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🧱 03/11/2026 strategic-culture.su  4min ⁑️ 5 🇸🇹 #332126

A Disputa Eleitoral Israelense e o Futuro do Sionismo

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Raphael Machado

Nesta última semana se realizou a eleição legislativa de Israel, visando organizar um novo Knesset e, potencialmente, um novo primeiro-ministro.

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Enquetes organizadas ao longo de 2026 indicavam que 55% dos israelenses queriam que Netanyahu saísse de cena. Aproximadamente 50% considerava que ele não soube conduzir a crise da Guerra de Gaza e 44% não nutre qualquer senso de confiança por ele. A isso se somam os escândalos de corrupção, incluindo processos judiciais, que mancham a reputação de Benjamin Netanyahu; sobre esses escândalos inclusive já comentamos em um artigo relativamente recente aqui na Strategic Culture Foundation.

As previsões eleitorais, portanto, não surpreendentemente apontavam para um colapso eleitoral do Likud, com todas as enquetes (excetuando as do Canal 14, de um aliado de Netanyahu) indicando uma votação entre 19% e 22%, ao mesmo tempo em que previam algo entre 20% e 23% para o Yashar, de Gadi Eisenkot, principal rival de Netanyahu.

Os resultados contrariaram as expectativas, porém. O Likud conseguiu 27% dos votos, enquanto o Yashar conseguiu 21%. Como esse resultado foi possível?

Em primeiro lugar, o comparecimento às urnas foi surpreendentemente alto, com 78% dos eleitores participando nas eleições. Mas estranhezas e irregularidades circundaram a eleição: o governo israelense estendeu a votação até tarde da noite, sob a alegação de problemas com o sistema de transportes; essa medida, suspeita-se, mais provavelmente se deve à percepção de que um grande número de árabes israelenses estava indo às urnas. Nesse sentido, o desespero em relação ao fortalecimento político dos árabes pode ter levado a essa manobra, enquanto os setores políticos sionistas religiosos de Netanyahu mobilizavam até os seus idosos para a votação.

E, de fato, os partidos árabes conseguiram um feito histórico, com pouco menos de 15% dos votos e 19 assentos no Knesset. O Bloco de Netanyahu, com os votos do Likud e seus aliados, garantiram 53 assentos, enquanto o Bloco de Eisenkot conseguiu 48 assentos. Nenhum bloco político conseguiu as 61 cadeiras necessárias para construir um governo majoritário minimamente estável.

A partir disso, têm início as tentativas de negociação. Netanyahu terá a oportunidade de tentar convencer algum dos partidos opositores a abandonar seus blocos para participar na aliança de Netanyahu. Netanyahu, porém, já descartou qualquer aliança com os partidos árabes, por motivos óbvios. Os Democratas, de Yair Golan, se recusam a fazer parte de qualquer coalizão com os partidos sionistas religiosos de Bezalel Smotrich e Itmar Ben-Gvir. O Yashar de Gadi Eisenkot, por sua vez, só aceitaria se aliar ao Likud se o primeiro-ministro fosse qualquer outro no lugar de Netanyahu.

A coalizão ad hoc "Juntos" de Naftali Bennett e Yair Lapid talvez seja o elo fraco do Bloco de Eisenkot. Mas a não ser que ele consiga puxar para o seu lado toda essa coalizão, que foi formada exatamente para remover Netanyahu do poder, ainda assim não será suficiente. E o Yisrael Beitenu de Avigdor Liberman se recusa a participar de qualquer governo que contenha partidos ultraortodoxos.

O impasse para Netanyahu é óbvio.

Caso ele não consiga formar um governo, Eisenkot terá sua oportunidade, mas as suas chances de sucesso não são maiores. A sua única possibilidade de formar um governo seria através de uma aliança com as duas forças políticas árabes, a Lista Conjunta de Yousef Jabareen e o Ra'am de Mansour Abbas. Mas apesar do Ra'am, no passado, já ter feito parte de uma coalizão de governo chefiada por Bennett e Lapid, hoje isso seria muito mais difícil. Após o 7 de outubro de 2023, seria exigido dos políticos árabes o rechaço completo do Hamas, bem como a profissão de fé na unidade de Israel como Estado judaico, posições que não teriam como ser extraídas de partidos como o Balad, que é parte da Lista Conjunta.

Sem uma coalizão formada, o presidente de Israel convocará novas eleições.

Netanyahu, de fato, conseguiu se agarrar ao poder, mas a perda de 11 assentos no Knesset significa uma derrota considerável para o Likud e seu projeto. Suspeita-se inclusive que Netanyahu possa iniciar um novo conflito com o Irã para tentar recuperar popularidade ou para adiar uma futura nova eleição.

Figuras importantes do sionismo internacional, enquanto isso, já romperam com Benjamin Netanyahu, incluindo Ronald Lauder, presidente do Congresso Mundial Judaico e ex-padrinho político dele, o que parece dar a entender a existência de uma operação de "bode expiatório", para a elite israelense conseguir lavar a própria reputação e tentar recuperar a influência internacional israelense.

Boa parte dos países do mundo que assumiram uma postura crítica diante do genocídio palestino fizeram questão de singularizar a responsabilidade pelos fatos em Netanyahu e apenas se afastaram de Israel a contragosto. A maioria desses países reataria laços com Israel quase imediatamente se o primeiro-ministro for Eisenkot, mesmo com Eisenkot sendo tão sanguinário quanto Netanyahu como criador da Doutrina Dahiyeh.

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