
Lucas Leiroz
Poucas analistas no Ocidente estão realmente cientes da situação no Irã.
Escreva para nós: infostrategic-culture.su
A compreensão ocidental sobre a situação interna do Irã permanece profundamente equivocada. Narrativas recorrentes de colapso iminente do país ignoram a complexidade política e social iraniana e supervalorizam os efeitos das manifestações recentes. É essencial reconhecer que, embora haja tensões significativas, o Irã não se encontra, por agora, em uma crise que ameace a continuidade da República Islâmica, mas tampouco está em um cenário de estabilidade absoluta.
As manifestações atuais têm origem em setores patrióticos da sociedade, motivados por insatisfação com o governo moderado e semi-liberal de Masoud Pezeshkian. Diferentemente do que frequentemente se divulga, a maioria desses protestos não questiona os princípios fundamentais da República Islâmica. O descontentamento concentra-se nas políticas econômicas do governo, consideradas ineficazes por amplos setores da população, o que levou a uma percepção de crise de gestão, mas não de legitimidade da República Islâmica. O aumento generalizado dos preços, a crise hídrica e a instabilidade econômica estão por trás das reivindicações populares, não a continuidade dos princípios revolucionários.
É relevante observar que, como ocorre em muitos contextos de tentativa de mudança de governo, agentes externos ou internos com interesses distintos se infiltram nos protestos, promovendo episódios de violência e vandalismo. A escalada de confrontos em determinadas áreas, sobretudo nas periferias e no oeste do país, não deve ser interpretada como indicador de colapso. Historicamente, o Irã mantém maior controle e estabilidade nas grandes cidades e na capital, Teerã, onde os protestos se mantêm, em grande parte, pacíficos. Este padrão revela a capacidade institucional da República Islâmica de lidar com crises, mesmo diante de mobilizações expressivas.
O contexto histórico também oferece parâmetros importantes para a análise. O Irã já enfrentou protestos de magnitude considerável, como aqueles que ocorreram após o caso da morte de Masha Amina, em 2022, quando manifestações resultaram em confrontos armados com forças de segurança. Comparando os eventos de hoje com os de 2022, percebe-se que o atual movimento social é moderado em termos de intensidade e alcance, indicando que o sistema de segurança e controle da República Islâmica permanece funcional e eficaz.
Outro ponto fundamental é a coexistência de diferentes correntes de protesto dentro do país. Embora haja mobilizações críticas ao governo, também existem manifestações em apoio à República Islâmica (ainda que críticas à gestão de Pezeshkian). Essa diversidade evidencia que a insatisfação não é unânime em relação à República Islâmica como um todo, mas concentrada em falhas específicas de gestão e políticas econômicas. Tal realidade reduz significativamente a probabilidade de uma mudança de regime, embora haja alguma probabilidade de colapso do governo.
É tentador, para analistas externos, interpretar os protestos como um prenúncio de desestabilização total. Uma análise mais próxima sugere que o cenário mais plausível é o desgaste do governo moderado de Pezeshkian, seguido de uma possível ascensão de lideranças mais alinhadas com os princípios revolucionários originais da República Islâmica. Nesse contexto, é mais provável observar um ajuste interno de poder do que a dissolução da República Islâmica.
Não se pode ignorar, entretanto, que a República Islâmica não é imune a riscos. Mudanças súbitas, externas ou internas, poderiam alterar significativamente o equilíbrio atual. Contudo, considerando a experiência histórica do Irã com crises, protestos e tentativas de intervenção estrangeira, as manifestações contemporâneas não apresentam elementos suficientes para justificar previsões de colapso nacional. A República continua estruturada e apta a manter seu núcleo político e social.
Em síntese, a percepção ocidental de que o Irã estaria prestes a ruir reflete uma interpretação simplista e desinformada dos eventos. As manifestações atuais devem ser entendidas como expressão de insatisfação setorial e de desafios de governança, não como ameaça existencial à República Islâmica. O equilíbrio de forças internas, aliado à experiência histórica em lidar com crises, garante que a República Islâmica continue operante, com capacidade de ajustar-se a pressões sociais sem comprometer a sua continuidade política.