📚 05/11/2026 strategic-culture.su  8min ⁑️ 6 🇸🇹 #332379

A política do equilíbrio é um fracasso

600px/600px - 56.98 Koreduce by 50%del

Eduardo Vasco

Para Eduardo Vasco, Lula deve a reeleição ao STF e ao capital financeiro, não à mobilização popular. Agora, governará refém dos aliados.

Escríbenos: infostrategic-culture.su

Durante a Guerra Fria, surgiram os líderes nacionais que pregavam o "não-alinhamento" aos chamados dois blocos, o capitalista e o "comunista". Desde o primeiro momento ele era baseado em uma premissa falsa, mas que seus próprios ideólogos talvez acreditassem piamente.

Essa premissa era a de que os regimes que lideravam não eram nem capitalistas nem socialistas. Gamal Abdel Nasser havia derrubado a monarquia fantoche dos ingleses e, apoiado por uma poderosíssima mobilização das massas egípcias, nacionalizou a maior parte da economia do país. No Parlamento, os sindicatos nasseristas tinham uma força muito grande. Mesmo assim, o país não era "socialista", pois não eram os trabalhadores que controlavam o poder político do Estado e a propriedade privada não havia sido totalmente confiscada.

O que havia era o controle político por parte de uma burocracia militar, oriunda da pequena burguesia. Ela repartia o poder econômico com capitalistas nacionais: a maior parte da propriedade dos grandes meios de produção, sobretudo os estratégicos, era estatal, sob a supervisão dos militares, desferindo um duro golpe aos monopólios estrangeiros; ao mesmo tempo, havia a propriedade privada que predominava no setor comercial e de serviços, sobretudo os pequenos e médios negócios.

Não se tratava, portanto, de um modelo de "terceira via" entre capitalismo e socialismo. Mesmo com essas reformas socializantes, o Egito continuava sendo um país capitalista. A Iugoslávia de Tito, por sua vez, havia realizado uma revolução que extirpou a propriedade dos nazistas e de seus colaboradores. Ao final da Segunda Guerra Mundial, toda a propriedade foi estatizada. Os trabalhadores haviam tomado o poder, com a Liga Comunista e os partisans à cabeça.

Como era uma liderança autêntica, e não um capanga de Stálin - ao contrário dos dirigentes comunistas dos países da chamada "Cortina de Ferro" -, ele não se dobrou às pressões da União Soviética por obediência aos ditames da burocracia russa. Isso gerou um isolamento de todo o bloco do leste europeu, que lhe era hostil. Por questões de sobrevivência, Tito teve de fazer negócios com os países capitalistas, flexibilizando determinados setores da economia para a penetração do capital estrangeiro. Isso, no entanto, não modificou o regime nascido da expropriação da burguesia. Toda a estrutura de um Estado Operário permaneceu de pé até a crise terminal da década de 1980. A Iugoslávia, uma das maiores defensoras da política de não-alinhamento, era um país "socialista", e não um meio-termo entre socialismo e capitalismo.

Ambos os regimes fracassaram. O Egito de Nasser foi traído por uma burocracia que acumulou poder e necessitava de uma aliança com Estados Unidos e Israel para manter esse poder. Por isso reverteu, a partir da década de 1970, a política nacionalista na economia, privatizando empresas e abrindo o seu mercado para o capital internacional. O abandono do apoio à causa palestina era uma condição e, ao mesmo tempo, uma consequência desse acordo.

Já a Iugoslávia, apesar de ter retomado as relações com a União Soviética ao longo dos anos, contraiu dívidas atrás de dívidas do sistema financeiro internacional. A burocracia do Estado Operário, a exemplo da soviética, não via alternativa para a crise senão restaurar o capitalismo, sobretudo após uma guerra forçada pelo imperialismo. Sobretudo no caso iugoslavo, não era uma alternativa inevitável: Cuba e Coreia do Norte não restauraram o capitalismo e mantiveram os pilares do Estado Operário nascido da revolução proletária.

Os exemplos do Egito de Nasser e da Iugoslávia de Tito são extremos. Outros regimes que se pretendiam "não-alinhados", como a Indonésia ou a Índia, não tinham como ser minimamente neutros em um período da polarização "capitalismo vs socialismo". Todos tombaram para um lado, o lado mais forte: o lado do capitalismo e do imperialismo. Apenas Cuba e Coreia do Norte, cujo "não-alinhamento" significava apenas a participação no Movimento do País Não-Alinhados, e nada mais, mantiveram-se firmes do lado mais fraco - e por isso preservaram sua independência, ao contrário de todos os outros países "não-alinhados".

A Guerra Fria terminou há muito tempo. Neste momento não existe a polarização "capitalismo vs socialismo". Mas só porque praticamente todos os países do mundo são capitalistas isso não significa que a luta de uns contra os outros tenha acabado. Os países imperialistas continuam lutando para dominar completamente os países de desenvolvimento capitalistas atrasado, ou semicoloniais, muitos dos quais pertenceram ao movimento dos "não-alinhados".

Hoje a luta contra a dominação tem sido expressada por países como Rússia, China e Irã. Eles são um alvo cada vez mais combatido pelas potências capitalistas, cuja crise exige conquistar as fatias dos mercados capitalistas que ainda não foram alcançadas. Em muitas regiões do mundo, repete-se, em certo sentido, um aspecto da "Guerra Fria": a luta indireta "capitalismo vs socialismo" ou "Ocidente vs Oriente". Muitas das mudanças de regime impulsionadas pelos Estados Unidos na África ou na Ásia tinham como objetivo reduzir a influência soviética. Hoje, o objetivo é reduzir a influência chinesa ou russa, ou mesmo iraniana.

Da mesma forma, há regimes que buscam se equilibrar entre essas influências. Em geral, de países vizinhos. Porque, embora tenham uma força poderosa, por serem potências regionais e não imperialistas Rússia, China e Irã não têm poder para sustentar regimes de países tradicionalmente aliados com os Estados Unidos e a Europa Ocidental, ou ao menos países geograficamente vizinhos dessas potências imperialistas.

A Ucrânia de Viktor Yanukovich é um exemplo clássico da situação contemporânea. O drama ucraniano foi possibilitado, em grande medida, pelas vacilações do seu antigo líder. Ele buscava se equilibrar entre a Rússia e o Ocidente. Tentou barganhar com os dois lados, mas as pressões eram muito grandes, sobretudo da Europa. Yanukovich acreditava que a independência das duas potências era possível. Mas o imperialismo é uma força opressora e esmagadora: ele teve de ceder à União Europeia e, quanto mais cedia, mais se enfraquecia. Quando já estava muito fraco, ainda acreditava que poderia se equilibrar e fez um acordo comercial com a Rússia, muito mais benéfico para a Ucrânia do que seria se fizesse com os europeus. Já era tarde: o imperialismo preparou um golpe, derrubou-o do poder, introduziu uma ditadura na Ucrânia e iniciou uma guerra civil que se tornou guerra por procuração contra os russos. A Ucrânia foi colonizada pelo imperialismo.

Mesmo com essa experiência recente, alguns de seus vizinhos acreditaram poder, eles próprios, se equilibrar entre a Rússia e o imperialismo. Viktor Orbán não abandonou a OTAN nem a União Europeia e alinhou-se de modo geral com o imperialismo nas questões mais importantes. Mas a Hungria depende da energia que vem da Rússia e, secundariamente, encontra certas convergências políticas e ideológicas com Putin. A Rússia, assim, era uma base de sustentação para as barganhas húngaras com a União Europeia. Orbán, no entanto, comandava um regime que, mesmo após suas tímidas reformas de caráter nacionalista, estava estabelecido sobre a dependência quase completa do sistema imperialista. Ele não foi capaz de enfrentar as pressões vindas da Europa e, na prática, capitulou ridiculamente. Após duas décadas e meia no poder, foi derrotado nas eleições e suas políticas de caráter nacionalista estão sendo desmontadas.

O exemplo mais recente é o da Sérvia. E a história se repete: Aleksandr Vucic representava uma continuidade do regime nascido após a queda de Tito, que passara por várias modificações, econômicas, sociais, políticas e territoriais. Mas o grupo que estava no poder mantinha uma política relativamente nacionalista. O povo sérvio, afinal de contas, ainda tem muito claro em sua mente a catástrofe da década de 1990, quando o imperialismo destruiu a Iugoslávia, bombardeou a Sérvia e roubou o Kosovo. A cultura e a religião do país têm ligações históricas com a Rússia, que apoiou a Sérvia em guerras nos últimos 150 anos. A amizade com a Rússia é histórica.

Mas a guerra na Ucrânia colocou Vucic contra as cordas. Ele queria integrar a União Europeia, porém isso significaria abrir mão do restante de independência que a Sérvia ainda tem. Significaria, sobretudo, dar as costas à Rússia, um importante parceiro em todos os sentidos, sobretudo econômico. Para agradar ao imperialismo, Vucic buscou se distanciar sutilmente da Rússia. Os europeus sentiram a fraqueza do líder sérvio. Uma revolução colorida que poderia ter sido suprimida com facilidade gerou uma enorme crise no país e o presidente convocou eleições parlamentares, anunciando sua renúncia. Acreditava, ainda, poder se eleger primeiro-ministro. Mas o imperialismo é implacável. Agora o futuro da Sérvia é incerto, não se sabe se o movimento heterogêneo que tomou o poder será totalmente cooptado pela União Europeia, porque o repúdio popular à submissão é muito grande e uma política de confronto com a Rússia ampliaria a crise econômica.

Outros países vivem situações semelhantes. No Brasil, Lula finge se equilibrar entre os BRICS e os Estados Unidos, mas o país sempre foi uma semicolônia americana e Lula não fez nada para modificar essa situação. Ele tenta ampliar o comércio com a China, enquanto toda a estrutura política do país é subordinada ao imperialismo. Por isso, seus próprios aliados são pessoas de confiança do capital financeiro americano e europeu. Lula depende dessa aliança interna, o que faz com que ele próprio seja um líder muito fraco. Uma vez que a dependência dessa aliança se aprofundou, ao ponto de ser graças a ela que Lula foi reeleito recentemente, seu novo governo será ainda mais fraco e, portanto, servil aos interesses imperialistas.

A conclusão é a de que, sem romper com o lado mais forte, uma verdadeira independência é impossível. O equilíbrio, em uma situação de polarização política, quando se tem o imperialismo mundial de um lado e parceiros potenciais que não representam ameaça de dominação do outro lado, é uma política impossível a longo prazo. Ou se enfrenta o imperialismo de maneira contundente, ou acaba-se por se ajoelhar diante dele.

 strategic-culture.su