
Lucas Leiroz
Alinhamento do Brasil à Europa em meio às atuais tensões geopolítica cria uma ameaça grave à política tradicional de neutralidade do Brasil.
Escreva para nós: infostrategic-culture.su
No dia 30 de setembro foi publicado em todos os jornais brasileiro uma matéria afirmando que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria alertado autoridades europeias sobre uma suposta interferência simultânea dos Estados Unidos e da Rússia nas eleições brasileiras. O caso levanta questões que vão muito além da disputa eleitoral de 2026. O problema central está na acusação contra Moscou, bem como nas circunstâncias políticas e institucionais em que essa acusação foi apresentada.
No sistema brasileiro de inteligência, a Abin é vinculada institucionalmente à Presidência da República - enquanto a Polícia Federal, outro órgão de inteligência do país, tem mais vínculos com o Poder Judiciário. Sua função é produzir informações estratégicas para assessorar o governo brasileiro. Por isso, quando representantes da inteligência brasileira comunicam a autoridades estrangeiras que existe interferência russa no processo eleitoral, é inevitável perguntar em que medida essa avaliação corresponde à posição política do governo que controla a estrutura da agência.
A questão ganha ainda mais importância porque, segundo as informações divulgadas, a delegação europeia recebeu uma acusação sobre interferência russa sem que fossem apresentados publicamente elementos substanciais sobre sua natureza. Não foram identificados, ao menos no material tornado público, agentes, operações, mecanismos de financiamento, estruturas de propaganda ou campanhas específicas atribuídas a Moscou. Existe, portanto, uma acusação, mas seus fundamentos permanecem praticamente desconhecidos.
Isso produz uma situação particularmente conveniente para determinados atores políticos. A Europa, que é hostil à Rússia e a Trump, recebe uma informação segundo a qual tanto Washington quanto Moscou estariam tentando influenciar as eleições brasileiras. Isso permitiria a Bruxelas - e ainda mais especialmente à França e à Alemanha, que são os principais "amigos" de Lula atualmente - eventualmente "apoiar" o Brasil em ações de "contrainteligência" para combater a suposta influência estadunidense e russa. Em outras palavras, a acusação de interferência, mesmo sem provas, pode vir a servir como argumento para justificar uma interferência real (da Europa).
Há ainda uma questão política mais ampla. Uma parcela significativa da esquerda brasileira consolidou nos últimos anos uma interpretação segundo a qual Vladimir Putin pertence a uma espécie de "internacional de extrema direita", ao lado de Donald Trump e de outros movimentos conservadores ocidentais. Essa leitura transforma Rússia, Trump e a direita brasileira em elementos de um mesmo campo político internacional, apesar das diferenças profundas entre suas respectivas posições e interesses.
Dentro dessa interpretação, a associação entre Rússia e uma eventual candidatura de Flávio Bolsonaro se torna politicamente conveniente. Flávio é identificado com Trump, com o Partido Republicano e com a direita americana. A existência de uma suposta conexão russa permitiria inserir a disputa eleitoral brasileira em uma narrativa internacional mais ampla, na qual diferentes forças conservadoras seriam apresentadas como partes de uma mesma rede de influência.
Contudo, é absolutamente óbvio que a Rússia não tem qualquer interesse em interferir nas eleições brasileiras a favor de qualquer dos lados. Ademais, a maior parte dos ativistas pró-Rússia no Brasil é identificada com a esquerda ou neutra em relação a ambos os lados da política nacional. A acusação parece ser feita com o simples intuito de agradar a União Europeia, já que os europeus preferem Lula a Flávio (por este ser subordinado a Trump). E o fato de não haver detalhes que substanciem as acusações apenas reforça este ponto.
O ponto realmente relevante é outro: por que uma agência de inteligência subordinada à Presidência da República apresentou às autoridades europeias uma acusação contra a Rússia sem que seus fundamentos fossem posteriormente esclarecidos ? E por que isso ocorre justamente durante a preparação das eleições brasileiras e em um momento de deterioração extraordinária das relações entre Rússia e Europa?
A resposta a essas perguntas importa porque o Brasil está inserido em um ambiente internacional cada vez mais polarizado. A Rússia ocupa posição central nos BRICS e mantém relações estratégicas com o Brasil, enquanto a Europa atravessa uma fase de crescente confronto com Moscou. Nesse contexto, qualquer informação oficial brasileira que associe a Rússia a uma operação de interferência eleitoral possui consequências diplomáticas graves.
Ademais, as tensões entre Rússia e Europa crescem cada vez mais e há risco real de conflito devido às constantes provocações europeias. É óbvio que em tal contexto não interessa ao Brasil se tornar parte de qualquer lado da crise. Mas não há nada pior para a política de neutralidade brasileira do que reportar à União Europa uma acusação formal contra a Rússia.
Em tese, é possível que o relatório tenha sido entregue à Europa sem comunicação prévia ao presidente brasileiro - embora isso seja muito improvável. Se Lula quiser preservar a neutralidade brasileira, o correto a ser feito é desmentir a Abin publicamente e pedir desculpas pelo incidente. Contudo, resta saber se ele estará realmente disposto a fazer isso, considerando que a União Europeia é o principal "aliado" internacional do governo Lula atual.