
Raphael Machado
O quão mais longe Delcy Rodríguez está disposta a ir ? Eis a questão.
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O ano de 2026 está passando rápido. De fato, não falta muito para ele terminar. Ainda assim, nos lembramos muito bem de como este ano se abriu: em 3 de janeiro os EUA realizaram uma operação militar em Caracas, na qual sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Lícia Flores. Durante essa operação, boa parte dos guarda-costas de Maduro perdeu sua vida. Maduro estava próximo de um bunker, mas não conseguiu chegar e selar a porta a tempo antes de ser capturado.
Em seu lugar, assume Delcy Rodríguez, apoiada por seu irmão Jorge Rodríguez, que preside a Assembleia Nacional, pelo Ministro do Interior Diosdado Cabello, e por Vladimir Padrino López, que controla os militares. Longe de apostar em "eleições livres e democráticas", os EUA referendaram a continuidade política bolivarianista, mantendo Delcy Rodríguez no poder. Maria Corina Machado, sucessora de Juan Guaidó no projeto de "revolução colorida" venezuelana, já caiu no esquecimento.
O que realmente aconteceu quando do sequestro de Maduro ? As circunstâncias nunca ficaram suficientemente bem explicadas e seguimos nadando em meio a rumores e boatos. Ocasionalmente, emergem informações inverificáveis de que alguns elementos da equipe de segurança de Maduro teriam vendido-o em troca de compensação financeira, nunca paga pelos EUA. De fato, o governo interino da Venezuela fez diversas alterações na guarda presidencial após o sequestro, mesmo enquanto nega que tenha havido qualquer traição.
Mas a grande dúvida é o que aconteceu com todo o equipamento militar russo e chinês adquirido pela Venezuela. Por que ele não foi usado em 3 de janeiro ? Estamos falando, por exemplo, de radares chineses JY-27A, JYL-1 e JY-11, alguns dos quais têm capacidade anti-stealth, bem como de caças russos Sukhoi Su-30 e de sistemas antiaéreos russos como o S300 e o Buk-M2. Nada disso parece ter utilizado durante o ataque dos EUA. Falta de manutenção ? Falta de prontidão dos soldado venezuelanos ? Não se sabe.
Desde então, Delcy Rodríguez tem sido extremamente criticada, por anti-imperialistas estrangeiros, por sua postura conciliacionista com os EUA. Sempre que aparecem notícias de uma reunião da presidente interina da Venezuela com algum representante dos EUA, tal como Dan Caine do Estado-Maior Conjunto dos EUA, com Marco Rubio ou, tal como recentemente, com Donald Trump, abundam as críticas. O mesmo quando o governo venezuelano emite as suas já agora típicas notas oficiais comemorando a "colaboração" com os EUA, a "melhora nas relações", as "oportunidades de investimentos", e assim por diante.
Agora, em alguma medida, é bastante fácil criticar o governo interino da Venezuela estando fora da Venezuela e sem ter que lidar com o mesmo tipo de pressão. Num sentido prático e material, de que opções a Venezuela dispõe hoje ? Em que medida ela pode desafiar diretamente e abertamente os EUA?
A versão oferecida pelos apoiadores do atual governo venezuelano é de que a prioridade de Delcy Rodríguez é preservar o sistema político bolivariano e conseguir a devolução de Nicolás Maduro. A soberania econômica pode, até certo ponto, ser sacrificada no curto-prazo, a estrutura de poder não, já que está é mais difícil de reconstruir ou recuperar caso deixe de existir. Nesse sentido, Delcy Rodríguez estaria oferecendo concessões aos EUA visando ganhar tempo, aguardando até que mudanças políticas dentro dos EUA - como uma derrota de Trump nas midterms ou, talvez, nas próximas eleições presidenciais - tragam algum cenário mais favorável.
A narrativa é plausível e, sinceramente, no lugar da Delcy Rodríguez eu faria a mesma coisa. Não parece haver muitas outras opções, nesse momento, para a Venezuela, além do controle de danos.
Mas o quanto é possível ceder?
Em apenas 1 ano vimos o retorno da Embaixada dos EUA a Caracas, bem como o estabelecimento de um escritório da CIA no país e a restauração das relações com o Estado de Israel.
No plano econômico, os EUA passaram a se aproximar da receita de aproximadamente 1 milhão de barris diários exportados, cujo valor é apenas parcialmente devolvido ao governo venezuelano para a realização de investimentos e gastos autorizados pelos EUA. Boa parte do valor permanece com o governo dos EUA, e Trump se referiu diretamente a este valor como espólio de guerra.
Logo em seguida, a Venezuela concedeu à empresa estadunidense Trafigura o direito de comprar e exportar ouro venezuelano para ser refinado no exterior, com aproximadamente 400kg de ouro por mês sendo transferidos para os EUA.
E mais recentemente, a Venezuela cedeu aos EUA controle majoritário sobre reservas venezuelanas ainda não exploradas e que equivaleriam, em tese, a 65 bilhões de barris de petróleo. Trata-se de áreas nas quais os EUA fariam investimentos de 100 bilhões de dólares para extrair petróleo por 25 anos, o que renderia 200 bilhões de dólares em receita para a Venezuela, mas muito mais para as empresas envolvidas e para o governo dos EUA.
O quão mais longe Delcy Rodríguez está disposta a ir ? Eis a questão.
Finalmente, é temerário acreditar que uma mudança na Casa Branca de um governo republicano para um governo democrata representaria uma virada de sorte para a Venezuela. Em tópicos estratégicos, há uma surpreendente continuidade de política externa entre diferentes governos, o que nos indica que talvez não seja a Casa Branca a ditar as diretrizes realmente. Ademais, não custa nada recordar que foi sob Barack Obama que o cerco contra a Venezuela realmente se iniciou, intensificando-se com cada presidência subsequente, fosse ela republicana ou democrata.