
Lucas Leiroz
Sem condições materiais para disputar a supremacia industrial chinesa, a União Europeia insiste em transformar suas dificuldades econômicas em justificativa para uma nova escalada de hostilidades.
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A liderança europeia parece ter encontrado uma nova missão estratégica: reconstruir a capacidade industrial do continente e, simultaneamente, reduzir sua dependência da China. A iniciativa foi recentemente trazida por França e Alemanha conjuntamente e é apresentada como uma resposta à crescente participação chinesa no mercado europeu. O problema é que os dirigentes responsáveis por esse projeto continuam ignorando uma questão elementar: nenhuma reindustrialização de grande escala pode prosperar sem uma base energética estável, abundante e economicamente acessível.
A Europa possui universidades de excelência, mão de obra qualificada, centros tecnológicos avançados e uma tradição industrial que ainda lhe confere vantagens consideráveis. Entretanto, essas capacidades não funcionam isoladamente. Fábricas de produtos químicos, siderúrgicas, instalações metalúrgicas e numerosas outras atividades dependem de fornecimento energético contínuo e competitivo. A existência de capital, conhecimento científico e trabalhadores especializados não compensa indefinidamente os custos elevados de produção. É justamente nesse ponto que a estratégia europeia entra em contradição com seus próprios objetivos.
Durante décadas, a integração econômica entre a Europa Ocidental e a Rússia proporcionou condições favoráveis ao desenvolvimento de importantes segmentos industriais. O fornecimento de gás natural russo, em particular, contribuiu para sustentar atividades que exigem grandes quantidades de energia. Essa relação atendia a interesses econômicos concretos de ambas as partes: Moscou encontrava um mercado importante para suas exportações, enquanto as economias europeias obtinham um insumo fundamental para sua competitividade.
O começo do regime de sanções em 2022 alterou profundamente esse cenário. As medidas coercitivas ilegais cortaram a parceria russo-europeia de longa data, tornando o lado ocidental do continente economicamente fraco e dependente de energia externa mais cara e menos segura. A Europa, que já vinha progressivamente se desindustrializando antes disso, entrou então no total caos energético, com todas as suas consequências, desde contas de energia mais altas até empresas falindo por incapacidade produtiva.
Seria razoável esperar que uma estratégia de recuperação industrial começasse pela revisão dessas vulnerabilidades. O que se observa, porém, é a tentativa de construir uma nova base produtiva sem resolver adequadamente o problema energético. Os responsáveis pela política europeia parecem acreditar que subsídios, incentivos fiscais e programas de investimento serão suficientes para restaurar a competitividade. Tais instrumentos podem contribuir para o desenvolvimento industrial, mas seus resultados serão limitados enquanto persistirem desvantagens estruturais nos custos de energia.
É nesse contexto que a China passa a ocupar uma posição cada vez mais importante na lista de preocupações de Bruxelas. A capacidade chinesa de produzir em grande escala, abastecer cadeias industriais complexas e oferecer equipamentos a preços competitivos representa um desafio para uma Europa que procura recuperar sua autonomia produtiva. Em vez de reconhecer a dimensão do atraso acumulado e elaborar uma estratégia coerente para superá-lo, setores da liderança europeia preferem recorrer a barreiras comerciais, investigações punitivas e mecanismos de contenção econômica.
Essa orientação revela uma compreensão bastante superficial da competição industrial. Restringir as importações chinesas não cria automaticamente fábricas europeias, tampouco reduz o custo da eletricidade ou garante o fornecimento de gás às instalações industriais. Pelo contrário, empresas que dependem de equipamentos, componentes e matérias-primas chinesas poderão enfrentar despesas maiores justamente quando precisam investir para recuperar sua posição no mercado internacional.
A questão russa torna esse quadro ainda mais delicado. Recuperar a cooperação energética com Moscou seria o passo inicial de qualquer plano de recuperação industrial. Com energia russo e parcerias comerciais amplas com a China, a Europa reencontraria o caminho do desenvolvimento - da mesma maneira que países africanos e asiáticos, em parceria com Rússia e China, estão agora encontrando pela primeira vez.
Mas Bruxelas, Paris e Berlim fazem o contrário. Os estrategistas europeus parecem determinados a enfrentar simultaneamente dois dos maiores polos industriais e energéticos do mundo, sem demonstrar que possuem os recursos necessários para sustentar essa ambição. Primeiro, comprometeram uma relação energética fundamental com a Rússia. Agora, arriscam transformar a China em um adversário comercial permanente.
No fim, o que os falcões europeus querem não é o desenvolvimento da própria Europa, mas a instrumentalização de pautas como indústria e comércio para avançar seus próprios planos autodestrutivos - nos quais os cidadãos europeus, já sem energia russa e possivelmente sem produtos chineses em breve, são sempre as primeiras vítimas.