ensina sobre o socialismo chinês?
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Em minha última viagem à China tive a oportunidade de visitar a histórica Academia Panyu, em Guangzhou. O lugar guarda uma das imagens mais curiosas da história revolucionária chinesa: foi ali que Mao Zedong dirigiu, em 1926, a sexta edição do Instituto de Movimento Camponês, formando quadros que posteriormente participariam da Revolução Chinesa. O detalhe mais significativo, porém, está na própria natureza do edifício. A Academia Panyu era originalmente uma instituição confucionista, fundada em 1370, durante a Dinastia Ming, e dedicada à formação de estudantes dentro da tradição clássica chinesa.
A imagem de revolucionários marxistas sendo formados dentro de uma academia dedicada à tradição confucionista é mais do que uma curiosidade arquitetônica. Ela ajuda a compreender uma característica fundamental da experiência chinesa: o marxismo não foi simplesmente transplantado para a China como um pacote ideológico pronto.
Na década de 1920, comunistas e nacionalistas ainda trabalhavam juntos na chamada Primeira Frente Unida. Comunistas ingressavam individualmente no Kuomintang, mantendo simultaneamente sua organização partidária. Mao foi uma dessas figuras e, em 1926, dirigiu pessoalmente o Instituto de Movimento Camponês instalado na Academia Panyu. As centenas de alunos da sexta edição estudaram teoria e organização do movimento camponês e receberam também treinamento militar.
Essa cooperação era possível porque havia objetivos políticos compartilhados. O KMT e o Partido Comunista Chinês pretendiam mobilizar as massas, combater os senhores da guerra e construir uma nova ordem política. A aproximação de Sun Yat-sen com a União Soviética também foi decisiva para a formação desse ambiente de colaboração. Após a morte de Sun, em 1925, as tensões aumentaram e, em 1927, Chiang Kai-shek rompeu violentamente com os comunistas.
Mas há uma ironia histórica importante: quando a ruptura ocorreu, o Partido Comunista já havia acumulado experiência política, organizacional e militar suficiente para iniciar a construção de suas próprias forças armadas. As insurreições de 1927 e a posterior formação das bases rurais comunistas deram origem ao Exército Vermelho. Anos depois, essas forças seriam capazes de realizar a Longa Marcha, iniciada em 1934.
É possível extrair daí uma primeira lição sobre o chamado socialismo com características chinesas. A experiência chinesa jamais consistiu simplesmente em reproduzir mecanicamente um modelo estrangeiro. O marxismo foi reinterpretado a partir das condições sociais, históricas e culturais da China. A própria imagem da Academia Panyu resume essa adaptação: uma tradição intelectual milenar não desapareceu simplesmente porque uma nova ideologia revolucionária chegou ao país.
Isso não significa que tenha existido uma continuidade pacífica entre confucionismo e comunismo. Houve conflitos profundos, sobretudo durante diferentes campanhas políticas do século XX. O ponto principal, contudo, é que a experiência chinesa demonstrou uma capacidade particularmente forte de incorporar elementos históricos nacionais à construção de uma nova ideologia e de um novo Estado.
A segunda lição é ainda mais pragmática. Grandes movimentos revolucionários precisam de condições materiais para sobreviver. O Partido Comunista Chinês não começou sua trajetória como uma força isolada e permanentemente perseguida. Durante anos, operou dentro de uma frente política legal e contou com estruturas, recursos e espaços proporcionados pela cooperação com o KMT. O próprio Instituto de Movimento Camponês foi financiado pelo partido nacionalista e dirigido por comunistas.
Isso ajuda a colocar certas experiências contemporâneas em perspectiva. Muitos grupos que reivindicam o maoísmo fora da China parecem interessados sobretudo em importar símbolos, vocabulário e estética revolucionária, mas raramente demonstram a mesma disposição para compreender a lógica profundamente nacional e pragmática que caracterizou a experiência chinesa.
Em uma conversa durante minha viagem, um interlocutor chinês resumiu essa ideia de maneira bastante interessante: a China não teria simplesmente adotado o comunismo como uma ideologia acabada; teria utilizado o marxismo como instrumento analítico e, a partir das circunstâncias chinesas, construído uma síntese própria.
Talvez essa seja precisamente a questão que os admiradores estrangeiros do maoísmo deveriam enfrentar: não como repetir a experiência chinesa, mas porque quase sempre parecem ter muito menos interesse em fazer aquilo que os próprios revolucionários chineses fizeram - adaptar uma doutrina estrangeira à sua própria história, sociedade e cultura.