📚 31/10/2026 strategic-culture.su  19min ⁑️ 6 🇸🇹 #331770

Como foi possível ?

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Hugo Dionísio

Relatório Kissinger instrumentalizou emancipação feminina e migração para conter natalidade e pressionar salários. O resultado: fascismo.

Escríbenos: infostrategic-culture.su

Europa, Paris, ano 2100. Num qualquer livro de história de um país que outrora pertencera à extinta União Europeia, tenta-se explicar o que conduzira à trágica situação ocorrida setenta anos antes. Uma professora, tentava em vão explicar, como fora possível ter-se chegado ali.

Primeiro, apoiando-se no programa fornecido, a docente começou por alegar uma grande crise de mão de obra, criada pelo decréscimo abrupto da taxa de natalidade nos países com as economias mais avançadas. As causas desse declínio eram extremamente complexas e, entre inúmeras causas, a explicação mais em voga situava-se na intersecção entre justas dinâmicas de luta e de emancipação social, a forma como essas medidas foram aproveitadas pela classe dominante - conforme descrito no próprio Relatório Kissinger - e o modo como as condições de trabalho, não evoluírem e corresponderam às necessidades sociais sentidas e exigidas pelos trabalhadores, no âmbito da terceira e na quarta revoluções industriais, provocando um desajustamento entre as necessidades populacionais e demográficas e o modo de exploração capitalista, que não dava espaço e tempo à mulher, à família, para procriar e planear o futuro. O trabalho tinha de vir primeiro, a carreira, o rendimento, e depois, para muitas, foi tarde demais.

O Relatório Kissinger, concluído em 1974, representando o expoente máximo da contradição entre capitalismo e necessidades sociodemográficas, explorava de forma subversiva o planeamento familiar e associava a educação e a condição das mulheres à redução da fecundidade, como formas de controlar o crescimento da população mundial. Para os seus autores, o cálculo era simples: demasiada população conduzia à escassez de recursos; demasiados jovens, conduzem a reivindicações e até revoluções pelo controlo nacional dos respetivos recursos. Num caso e no outro, isso jogava contra o interesse nacional dos EUA. Na prática, o Relatório Kissinger, em vez de olhar para a luta feminina pela emancipação como um ganho civilizacional puro, propunha uma instrumentalização imperialista dessa luta legítima pela liberdade e igualdade, agravando uma das graves contradições do sistema capitalista, das primeiras décadas do século XXI.

A lógica promovida foi simples: a libertação da mulher só interessava na medida em que se alinhasse com os interesses nacionais dos EUA e do imperialismo. Muito do que foi feito (ou deixado fazer), a partir daí, nomeadamente em matéria de negação dos direitos de parentalidade e de acomodação do direito à família, no quadro das relações laborais e sociais, não apenas constituiu um instrumento perverso de controlo populacional, como ainda negou às mulheres emancipadas e seus companheiros, o direito a fruírem de uma nova liberdade, a liberdade de se constituir família em resultado do amor, do planeamento da vida e não da retrógrada imposição económica e social. A ideologia dominante nos EUA tinha esta capacidade de tornar feito tudo o que bonito era.

Distinguir entre o que resulta de contradições próprias do sistema capitalista, ou de um programa subversivo, não é tarefa fácil. Contudo, os EUA, tal como sucedeu com muitas das mais importantes lutas sociais - democracia, liberdade, direitos humanos, igualdade - acabaram por conseguir virar o bico ao contrário, tornando-as muitas vezes perniciosos cavalos de Tróia, como sucedeu com a Primavera árabe, as invasões do Iraque, do Afeganistão, a destruição da Jugoslávia, da Líbia, da Síria e do Iémen, a cobertura dos direitos humanos e do combate ao terrorismo. Tal como nas épocas mais medievais, usava-se a pretensão civilizatória, para ocupar, pilhar, desmantelar.

Duas tendências aparentemente avançadas e inatacáveis - a emancipação da mulher em relação ao poder patriarcal do pai, dos irmãos ou do marido, e a possibilidade de as famílias escolherem quando ter filhos, abrindo também a porta à revolução sexual seguinte, em que o sexo deixou de ser tabu e passou a ser visto como algo livre e até saudável - foram resultado por um lado, da luta, mas, por outro, não deixaram de ser instrumentalizadas por interesses mesquinhos, egoístas e narcisistas, e até imperialistas. Tudo isto usado para retirar amplitude e abrangência política a estas lutas sociais.

Um dos resultados, numa primeira fase, foram, em parte, os trinta anos de ouro dos EUA e do ocidente, com a entrada de todo esse "PIB feminino" na economia, criando a riqueza industrial que alimentaria a reconstrução europeia pós segunda guerra mundial, e o poderio económico que viria não apenas a derrotar a URSS, através do outspending (gastar mais do que), como a sustentar um Estado de bem-estar cuja existência tivera de ser concedida para que o sistema capitalista não desmoronasse moralmente, perante uma proposta socialmente mais justa apresentada pelo outro lado do Muro de Berlim. Esta dinâmica social mais vasta, em que se inseriu a luta das mulheres, alimentou o poder da classe trabalhadora, deu-lhe amplitude e conduziu a uma conquista de direitos sem precedentes, com o consequente retorno em matéria de redistribuição de riqueza.

No final desse período, nomeadamente a partir dos anos sessenta e sobretudo nas décadas seguintes, a Escola de Chicago começou a praticar o que mais tarde se viria a designar por neoliberalismo, depois consagrado no conhecido "Consenso de Washington", expressão criada por John Williamson em 1989. A proposta, numa fase decadente da URSS, em que esta já se encontrava em retracção e os EUA encontravam na República Popular da China de Mao Tsé Tung um aliado ocasional, conduziu, sucessivamente, à brutal desregulação do mundo do trabalho e a um ataque sem precedentes aos direitos sociais, antes pilares da "democracia social liberal". As mulheres, os homens e as famílias começaram, primeiro, a deixar de ter tempo para a vida familiar; em seguida, as mulheres foram obrigadas a adiar a maternidade para não comprometer a carreira, muitas vezes num adiamento sem fim. Mais tarde, com a queda dos salários e a degradação dos serviços públicos, ter filhos passou a ser um luxo a que cada vez menos pessoas se podiam dar ao direito.

Nesta fase, convém explicar por que razão os serviços públicos se desagregaram. A proposta neoliberal assentava em contas públicas supostamente certas, baixos impostos para as "empresas", com a justificação avançada de se fomentar o trickle down (infiltração dos ricos para os pobres), impostos altos sobre o trabalho, comodificação de setores fundamentais, como a saúde, a educação, a habitação e a segurança social, e privatização em massa de setores antes considerados estratégicos. A federalização e degradação das soberanias foram instrumentos da lógica privatizadora, veículo de transmissão e entrada de capitais estrangeiros, em "livre circulação", que se apoderaram dos monopólios estatais. Países como Portugal soçobraram de tal forma que privatizaram quase 100% do sector empresarial público. Nada escapou à ânsia dos gaviões de Wallstreet.

Nessa altura, como forma de marinar bem o processo e torná-lo mais lógico, tinham sido introduzidos termos como "anarcocapitalismo", "Estado mínimo" e "Estado austeritário". O que antes fundamentara a necessidade de assegurar a existência do Estado deixava de ser necessário, perante a ideia de que este era pernicioso, demasiado grande e que a riqueza deveria estar do lado "de quem a cria", ou seja, das "empresas". Nunca dos trabalhadores. Tudo o que falhava economicamente era tido, pela ideologia dominante, como culpa das resistências legais e sociais à liberalização total. Convém dizer que esta "ideologia dominante" se apresentava como não sendo "ideologia" mas "técnica".

O fim desse salário invisível, pago através de benefícios e direitos sociais, serviços públicos gratuitos ou muito acessíveis, energia, comunicações e logística a preços comportáveis, associado à queda da natalidade e à acumulação sem precedentes dos activos, em cada vez menos mãos, conduziu a uma estagnação económica sem fim, dramática para uma "economia" que se media - e que arcaico isso era ! - em PIB: produto interno bruto ! Os mais ricos acumulavam como nunca, faziam os recursos sair para os paraísos fiscais e activos financeiros improdutivos, mas tudo isso era PIB. Quanto mais PIB, piores eram as condições de vida da maioria. O que se media não eram as variáveis da civilização, como o crescimento produtivo, o acesso a infraestruturas, a circulação de mercadorias, energia produzida e eficiência energética, acesso a serviços fundamentais, poder de compra, mas sim a quantidade de riqueza como um todo. O desperdício fazia crescer o PIB ! A guerra fazia crescer o PIB ! Tornou-se demasiado fácil mentir e apresentar como crescimento o que era destrutivo e improdutivo.

Perante a falta de saídas, a alegada escassez de mão de obra fazia pressão para o aumento dos salários; ao mesmo tempo, uma estagflação sem fim levava o patronato a exigir a entrada de imigrantes, a governos cada vez mais dóceis e habitados por funcionários da "C-suite" empresarial - governos pelo patronato financiados e por ele promovidos na comunicação dita "social". Foi a época em que as maiores associações patronais exigiam portas abertas. Mão de obra barata, para actividades de baixo valor acrescentado, mas muito lucrativas e com o prémio de pressionar, para baixo, os salários dos trabalhadores locais.

A entrada de imigrantes correspondia não apenas a um acréscimo de PIB - tanto pelo que produziriam como pelo que consumiriam -, mas também à repetição, sessenta anos depois, do efeito que tivera a emancipação da mulher durante os tais trinta anos de ouro. Realidade a que se associou ainda a guerra da Ucrânia, motor de venda de armas, bem como a bolha da Inteligência Artificial.

Ao longo de décadas, entraram muitos milhões de trabalhadores migrantes no Ocidente. Os EUA passaram de cerca de 249 milhões de habitantes, em 1990, para aproximadamente 342 milhões, em 2025. Em França, a população da França metropolitana passou de cerca de 50 milhões, em 1968, para mais de 66 milhões, em 2023; no conjunto do país, estimava-se em 69,1 milhões no início de 2026. A Alemanha, que, já reunificada, tinha 79,8 milhões de habitantes em 1990, ultrapassara os 84 milhões em 2023. Portugal, que durante décadas rondara os dez milhões, atingiu 11,4 milhões em 2025.

Entre outras razões, também para melhor ajudar esse PIB vivo, dinâmico e em movimento a entrar, potências ocidentais e organizações internacionais envolveram-se, directa ou indirectamente, em guerras e intervenções que desestabilizaram vários países. A NATO assumiu o comando das operações militares na Líbia em 2011; no Iraque, a invasão de 2003 fora conduzida por uma coligação liderada pelos EUA, mas não pela NATO enquanto organização. A Síria afundara-se numa guerra com múltiplas intervenções externas, fomentada pelos EUA; o Irão e o Líbano enfrentavam outros conflitos e crises, em que EUA e ocidente também foram actores principais, não raramente sob a máscara de um instrumento chamado Israel.

Tais processos conduziram à destruição de países soberanistas que recebiam migrantes. Países que, em diferentes graus e períodos, tinham conhecido regimes laicos e fases de prosperidade económica viram-se destruídos pela máquina imperialista. As justificações existiram sempre, mas hoje sabemos que eram tão falsas quanto insatisfatórias. O resultado foi o que se viu: imensas multidões desesperadas à procura de atravessar o Mediterrâneo, a qualquer custo. Dos campos de "detenção" na Turquia, às instalações de triagem da Grécia ou Itália, a Europa foi "invadida" pelo desespero económico, produto da sua incúria, egoísmo, criminosa irresponsabilidade e imbecil arrogância, responsáveis pela provocação de um êxodo inverso ao da Segunda Guerra Mundial. Os europeus que haviam migrado para muitas dessas paragens, quando se tratou de fugir desesperadamente ao terror nazifascista, agora eram eles próprios quem não queria entre si, muitos dos que os haviam albergado antes. A história neofascista na Europa é também uma história de ingratidão histórica sem fim.

Milhões de muçulmanos, hindus e budistas entraram pelo Ocidente adentro, pela Europa adentro, chocando comunidades, desafiando costumes, impondo naturalmente as suas culturas e valores. Não porque o quisessem, mas porque a sua entrada em números tão grandes acabaria por conduzir a tal. Poder-se-ia perguntar, por que razão estes Estados não se haviam preparado para tal processo, já que pretendiam encetá-lo. Uma entrada que poderia enriquecer culturalmente um continente em morte lenta, foi vista como uma espécie de parasítica invasão.

Os países ocidentais não se prepararam precisamente pelas mesmas razões que conduziram à destruição do ponto de equilíbrio anterior. O PIB entrou, mas o lucro da sua exploração ficou em pouquíssimas mãos. Foi o tempo em que as plataformas do Vale do Silício exploraram migrantes como escravos e, com essa exploração, atomizaram os direitos laborais ainda existentes. Condutores de Uber, entregadores de comida, trabalhadores na apanha da fruta, turismo de massas: não houve actividade de baixo valor acrescentado, baixa qualificação e baixo salário em que não fossem empregues. Esse PIB foi acumulado e concentrado, mas para a comunidade autóctone ficou apenas o desafio da integração.

Talvez esse tenha sido um dos problemas. Não se podia esperar muito crescimento de actividades com um perfil tão pobre. Mas, se os governos, nesse momento ainda mais dóceis, isentaram de impostos e subsidiaram avultadamente aqueles que exploraram essa mão de obra, sem nada exigir em troca, esses mesmos governos, demitidos da responsabilidade da coesão social, deixaram às sociedades os impactos, os custos e os encargos. Tal como se haviam divorciado em relação às necessidades dos trabalhadores locais, por maioria de razão também se divorciaram em relação às necessidades dos migrantes e do investimento necessário com a sua integração saudável. Uns e outros, trabalhadores locais e migrantes, foram carne para canhão de um modelo económico cada vez mais selvagem e voraz.

Transportes públicos lotados, serviços públicos exauridos, sociedades espartilhadas: o choque para o comum dos trabalhadores foi brutal. Até as casas faltaram nessa altura ! Subitamente transformadas em mercadoria e em activos financeiros, vendê-las e arrendá-las tornava-se, não poucas vezes, menos vantajoso, pois a sua entrada no mercado desvalorizava - pelo aumento da oferta - activos sobre os quais se estruturavam swaps, derivados, futuros, ETF, obrigações, etc. Mais pessoas, menos casas. Mais procura, mais casas vazias, menos casas no mercado, preços mais elevados, e mais casas em cada vez menos mãos. Garantias constitucionais que deveriam ter sido redimensionadas foram vítimas da ideologia dominante do estado mínimo.

As guerras do império e a financeirização da energia provocaram preços elevadíssimos, que desembocaram num aumento brutal do custo de vida: inflação, estagflação, deflação, não houve nada que não atacasse. Tudo isto enquanto assistíamos aos Estados serem governados por governos que viviam alheados, abstraídos das dores e dos lamentos da população.

Não foi preciso muito para que o imigrante passasse a ser visto como invasor. Políticos comprometidos pelo apoio e pela cumplicidade com as políticas até aí aplicadas, para se divorciarem das suas responsabilidades e lucrarem politicamente com a revolta, elegeram o trabalhador estrangeiro como culpado.

Não valeu a pena dizer que esse trabalhador não vinha porque queria, que o seu país estava destruído pelas guerras e neocolonialismo provocados pelo Ocidente, que esse migrante ficaria lá se pudesse, que vinha em desespero, que o tinham trazido e lhe tinham facilitado a entrada para o poderem explorar, para que os nossos salários fossem contidos e desvalorizados, e para que patrões sem escrúpulos e políticos corruptos pudessem lucrar com tudo isso. De nada valeu dizê-lo, demonstrá-lo e prová-lo. Estava escrito na parede, como estivera escrito na parede alemã dos anos trinta do século XX: os judeus não eram os culpados.

O bode expiatório estava arranjado e ainda trazia a vantagem de fracturar a classe trabalhadora.

Não tardaram as acusações de que apenas queriam os subsídios. Como se todos os trabalhadores não quisessem subsídios que aliviassem a sua miséria. Como se fosse crime um trabalhador querer um subsídio para o qual havia pago com impostos, no trabalho ou como consumidor. Como se uma família, com o pai e a mãe a trabalhar, não merecesse alívio pela luta árdua do dia a dia, por uma vida de trabalho prometida, e sem Eldorado no final.

As acusações não pararam ! Não valeu a pena dizer que os refugiados - apresentados como os únicos que recebiam sem ter de trabalhar - eram residuais; que mesmo as famílias numerosas, cujos filhos não trabalhavam e recebiam subsídios da segurança social, estavam a preservar PIB futuro e mão de obra barata; que os maiores subsídios, isenções, prémios e perdões, aos biliões, eram dados ao capital, às "empresas", empresas que tantas vezes não pagavam impostos. Dessas, ninguém falava.

A tensão foi subindo e passou para quem antes tinha uma vida digna e a via agora ameaçada. Insensíveis, os governos permaneceram surdos, cegos e mudos. Não reforçaram os serviços públicos, não aumentaram os salários, não melhoraram as pensões, não integraram os migrantes como estes mereciam ser integrados enquanto seres humanos, especialmente depois de terem sido deslocados. Fizeram como haviam feito em meados do século XX. Fuga em frente. As massas humanas tornaram-se tão desumanas como só os seres humanos podem ser.

Havia que rechaçar as culpas. Foi fácil colocar os brancos que recebiam apoios ao arrendamento, ao desemprego e à doença, reformas, pensões, complementos e outras formas de assistencialismo a culpar os outros por também os receberem. Havia uma sensação de que não chegava para todos e ninguém avançava com melhor explicação que "o dinheiro não chegava". Esse ódio cresceu e deu jeito a governos cada vez mais impotentes para afrontar os interesses que os tinham eleito. Umas notícias sobre o fim da Segurança Social, a inevitabilidade da austeridade e o fim dos direitos incendiaram tudo. O que antes chegava para todos agora não chegava para ninguém, e a única explicação lógica que passava, dia e noite, nos órgãos da ideologia dominante era que os culpados eram "os migrantes".

Nenhum cidadão médio dessa altura saberia dizer por que razão o dinheiro já não chegava. A economia crescia, a produtividade crescia, a riqueza coletiva aumentava, mas para onde ia o dinheiro, então ? Só poderia ser para os "migrantes". Pouco adiantou explicar que, segundo estimativas da Oxfam, desde 2015 os 1% mais ricos detinham mais riqueza do que os 99% e que, em 2017, oito homens possuíam tanto como a metade mais pobre da humanidade. Um minibus chegava, afinal, para transportar os detentores dessa riqueza concentrada. Tudo isto acontecia ao ritmo de menos impostos pagos, mais subsídios e benefícios fiscais recebidos, menos direitos dos trabalhadores, salários mais baixos e mais horas de trabalho. Empresas antes públicas, privatizadas e pagas com o seu próprio dinheiro davam agora lucros bilionários aos 1%, retirando ao Estado recursos fundamentais. Mas a culpa era dos "migrantes".

O inimigo estava escolhido e dava muito jeito a uma classe que enriquecia e concentrava cada vez mais. Os "migrantes" tinham dado muito jeito para concentrar ainda mais riqueza; agora, davam jeito como bodes expiatórios. Tal como nos idos 30's do século XX, em que o grande capital europeu não se quis ver afectado pela crise económica pós 1ª grande guerra e pela primeira vaga de descolonização, também nos 30's do século XXI, o grande capital de então, especialmente o Francês, perdido que estava o sorvedouro neocolonial do Sahel, também não quis dividir com o povo os resultados da crise do período pré-guerra mundial e resultante do esgotamento do modelo económico neoliberal. Perdida a indústria, degradada a hegemonia do dólar, o Ocidente acabara de perder, por culpa própria, o seu toque de Midas.

Perante as dificuldades, a falta de uma ideologia resistente, forte - resultado de vinte anos de cinzentismo do "não há esquerda nem direita", "as ideologias acabaram", "o marxismo é coisa do passado" e "a luta de classes nunca existiu" - deixou a população trabalhadora ideologicamente desarmada, presa fácil de uma ideologia dominante disfarçada de "pragmatismo", "neutralidade", "isenção" e "moderação". Os avisos dos sábios de outrora quanto ao perigo do discurso que se apresentava como isento de ideologia, a ninguém recordaram.

O que não existia mesmo, na sociedade, era "moderação". Hordas de trabalhadores e jovens estudantes, em protesto por direitos, entrelaçavam-se com redes sociais inflamadas de ódio pelos "migrantes" e pelos contestatários. Governos assustados foram incendiando ainda mais os ânimos, como na metáfora das formigas: colocadas num frasco, sem alimento, as formigas morrem, mas não se matam; abanado o frasco e atiradas umas contra as outras, começam a matar-se. Nem nos parlamentos, nem na comunicação dita "social", nem nos governos se encontrava a tal "moderação", a tal "contenção". Toda a decência parecia ter desaparecido.

Os mais "moderados", os que tentavam compreender e explicar a situação, eram acusados de serem cúmplices dos "invasores". A sua luta, as suas denúncias e as suas reivindicações pelo civismo, pela dignidade e pela liberdade para todos conduziram à sua ilegalização e prisão. As manifestações passaram a ser reprimidas e os seus participantes, perseguidos.

Cem anos depois, a humanidade voltou a matar indiscriminadamente outros seres humanos etnicamente diferentes. Desses, passou aos "politicamente diferentes" e, destes, ainda, aos que não podiam trabalhar. Milhões foram parar a campos de concentração; outros tantos foram atirados ao mar e bombardeados para que fugissem. Um horror sem fim que vitimou mulheres, crianças e idosos, sem qualquer dó nem piedade. Quanto maior o ódio, mais cresciam os partidos que o promoviam, num transe homicida coletivo sem fim.

Vinte anos antes desses acontecimentos, muitos tinham-se questionado sobre como fora possível aos nazis matarem tantos judeus, ciganos, comunistas, eslavos, negros e pessoas com deficiência. Trinta anos mais tarde, já muito poucos queriam saber. Hoje, em 2100, voltamos aqui a questionar-nos: como foi possível?

Fontes

  1. Conselho de Segurança Nacional dos EUA, National Security Study Memorandum 200: Implications of Worldwide Population Growth for U.S. Security and Overseas Interests, 10 de dezembro de 1974; Departamento de Estado dos EUA, Foreign Relations of the United States, 1969-1976, Population Policy.

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