📚 20/09/2026 strategic-culture.su  25min ⁑️ 6 🇸🇹 #327317

O idealismo eurofederalista que renega a verdadeira Europa

600px/600px - 66.52 Koreduce by 50%del

Hugo Dionísio

Von der Leyen cria "Europa dos valores": exclui Rússia, Sérvia e Turquia, premia obediência com fundos e prepara guerra eterna.

Escreva para nós: infostrategic-culture.su

No seu discurso sobre o estado da União, proferido em Estrasburgo a 16 de setembro de 2026, Úrsula von der Leyen consolidou um novo conceito ideológico, evoluindo de uma União Europeia situada numa "Europa" geográfica - um espaço material, com necessidade de alargamento e de contenção de saídas, mediante redistribuição de fundos que dessem à periferia a percepção de que, em vez de abandono, lhe estavam destinados o desenvolvimento e a convergência com o centro - para um espaço europeu ideal, mitológico e exclusivo. (1) Uma "Europa" dos "valores" comuns, ao invés de uma "União" Europeia de diferentes povos.

A presidente da Comissão abriu com Charles Dickens - "era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos" - e de seguida enunciou a contradição que estrutura todo o discurso: "o estado da nossa União é o mais forte de sempre", afirmou, acrescentando logo que "o estado da nossa União também pode parecer tão precário quanto nunca". São duas afirmações "incompatíveis", admitiu, "mas ambas são verdadeiras". Ao cidadão médio, português e europeu, custa reconhecer, na Europa "mais forte de sempre", a Europa real da emigração, dos salários baixos e das fábricas a encerrar; mas custa reconhecê-la porque a Europa que von der Leyen descreve não é essa. (1) A "Europa" de von der Leyen é uma espécie de "Lebensraum", estendendo-se também para leste, mas a partir de Bruxelas e não de Berlim, encontrando-se, igualmente, em tensão permanente com as nações, também "europeias", que aí se situam.

Daí que a "Europa" a que se refere von der Leyen já não seja a "Europa" da União Europeia, mas antes uma "Europa" de tipo olímpico, inacessível ao comum dos mortais - leia-se, aos povos que não se iniciam, conformam e formatam nos "valores" enunciados. Pertencer à "Europa" enunciada, idealizada, pela presidente da Comissão Europeia, não chega estar no continente europeu: implica uma prova de fidelidade, um teste de lealdade, materializado na adesão aos standards "europeus" exigidos, que corporizam e materializam, na prática, os tais "valores europeus" de que estes burocratas constantemente falam.

Na "Europa" de Úrsula, o candidato não adiciona, por si só, nenhum valor acrescentado. Ao invés, o candidato tem de se esvaziar de valores considerados contraditórios e imbuir-se da luz que significam, para esta gente, os tais "valores europeus". Não aceitando esta troca, esta rejeição da identidade, da história e da cultura em prol da "luz da verdade", não é possível entrar no clube exclusivo, no Olimpo, no jardim de Borrell, que bem poderia ser, não fosse uma heresia, o jardim do Éden.

Para os bálticos, a entrada na "Europa" significou, com o tempo, um esvaziamento quase total, até de população. Tendo perdido, num caso ou outro, mais de um quarto da população em relação ao período soviético (15), ser aceite no clube iniciático restrito significou um divórcio com a sua dimensão multiétnica, passando estes países a perseguir os seus próprios cidadãos que mantinham o russo como língua principal, a dupla nacionalidade e a cultura russa como elemento identitário. Para recriarem uma identidade que coubesse na "Europa dos valores", estas nações tiveram de aceitar apagar o seu passado como territórios do império russo e como repúblicas da ex-URSS.

Mas esta exigência foi ainda mais longe, implicando uma reescrita da história. Kaja Kallas mostrou-se ofendida quando alguém lhe disse que a URSS e a Rússia tinham combatido o nazismo e o fascismo. Von der Leyen mostrou-se ofendida com as honrarias a Ratko Mladić em Belgrado, mas mostrou-se solidária com as honrarias dadas à UPA, à 14.ª Divisão da Galícia, a Stepan Bandera ou aos Irmãos da Floresta - todas organizações e indivíduos praticantes de crimes de guerra internacionalmente reconhecidos. Em suma, para pertencerem à "Europa", estes países tiveram de deixar de ser quem eram. Mas o que dizer de uma Suécia ou de uma Finlândia, antes reconhecidas pela sua neutralidade, tendo de repente de dela prescindir e jurar lealdade à NATO, levando esta organização para as fronteiras com a Rússia, em sinal de evidente desafio e acosso ? (16)

Neste sentido, ao invés de uma entidade multinacional, multiétnica, verdadeiramente paneuropeia, von der Leyen apresenta-nos uma Europa que renega o próprio conceito de "União Europeia", para passar a incluir nações que a ela não pertencem, mas cujos dirigentes - muitas vezes em direta contradição com os povos aí residentes (veja-se o caso de Maia Sandu na Moldávia) (17) - aceitam pertencer ao mesmo espaço ideal, cognitivo, valorativo e cultural. Daí esta "Europa" ser tão avessa à democracia que diz consagrar. E como poderia ? Como poderia uma entidade burocrática, não eleita, mas, mais importante ainda, não escrutinável do ponto de vista verdadeiramente democrático, favorecer a democracia ? O caso islandês é paradigmático: os islandeses votaram, disseram "não" (18). Os ingleses votaram no Brexit, disseram "não" ! Os noruegueses nem votar querem (19) e os franceses e irlandeses votaram tanto e tanto disseram "não", até que, com referendos sucessivamente referendando os próprios referendos, os cansaram e os levaram a dizer "sim".

Para a Ucrânia, como para a Moldávia, entrar na "Europa dos valores" pode significar uma traição tão monumental como a sujeição a uma guerra fratricida, suicida, em nome dos etéreos, mas monumentalmente fundamentais, "valores europeus". Zelensky fala em "lutar pela liberdade" e "lutar pela Europa". O preço que obriga o seu povo a pagar por não ter querido, em nome da "Europa", cumprir os acordos de Minsk e de Istambul I (20) (21), implicou uma redução da ordem de um terço da população sob o controlo de Kyiv (22), uma perda de regiões que preferiram ir à sua vida do que pertencer a uma nação que os obrigava a ser quem não eram, uma destruição, por recusas constantes em dialogar e verdadeiramente negociar, do aparelho produtivo, uma alienação massiva dos recursos e um endividamento brutal que impedirá, durante muitos anos, o país de se desenvolver, se, no final, sobrar país. Da Geórgia, a "Europa dos valores" exigiu o mesmo sacrifício, tornando matéria a estratégia exposta pela RAND Corporation (23). A Moldávia, veremos; mas, para já, duas charlatanices eleitorais para eleger Maia Sandu (17) não prenunciam bom caminho. Na Roménia, um candidato ganhou as eleições e foi impedido de se candidatar à segunda volta, vendo anulada a sua participação eleitoral por "interferência russa" (24), apenas porque considerava que a NATO deveria abandonar o território romeno, porque Georgescu não queria ver a Roménia destruída pela Rússia, em caso de conflito alargado.

Esta Europa, antes medida por uma suposta mútua identificação ideológica e uma coincidência geográfica, é, agora, uma entidade que exige sacrifícios imensos a quem nela queira estar. É caso para dizer que, para pertencermos ao paraíso, temos de ter uma vida infernal. Se, no passado, países como Portugal tiveram de pagar a jóia de entrada em destruição do seu sistema produtivo, agora, para entrar, significa assumir as dores históricas dos derrotados da Segunda Guerra Mundial e, em nome deles, cometer um sacrifício suicida. Mas os que ficam não ficam melhor, porque, para defenderem o seu "Lebensraum", têm de aceitar trocar a qualidade de vida, os serviços públicos e o investimento por armas e guerra. No discurso de von der Leyen, a guerra, o conflito militar, o belicismo e o militarismo andam de mãos dadas com os "valores" e princípios. A paz só nela se fala para justificar a guerra ! Em nenhum momento ouvimos a presidente da Comissão falar da paz, pela paz e para a paz!

Esta ideia de Europa, cuja pertença se mede pela submissão política - e que, na sua lógica de formatar os povos à imagem da metrópole, ressuscita o velho idealismo de uma Europa "purificada" dos que não se submetem, da "toxicidade" das dependências próprias dos negócios com outras nações -, orgulha-se de praticar uma lógica ária de inclusão pela conformidade e pela conformação. Não se trata de uma Europa onde os povos são assimilados na sua originalidade, mas de uma onde os povos são padronizados e formatados à imagem de Bruxelas. Para o serem, nem verdadeiramente europeus precisam de ser.

Quem ouviu o discurso teve a confirmação. Von der Leyen anunciou que pretende "abrir a porta" para o Canadá ser "o primeiro membro associado da União Europeia" (25) - um país da América do Norte, com um oceano de distância de Bruxelas. Anunciou a concretização de um Conselho de Segurança Europeu, num formato de líderes com "parceiros como o Canadá, a Ucrânia, o Reino Unido, a Noruega e outros" - dos quais nenhum é membro da União. À Ucrânia - que não pertence ao espaço geográfico da UE - prometeu o maior apoio de sempre, com o projeto Freya de defesa antimíssil ("Freya é apenas o início", disse, acrescentando que mais será preciso), assente nos fundos remanescentes do instrumento SAFE; e o novo quadro financeiro 2028-2034, o qual prevê até 100 mil milhões de euros mobilizáveis para a Ucrânia, com o apoio de natureza militar a continuar e a ser canalizado através do "Ukrainian Peace Facility" (Instrumento de Paz na Ucrânia), que serve para continuar a guerra. (1) (13) Trata-se de um instrumento extraorçamental, literalmente à margem do orçamento comunitário, mas que está em plena consonância com esta ideia de "Europa", uma espécie de "eurofascismo", em que as "fasces" são substituídas pelos exércitos de burocratas leais a Bruxelas.

Esta "Europa", que assenta crescentemente em estruturas paralelas, fora do espaço geográfico e à margem dos tratados que enformam a União Europeia, de forma a que os candidatos ao clube se sintam do clube (1) (13), apesar do veto de membros da União, espelha bem o conceito idealista, fascizante, celebrado por von der Leyen. Para que os Estados-membros da União Europeia nada possam fazer a respeito desta nova "Europa", Bruxelas cria estruturas paralelas, sem escrutínio democrático de qualquer tipo, de forma a que seja possível construir, na prática, uma "Europa" que vá além e contradiga, na essência, a União Europeia que antes tinham vendido aos povos.

O que faz estas nações pertencerem à "Europa" de von der Leyen não é a sua condição geográfica, nem a continental, nem a cultural. Todas essas perdem cor perante a que mais conta, a decisiva. Trata-se da condição política e ideológica: o facto de, em determinado momento, professarem a identidade política que Bruxelas ditou. A Geórgia é o caso limite: em 27 de junho de 2024, o Conselho Europeu concluiu que a ação do governo georgiano estava "de facto" a suspender o processo de adesão à UE (4); em 2025, a Comissão chegou a qualificar a Geórgia de "país candidato apenas de nome" (26). O mesmo povo, o mesmo país, a mesma geografia, a mesma matéria - mas a condição de submissão política deixou de existir e, com ela, evaporou-se a sua pertença à "Europa". Já a Arménia, agora aproximando-se do "corredor médio" do Cáucaso do Sul e da Ásia Central, pode passar a ser "europeia", recebendo até 12 mil milhões de euros de investimento público e privado via Global Gateway: a geografia pode ser negociada, reescrita, renomeada, desde que a ortodoxia seja a correta. (1) (4) Se Trump chamou Golfo do México de "Golfo da América", porque não pode von der Leyen chamar a Ásia Central ou o norte da América de "Europa"?

A essa "Europa" não podem pertencer países como a Turquia, a Sérvia ou a Rússia. A estes povos falta-lhes a atracção fatal por Bruxelas, falta-lhes quererem ser "europeus" no sentido professado por von der Leyen - que, no discurso, condenou as honras fúnebres de Ratko Mladić em Belgrado: "glorificar criminosos de guerra simplesmente não tem lugar na União Europeia", disse, esquecendo-se das honras a gente como Bandera. Nenhuma destas nações está disposta a reescrever a sua história e a sua cultura para ser admitida no clube restrito. Um russo pode gostar muito de iPhones e BMWs, mas, regra geral, não quer ser mais do que russo, respeitando e celebrando a história e a cultura russas. Esse é também o problema sérvio. O ser excluído, na visão de Bruxelas, condena a nação em causa a um inferno de autocracia, fake news, teorias da conspiração e ditadura; pertencer à "Europa dos valores" dá a democracia, a liberdade, o Estado social - o céu. (1)

Consequentemente, a Europa de von der Leyen tem horror à soberania e à independência nacional. O discurso é eloquente: propôs "o Artigo 4 europeu", um protocolo de emergência que flanqueia o Artigo 4 da NATO, e prometeu que "a Europa defenderá cada metro quadrado do seu território", não se sabendo bem se está a falar da União Europeia, o que faria todo o sentido, da NATO, o que faria algum sentido, ou da "Europa dos valores", que se estende já da Ásia Central às terras negras do Donbass, passando pelos glaciares do Canadá.

Mais significativo ainda é o diagnóstico: os sistemas europeus "foram feitos para um mundo diferente", movidos por "tentativas bem-intencionadas de consenso e compromisso", devendo questionar-se se ainda servem o propósito. Traduzindo o que disse von der Leyen: o consenso entre nações soberanas é um defeito a corrigir. Roberta Metsola, presidente do Parlamento, fez coro, nas palavras de abertura da sessão: "as pessoas querem que defendamos uma Europa de valores". "Valores", repete-se, não uma geografia. (1) (3) Esta "Europa dos valores" é uma forma engenhosa de ir além da verdadeira União Europeia e encetar uma cruzada pela salvação das almas, desta feita já não pela evangelização, mas pela suposta "democratização", "Estado de Direito", "liberdade de expressão", "direito de amar quem quisermos" e "sustentabilidade ambiental" - uma misturada de conceitos tão contraditórios quanto desenhados para incluir um espectro mental pós-moderno e que visa tirar da barbárie autoritária, da menoridade mental, das mentiras e das teorias da conspiração os povos a submeter. Usando termos expressos por Úrsula e associados.

Munida de um evangelho que cruza o velho e requentado neoliberalismo com o recuperado idealismo fascista, transposto da sua dimensão "nacional" para um âmbito "federal", e da dimensão identitária individualista e socialmente atomizadora da era do fim da história, a Comissão Europeia, qual Vaticano da Idade Média, enceta um ataque ideológico à soberania nacional, fazendo-o em duas frentes. Primeiro: obrigando os Estados-membros a prescindirem da independência nacional, transferindo-a para Bruxelas, renegando a própria história e celebrando a "Europa" como um bem em si mesmo. Segundo: criando uma identidade falsa, a "Europa dos valores", que inclui os formatados e exclui os resistentes, na esperança de que ela produza a coesão plurinacional que nenhuma bandeira comunitária conseguiu gerar.

Desengane-se quem pensar que estamos perante uma qualquer dimensão europeia multinacional - que unisse e celebrasse, assimilasse e incluísse o que é diferente, e na qual coubessem os que hoje são excluídos. A Europa de von der Leyen é o contrário: uma Europa que exclui os demais, considerando-os fora. É idealista porque decidiu divorciar-se da realidade material - da condição geográfica que torna também "europeus" todos os povos do continente europeu. Para pertencer à "Europa" de von der Leyen, ou se professam os valores - o que significa aceitar Bruxelas como uma espécie de sumo pontífice - ou é-se excluído, contradito, perseguido.

O tom inquisitorial transparece nas próprias palavras da presidente: "vemos isto na ascensão dos extremos, no declínio da nuance". É notável o termo usado: a "nuance" ! Como se a "nuance" não pudesse existir também no extremismo. Como se a dimensão com "nuance" que von der Leyen nos dá da "Europa" - de uma Europa dos que estão dentro e não dos que estão fora, de uma Europa que exclui a diferença e celebra a excepcionalidade - não fosse, ela própria, uma forma de extremismo, de sectarismo e fanatismo. A incapacidade de conciliar com os russos tresanda a fanatismo de outros tempos, a ressentimento e a sede inconciliável de retribuição. Ou seja, uma total ausência de "nuance" - o que von der Leyen acusa os outros de ter.

Um outro exemplo desta dimensão "evangélica", idólatra e charlatã da "Europa dos valores" é a eleição da divergência face à narrativa oficial como um dos problemas mais graves do nosso tempo. A incapacidade, o sectarismo das suas crenças e crendices leva a presidente da Comissão à pergunta retórica: queremos "uma Europa forte e independente que defenda os seus valores neste mundo", ou deixamos "as nossas democracias serem minadas pelos proxies e pelas marionetas dos autoritários" ? Quem diverge da narrativa ursuliana, note-se, não é tratado como adversário político: é "proxy", é "marioneta", é traidor. Faz lembrar alguma coisa?

Daí o vocabulário de "guerra cognitiva" e a abertura do orwelliano ministério da verdade, ou a Inquisição "dominicana" de Bruxelas, materializada no Centro para a Resiliência Democrática, que "antecipa, deteta e responde" - não aos argumentos, que nunca se discutem, mas aos seus autores. Se algo não bate certo com a narrativa oficial, é porque a pessoa em causa foi vítima de fake news e conspirações. Nem por um momento von der Leyen duvida da narrativa que propaga: é a palavra divina, é a verdade, é o Deus único ! Se o que dizemos não bate certo, é porque nós estamos enganados. E ver esta pessoa falar de "extremos"

A atitude de tipo inquisitorial é indesmentível: acuso, logo tenho razão. É que, como nos tempos da Inquisição, os inquisidores nem sempre eram os mais iluminados pensadores - basta ouvir Kaja Kallas, a alta representante para os Negócios Estrangeiros, para quem foi "novidade" saber que a China e a Rússia estiveram entre os vencedores sobre o nazi-fascismo; a mesma Kallas que prometeu, este outono, "as listas de sanções mais abrangentes desde o início da guerra", acrescentando um terço ao total de pessoas e entidades sancionadas - já mais de três mil -, porque "a pressão tem de continuar a crescer até Moscovo pôr fim à sua guerra". Não se discute com elas, não se dialoga: aniquila-se. (1) (5) (6)

A inevitável inconciliação entre esta "Europa" e os que não lhe pertencem constitui também um desacoplamento da condição material da União Europeia, que nasceu, segundo os escritos, para simplesmente unir os povos europeus e celebrar a paz - e que visava aproximar a periferia do centro, daí estabelecendo os fundos comunitários que visavam resolver as contradições intra-União. Era uma submissão à matéria, uma consciência da sua existência. Ao longo do tempo, a UE foi perdendo essa consciência e, com ela, foi alimentando-se da soberania, como forma de mascarar, muitas vezes à força, a sua impotência para resolver os problemas reais, até que descambou na sua versão atual: autoritária, das sanções, do dentro e do fora, do é e do não é, dos valores ou da falta deles.

O discurso assume agora a reconfiguração desse compromisso. O novo quadro financeiro 2028-2034, de quase dois biliões de euros, funde coesão, agricultura, migração e segurança num único instrumento; o primeiro capítulo orçamental cai de cerca de 65% para 45% do total, e a coesão, em percentagem do rendimento nacional bruto, pode descer de 0,30% para um intervalo entre 0,14% e 0,29%, num desvio de recursos para a competitividade e a defesa que os "amigos da coesão" - entre os quais Portugal - combatem em vão. (11) (12) Enquanto mais e mais europeus vivem pior, von der Leyen celebra "o Estado social" e "uma Europa que faz". E a lição húngara é didática: contra Viktor Orbán, anos de fundos congelados; depois de 12 de abril, quando "o povo húngaro tomou o futuro nas suas mãos", "escolheu a democracia, escolheu a Europa" e trouxe "a Hungria de volta aonde pertence: ao coração da União Europeia" - 16,4 mil milhões de euros de fundos europeus foram desbloqueados (27) (28). A obediência compra-se. Os fundos perderam a função de coesão e ganharam a função de disciplina. (1) (3) (11) (12)

O mesmo duplo critério vale para as dependências. A dependência energética da Rússia, que permitiu a industrialização da Alemanha, é hoje apresentada como "tóxica" - adjectivo do próprio discurso ("libertar-se da dependência tóxica dos combustíveis fósseis russos"). Já a dependência do GNL norte-americano - 58% das importações de GNL da UE em 2025 (9), com projeções que apontam para 80% até 2030 e alertas de que a energia pode voltar a ser "arma" de pressão política sobre a Europa (10) - é omitida do discurso, como o são todas as outras dependências. O discurso contém, aliás, a confissão involuntária: ao celebrar a compra de mísseis Patriot americanos para a Ucrânia, von der Leyen acrescentou que "temos também de reduzir em conjunto a nossa dependência de um único fornecedor". De um único fornecedor de quê ? De defesa e de energia: dos Estados Unidos, que ela nunca tem coragem de nomear, no longo discurso que nos fez.

E no mesmo discurso em que admite que "o défice comercial com a China é agora de mil milhões de euros por dia" e que ele conduz à "desindustrialização dos corações industriais da Europa", a presidente celebra uma Europa que "se tornou a maior potência comercial do planeta". O que conta é a compatibilidade com os "valores" proclamados - não quer dizer praticados: tudo tem de ser compatível; o que não for, exclui-se e antagoniza-se. (1) (9) (10)

Claro que esta Europa perdeu um dos seus principais anjos guardiães: os EUA. Nem por um momento von der Leyen os nomeou como aliados ou amigos - nem sequer para lhes dirigir uma palavra de divergência. Não os podendo condenar ao fogo do antagonismo, da guerra e das sanções, condena-os ao apagamento, esperando não ser também por eles apagada. Charles Michel, ex-presidente do Conselho Europeu, foi mais direto, horas antes do discurso: "ela começou o seu mandato a seguir cegamente os Estados Unidos, com muitas consequências. Houve uma espécie de ingenuidade." (3) Resta a NATO - que o discurso professa como um catecismo: todo o investimento em defesa, garantiu, será "totalmente alinhado com a NATO". Quem quiser entrar no clube, professe a NATO. Como Jeffrey Sachs tem repetido, a Europa "só protesta quando Trump ameaça a Gronelândia; de resto, tolera, quando não celebra, o comportamento dos EUA" (14) - e se os Estados Unidos deixassem de impor as suas guerras ao resto do mundo, ficaríamos todos melhor; e se a "Europa dos valores" deixasse os seus antagonismos com a Rússia, a Turquia ou a Sérvia, idem.

Esta "Europa" é, neste sentido, religiosa: uma teologia dos valores, com céu e inferno, dentro e fora, é e não é. Censura canais de televisão, blogues e media independentes - incluindo os europeus -, acusando tudo de conspirativo; aplica sanções a pessoas singulares por divergirem da opinião oficialista e institucionalista; denuncia "guerra cognitiva" em vez de responder a quem argumenta. E o delírio é próprio das sociedades decadentes, em negação e apanhadas por um qualquer fanatismo. Os fanatismos não se discutem: têm de ser aniquilados.

Porque esta resvalação para a idolatria esconde um mal profundo: uma Europa irrelevante - que von der Leyen só pode elogiar por ser "a maior potência comercial do planeta", o maior mercado de consumo do mundo, e nada mais; uma Europa sem centralidade, decadente. Há um elemento do discurso que diz tudo: a "competição internacional feroz" pela industrialização, o "segundo choque da China" que, para von der Leyen, já cá está - o Sul a competir agora com o Norte. Em vez de viver essa realidade, a Europa tenta descolar dela e voltar ao tempo dos impérios divinos europeus: "recapturar a imaginação europeia" com um novo Congresso da Europa, setenta anos depois do Tratado de Roma.

Dizendo celebrar os seus valores, prepara-se para alterar a estrutura dos fundos para dar aos mais fortes, como uma imperatriz sem medo de escrutínio - e os processos que lhe batem à porta, do caso das SMS trocadas com o CEO da Pfizer, que o Tribunal Geral do UE considerou violação da lei da transparência e do princípio da boa administração, às mensagens que, segundo a Comissão, já não existem no telefone da presidente (7) (8) -, acusa, condena, repele, eloga, promove e salva ao sabor da sua vontade. Para a presidente da Comissão não há Estado de Direito, só o Estado de Direito dela própria. Imaculada, intangível, incomparável e imperscrutável.

As consequências dos seus atos baterão à porta dos trabalhadores de toda a Europa - da Europa real, daquela que vai dos Urais ao Cabo da Roca. (1) (7) (8)

Como todos os fascismos - que se mascaram sempre de palavras mansas -, também este vive da alma dos povos que atormenta. Nos países que celebravam o nacionalismo e o imperialismo, quanto mais se celebrava a ideia, pior o povo vivia: era como se o idealismo se alimentasse da força vital. É este o problema dos idealismos nacionalistas, federalistas ou imperialistas: celebram a ideia, nunca a realidade. Hitler queria invadir a Europa para a tornar igual à Alemanha - o que queria dizer: submetida à Alemanha. Von der Leyen cria uma Europa que exclui, para que restem apenas os que se submetem.

O desacoplamento material funciona no idealismo nacionalista, imperialista e expansionista como um cancro que se alimenta do corpo que renega. Para celebrar e concretizar a ideia, o idealismo fascista, neofascista, eurofascista ou federal-fascista é obrigado a pressionar as suas fronteiras reais, pois as fronteiras ideais não se compadecem nem se contêm nas geográficas. Ao fazê-lo, ameaça naturalmente os povos que vivem na sua periferia. Os que não se submetem terão de ser aniquilados, pela força, se necessário for. É por isso que o idealismo fascizante, da direita reacionária, revisionista e revanchista, apenas pode trazer a guerra, pois elege como objetivos a concretizar não o apaziguamento das contradições materiais existentes, mas o seu exacerbamento, alimentando-se do mesmo e da contradição que produz como alimento da sua própria propaganda, alienador dos povos e divisor das comunidades. As contradições que impõe a quem está fora, vistas como ameaças, justificam o desvio de recursos para a guerra e a imposição da guerra eterna, à custa da carestia crescente da vida. Não é nada de novo; é história requentada - desde que não revista por quem escreve a soldo da narrativa oficialista, o que quer dizer, nestes dias, que se vende em qualquer grande superfície comercial.

Esta "Europa" é, assim, uma espécie de federal-fascismo: quanto mais celebra a ideia da "Europa dos valores", mais se afasta da matéria, mais se contradiz com a realidade - e a forma que encontra de resolver essa contradição é a concretização de um código moral, quase religioso, porque recusa a crítica e a discussão, e opta por nos dizer onde está o bem e o mal, o inferno e o céu. Uma "Europa" destas não pode ser de paz, porque divide, exclui, cria um fosso, antagoniza. É incapaz de assimilar: apenas de submeter. Nem os que se submetem serão algum dia vistos como iguais - um português nunca será igual a um alemão; apenas serão tolerados e incluídos, despojos de tudo o que Bruxelas considera pernicioso.

Combater esta Europa é trazê-la de volta à realidade de que foge: às suas limitações sociais, à sua degradação moral, política e social.

FONTES

  1. Discurso sobre o estado da União 2026 de Úrsula von der Leyen (transcrição oficial, Comissão Europeia, 16/09/2026) -  ec.europa.eu
  2. Serviço Audiovisual da Comissão Europeia - versão integral do discurso (16/09/2026) -  audiovisual.ec.europa.eu
  3. Euronews - cobertura integral do discurso: declarações de Roberta Metsola, Charles Michel, "declínio da nuance", orçamento de 2 biliões (16/09/2026) -  euronews.com
  4. Comissão Europeia - Alargamento: Geórgia, "processo de adesão de facto suspenso" (2024-2025) -  enlargement.ec.europa.eu
  5. Euronews - Kaja Kallas anuncia sanções mais abrangentes desde o início da guerra (17/08/2026) -  euronews.com
  6. Responsible Statecraft - "Kaja Kallas' shocking lack of historical literacy" (09/09/2025) -  responsiblestatecraft.org
  7. Euractiv - Tribunal Geral da UE: Comissão violou regras de transparência no caso "Pfizergate" (14/05/2025) -  euractiv.com
  8. PBS NewsHour/AP - SMS entre von der Leyen e CEO da Pfizer provavelmente apagados (08/2025) -  pbs.org
  9. ACER - Análise do mercado europeu de GNL: os EUA forneceram 58% das importações de GNL da UE em 2025 (07/2026) -  acer.europa.eu
  10. Gas Outlook - "EU ponders pivot from U.S. LNG dependence": risco de 80% de dependência até 2030 e de "armação" da energia (02/2026) -  gasoutlook.com
  11. Bruegel - "National plans, regional voices": coesão no orçamento 2028-2034, queda de 0,30% para 0,14-0,29% do RNB (01/2026) -  bruegel.org
  12. Eyes on Europe - Orçamento 2028-2034: capítulo da coesão cai de ~65% para 45% do total (06/2026) -  eyes-on-europe.eu
  13. Comissão Europeia - Orçamento da UE 2028-2034: 100 mil milhões para a Ucrânia, Facilidade Europeia de Paz, Global Europe de 200 mil milhões -  commission.europa.eu
  14. Jeffrey Sachs - entrevista à Berliner Zeitung (via jeffsachs.org, 01/2026): "a Europa só protesta quando Trump ameaça a Gronelândia" -  jeffsachs.org
  15. BESA Center - "Baltic States Depopulation: The Effect of the EU Periphery or Soviet Legacy?" - Letónia, Lituânia e Estónia perderam ~25-30% da população entre 1991 e 2022 [NOVA FONTE] -  besacenter.org
  16. Parlamento do Reino Unido (Commons Library) - "NATO enlargement: Sweden and Finland", Research Briefing CBP-9574 - Finlândia adere em 04/04/2023, Suécia em 07/03/2024 [NOVA FONTE] -  commonslibrary.parliament.uk
  17. AP News - Moldávia: PAS de Maia Sandu vence legislativas de 28/09/2025 com alegações de interferência russa [NOVA FONTE] -  apnews.com
  18. CBS News/AP - Referendo de 29/08/2026: os islandeses rejeitam retomar as negociações de adesão à UE (52,8% "não") [NOVA FONTE] -  cbsnews.com
  19. New Union Post - "Norway will be affected by Iceland's EU referendum result": referendos noruegueses de 1972 e 1994 rejeitaram a adesão [NOVA FONTE] -  newunionpost.eu
  20. SWP Berlin (Stiftung Wissenschaft und Politik) - "Peace Talks Between Russia and Ukraine: Mission Impossible" (08/11/2022): cronologia do colapso dos acordos de Minsk e das negociações de Istambul [NOVA FONTE] -  swp-berlin.org
  21. Foreign Affairs - Samuel Charap e Sergey Radchenko, "The Talks That Could Have Ended the War in Ukraine" (04/2024): os rascunhos dos tratados de Istambul e o colapso das negociações [NOVA FONTE] -  foreignaffairs.com
  22. OCDE - "Ukraine's Strategic Response to the Displacement Crisis" (2026): ~6,5 milhões de refugiados no estrangeiro, ~4,6 milhões de deslocados internos e população sob controlo governamental em queda [NOVA FONTE] -  oecd.org
  23. RAND Corporation - "Overextending and Unbalancing Russia" (2019): estratégia de desestabilização russa com cenários no Cáucaso (Geórgia) e na Ucrânia [NOVA FONTE] -  rand.org
  24. LSE Europp Blog - "The annulment of Romania's presidential election reflects both foreign meddling and domestic failures" (13/12/2024): anulação do primeiro turno vencido por Georgescu [NOVA FONTE] -  blogs.lse.ac.uk
  25. AP News - "The EU wants to make Canada its first 'associate member'", com reação de Trump; Canadá adere ao instrumento SAFE (16-17/09/2026) [NOVA FONTE] -  apnews.com
  26. OC Media - "EU issues 2025 Enlargement Report, says Georgia is a 'candidate country in name only'" (04/11/2025) [NOVA FONTE] -  oc-media.org
  27. Al Jazeera - "EU to release billions in frozen funds for Hungary amid Magyar reforms" (29/05/2026): 16,4 mil milhões de euros desbloqueados [NOVA FONTE] -  aljazeera.com
  28. Parlamento do Reino Unido (Commons Library) - "Hungary: 2026 parliamentary election", Research Briefing CBP-10612 - derrota de Orbán a 12/04/2026 e vitória de Péter Magyar/Tisza [NOVA FONTE] -  commonslibrary.parliament.uk

 strategic-culture.su