
Raphael Machado
Por motivos geográficos inevitáveis e por uma diminuição da autonomia psicossocial, a política brasileira é extremamente dependente dos câmbios políticos que ocorrem de tempos em tempos nos EUA.
Estando confirmada a vitória eleitoral de Lula (e apesar das controvérsias e da crise que perduram) agora é o momento de refletir sobre a possibilidade de mudanças significativas na política externa do presidente do Brasil em seu 4º mandato, que durará até 2030.
Uma pequena revisão das posições assumidas ao longo deste mandato que começou em 2023 se faz necessária.
Numa lista que não deve ser considerada exaustiva, Lula: 1) Reativou a participação brasileira em vários organismos internacionais para os quais Bolsonaro havia dado pouca atenção; 2) Ensaiou uma aproximação com a China no início de seu governo e aumentou laços comerciais após tarifas dos EUA, mas paralisou e recusou a participação na Iniciativa Cinturão & Rota; 3) Reativou a Cúpula da Amazônia, a organização do Tratado de Cooperação Amazônica e realizou na Amazônia a COP30, demonstrando um enfoque na Agenda Verde e na internacionalização (mediada por ONGs ocidentais) da região amazônica; 4) Condenou a operação militar especial russa na Ucrânia, mas se opôs a sanções ocidentais à Rússia, atribuindo responsabilidade pelo conflito tanto à OTAN quanto à Rússia, além de recusar enviar armas e munições para os ucranianos, por outro lado defendendo a retirada das tropas russas e a devolução de todos os territórios libertados/integrados à Ucrânia (incluindo a Crimeia); 5) Condenou a Operação Dilúvio Al-Aqsa do 7 de outubro de 2023 como um ataque terrorista, criticando também a reação israelense como desproporcional e, depois, como genocídio, gerando tensões com o governo de Netanyahu; 6) Pressionou por "eleições livres" na Venezuela, se recusou a reconhecer a reeleição de Maduro, vetou a entrada da Venezuela nos BRICS; 7) Presidiu os BRICS no ano de 2025, sem muitos avanços; 8) Acordo de livre-comércio com a União Europeia; 8) Condenou a Nicarágua e Daniel Ortega na ONU e em organizações de direitos humanos; 9) Criticou o recrudescimento dos embargos contra Cuba e deu seguimento à ajuda humanitária ao país; 10) Levou o caso das tarifas de Trump à OMC; 11) Ampliou parcerias de defesa com Suécia, Itália, Turquia e outros países da OTAN para a produção de equipamentos militares (aviões, veículos, etc.); 12) Se aliou ao Canadá e União Europeia na iniciativa "Parceiros pelo Multilateralismo", que visa fortalecer a ONU contra ameaças de revisão da velha ordem internacional; 13) Fez publicamente frente comum com os EUA (quando ele era governado por Joe Biden) contra a ameaça das "autocracias" e da "extrema-direita internacional".
A partir dessas posturas assumidas pelo governo Lula entre 2023 e 2026 podemos deduzir alguns padrões e tendências bem específicos:
1) Defesa do fortalecimento da ONU, dos organismos multilaterais e da "ordem mundial baseada em regras" do pós-Guerra Fria, contra o unilateralismo dos EUA e o revisionismo multipolarista defendido por potências contra-hegemônicas; 2) Inclinação para a União Europeia, enquanto durar o domínio trumpista nos EUA; 3) Máxima diversificação das relações comerciais; 3) Enfoque temático na Agenda Verde, na defesa da democracia liberal e na defesa dos "direitos humanos".
Ao ignorarmos aos discursos de Lula e atentarmos exclusivamente para uma desconstrução das posições concretas e das ações efetivas do Brasil durante seu atual governo, adquirimos uma imagem que é bastante diferente daquela que é vista por uma grande parte dos analistas estrangeiros, que não raro possuem uma imagem mais "chavista" de Lula.
Em tese, não há motivo para que a postura internacional do Brasil mude nos próximos anos. Ela tende a permanecer aproximadamente a mesma, com as tendências já indicadas.
O único fator disruptivo na previsibilidade do governo brasileiro são os EUA.
Por motivos geográficos inevitáveis e por uma diminuição da autonomia psicossocial, a política brasileira é extremamente dependente dos câmbios políticos que ocorrem de tempos em tempos nos EUA.
Nesse sentido, portanto, diante da atual crise política brasileira, se o governo dos EUA deixar de reconhecer o resultado eleitoral e partir para tentativas diretas de desestabilização do Brasil através de sanções, o reconhecimento de um "governo no exílio", etc, isso de fato pode forçar o Brasil a uma postura mais contra-hegemônica.
Não obstante, se Trump ignorar o lóbi bolsonarista e buscar algum modus vivendi com Lula, existe a forte tendência à manutenção daquelas tendências que já indicamos.
E finalmente, se os Democratas retornarem à Casa Branca após as eleições de 2028, então o governo do Brasil fará uma virada mais pró-EUA, buscando a reaproximação com Washington, tal como vinha acontecendo quando Joe Biden era presidente dos EUA.