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🇺🇸 05/11/2026 strategic-culture.su  6min ⁑️ 6 🇸🇹 #332378

A traição de Trump ao Maga cobra o seu preço

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Raphael Machado

Desde 1994 não se vê um resultado eleitoral como esse nas eleições de meio de mandato nos EUA.

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Desde 1994 não se vê um resultado eleitoral como esse nas eleições de meio de mandato nos EUA. Naquela época, na metade do primeiro mandato de Bill Clinton, os republicanos alcançaram o controle conjunto do Senado e da Câmara naquilo que ficou conhecido como a "Revolução Republicana". Já em novembro de 2026 poderíamos falar numa "Revolução Democrata" com a conquista de 9 assentos no Senado e 23 assentos na Câmara. O Partido Democrata adquiriu o pleno controle sobre o Senado e a Câmara dos EUA, numa derrota avassaladora para Donald Trump.

A sensação entre os republicanos trumpistas é de que Trump pôs tudo a perder. Recordemos que Trump saiu em desgraça de seu primeiro mandato após uma derrota nas eleições de 2020. Depois disso, Trump sofreu várias acusações judiciais, foi preso, sofreu uma gravíssima tentativa de assassinato e superando todas as expectativas e previsões, conseguiu retornar ao poder derrotando Kamala Harris tanto no voto dos delegados quanto no voto popular, bem como promovendo o avanço dos Republicanos para a conquista da maioria no Senado.

O retorno de Donald Trump, quando todos já davam o trumpismo como derrotado e a carreira de Trump no fim, foi um evento praticamente milagroso. Como é possível que 2 anos depois uma derrota tão acachapante ocorra ? Para que se entenda a gravidade da situação, o Texas, há muito tempo tradicionalmente republicano viu uma vitória democrata na eleição para o governo estadual pela primeira vez desde as eleições de 1990.

Algumas explicações que têm sido oferecidas são fracas ou, na melhor das hipóteses, muito parciais.

Uma explicação fala em "mudanças demográficas" aptas a favorecer o Partido Democrata. A alegação aí se baseia na noção de que a imigração em massa ao modificar a constituição demográfica dos EUA levaria automaticamente ao fortalecimento do partido que consistentemente apoia a intensificação da imigração em massa e que se opõe às deportações em massa e a controles mais rígidos sobre as fronteiras. A pretensão de que imigrantes e seus descendentes votam automaticamente nos democratas é apenas parcialmente verdadeira. As pesquisas de boca de urna da CNN em 2024 indicaram que 46% dos eleitores "hispânicos" votaram em Donald Trump nas eleições presidenciais. Ademais, a realidade é que não há como a constituição demográfica dos EUA ter mudado tanto de 2024 para 2026. Ao contrário, de fato o governo Trump, mesmo com as polêmicas em torno ao ICE, conseguiu deportar em 2 anos aproximadamente 1.2 milhão de imigrantes (tampouco se deve atribuir às duras políticas antimigratórias o revés de Trump, já que as deportações contam com amplo apoio popular, segundo enquetes).

Outros falam sobre os problemas econômicos que Trump não conseguiu resolver e, na verdade, piorou. E aí, de fato, temos uma parte da explicação. Entre outras promessas, Trump foi eleito para dar uma solução para o problema da desindustrialização dos EUA. Seu eleitorado é composto, em parte, pelo "proletariado branco" que foi traído por Reagan e suas políticas neoliberais que levaram as empresas a buscarem a Ásia por mão de obra barata. A fórmula escolhida por Trump para dar uma solução para este problema foi a retomada do protecionismo comercial. Trump começou a impor tarifas alfandegárias significativas a dezenas de países, afetando incontáveis setores. Os resultados dessa política, porém, têm sido incertos. Se o setor siderúrgico e do alumínio foram ajudados por Trump e experimentaram algum crescimento, as pequenas e médias manufaturas e indústrias de transformação se depararam com custos mais altos para a importação de insumos industriais. As tarifas contra o Brasil e alguns outros países em desenvolvimento, por sua vez, aumentaram os custos de diversos bens primários de consumo, das carnes ao café.

Mas se a situação econômica já era complexa, ela piorou muito a partir de fevereiro de 2026, quando Trump lançou a guerra contra o Irã. Conforme o Irã fecha o Estreito de Ormuz e fustiga os países do Golfo aliados dos EUA, o impacto sobre o mercado do petróleo é imediato. Com o fracasso militar dos EUA e o conflito se esticando ao longo de meses, os cidadãos dos EUA tiveram que lidar com aumentos de mais de 40% nos preços dos combustíveis. A alta nos combustíveis, naturalmente, puxa todos os preços pra cima, ou seja, resulta em inflação.

E é aí que nos aproximamos da verdadeira causa do fracasso de Trump: Israel.

Porque não havia qualquer outro motivo, além da defesa dos interesses israelenses, para que os EUA atacassem o Irã. Não havia qualquer interesse a ser buscado ou alcançado através de uma guerra contra o Irã. O Irã nunca representou uma ameaça para os EUA, tendo uma geopolítica exclusivamente regionalista. O Irã também não ameaçava interesses comerciais ou econômicos dos EUA, já que até o ataque de 28 de fevereiro Ormuz estava aberta. Mesmo a lógica do "petróleo" cai por terra, considerando a abundância de recursos de petróleo nos próprios EUA e o fato de que o país conseguiu ampliar seu acesso a reservas com sua operação na Venezuela.

O eleitorado de Donald Trump, consolidado na maré populista que visa restaurar a democracia frente ao liberalismo das elites, votou por isolacionismo geopolítico. Para o eleitorado de Trump, tanto fazia se no Irã as mulheres eram obrigadas a usar véus ou quais são os direitos de minorias sexuais em Gaza. Eles apenas queriam que os recursos dos seus impostos fossem investidos dentro dos EUA. No lugar disso, Trump entregou uma guerra ruinosa com o Irã. Tudo porque ele foi incapaz de resistir ao lóbi sionista, que há muito tornou-se um elemento parasitário e maligno na política dos EUA.

Há quem resista a atribuir à aliança com Israel a responsabilidade principal pelo fracasso dos republicanos, mas este fator não pode ser subestimado. Uma enquete do Pew Research indica, por exemplo, que 50% dos republicanos das gerações Z e Millennial têm uma opinião negativa sobre Israel. Em 2022 eram apenas 35%.

É possível falar que existe uma "virada antissionista" no partido republicano, especialmente entre seus adeptos mais jovens.

Não foi por falta de aviso: os maiores defensores de ideias de "America First" como Tucker Carlson, Candace Owens, Alex Jones, Megyn Kelly, Matt Gaetz, e inclusive parlamentares republicanos como Marjorie Taylor Greene e Thomas Massie vinham avisando desde o início do ano que Trump estava traindo os ideais do MAGA e que o eleitorado cobraria essa traição nas urnas.

O resultado das eleições de meio de mandato, portanto, era previsível. O que é espantoso não é propriamente o resultado, mas a incapacidade de Trump de, após essa derrota, reconhecer seus erros.

Na verdade, o único que rapidamente se posicionou num sentido realista foi J.D. Vance, que reconheceu publicamente que os republicanos foram derrotados por causa da Guerra do Irã e da proximidade excessiva com Israel. A rapidez de Vance em acusar os erros do governo do qual ele é parte essencial apontam para uma tentativa de "descolar" a própria imagem da imagem desgastada de Donald Trump.

Essa postura confirma a existência de um interesse, da parte de Vance, de disputar as primárias presidenciais pelo Partido Republicano. O problema de Vance é que, nisso, ele enfrentará Marco Rubio, atual secretário de Estado dos EUA, cujos aliados na Flórida foram os únicos republicanos que tiveram amplo sucesso nessas eleições.

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