
Lorenzo Maria Pacini
O Pacto de Meca simboliza solidariedade, não guerra. A Turquia lembra: o Iêmen é o "túmulo dos turcos".
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O Pacto de Meca é posto à prova
Em 19 de setembro de 2026, em entrevista à emissora turca NTV, o ministro das Relações Exteriores, Hakan Fidan, fez uma declaração que foi ao mesmo tempo comedida e repleta de consequências. A Arábia Saudita, sob ataque dos houthis, "pode ter certas necessidades militares, especialmente no que diz respeito a questões técnicas", e a Turquia "não teria problema em atendê-las". Nenhuma declaração de guerra, nenhum envio de tropas anunciado. No entanto, pela primeira vez, o Pacto de Meca - a aliança defensiva que une Riade, Ancara e Islamabad - foi invocado como uma ferramenta operacional, em vez de um marco teórico no papel. A questão que circula nos comentários mais contundentes é se Ancara está prestes a repetir o erro que já lhe custou caro duas vezes: pisar nas terras altas do Iêmen. A resposta séria é mais interessante do que a provocação e aponta na direção oposta.
O acordo assinado em Meca em 07 de agosto de 2026 por Mohammed bin Salman, Recep Tayyip Erdogan e Shehbaz Sharif segue o modelo do Artigo 5º da OTAN: um ataque armado contra um dos três é um ataque contra todos. A frente que pressiona por isso hoje é iemenita. Desde julho de 2026, após declarar um bloqueio aos portos sauditas e ao Estreito de Bab al-Mandab, os houthis têm atacado repetidamente o território do Reino, incluindo ataques a Riade e às instalações da Aramco em Yanbu. Trata-se da extensão, do lado saudita, da guerra mais ampla desencadeada pelos ataques dos EUA e de Israel ao Iêmen.
O ponto-chave, no entanto, é a discrepância entre a redação do tratado e a postura real de seus membros. Fidan oferece apoio "técnico", não tropas. Islamabad deixa claro que nenhuma resposta militar está em pauta e que agirá "quando for a hora certa". Washington, por sua vez, rejeitou os pedidos sauditas de apoio direto. Todos clamam por solidariedade; ninguém está enviando forças para o terreno. Essa relutância compartilhada não é timidez diplomática: é o verdadeiro tema desta análise.
A longa história das vitórias iemenitas contra a Turquia
Entre os três signatários, a Turquia é a única para quem o Iêmen não é uma abstração estratégica, mas uma ferida histórica. Os otomanos invadiram duas vezes e, nas duas vezes, foram derrotados. A primeira ocupação, que remonta a 1538, foi motivada pela necessidade de proteger as rotas comerciais do Mar Vermelho dos portugueses e de salvaguardar o acesso aos locais sagrados. Eles tomaram a Tihama e Sanaa, mas as terras altas zaiditas nunca foram totalmente subjugadas; após quase um século de guerra intermitente, em 1635 os imames qasimidas os expulsaram do país. Entre os eventos notáveis desse primeiro ciclo estão a conquista de 1538, o restabelecimento do imamato zaidita por al-Mansur al-Qasim (1597) e a expulsão completa dos otomanos entre 1635 e 1636 pelas mãos dos imames qasimidas. A segunda ocupação abrangeu a ocupação da Tihama (1849), a tomada de Sanaa (1872) e a retirada definitiva após 1918.
O retorno, em meados do século XIX, foi ainda pior. A ocupação da Tihama e a tomada de Sanaa - impulsionadas pela inauguração do Canal de Suez em 1869 e pelo controle do Mar Vermelho - deram início a décadas de rebeliões constantes. As revoltas do imã Yahya tornaram as terras altas ingovernáveis pela força, até que o Tratado de Daan, de 09 de outubro de 1911, reconheceu sua autoridade sobre os zaiditas: o reconhecimento formal de um impasse que nenhuma expedição conseguiu romper. A retirada definitiva ocorreu após 1918. O número de mortos durante a segunda ocupação e a campanha da Grande Guerra chegou a dezenas de milhares; as doenças ceifaram mais vidas do que os combates. Não é por acaso que o Iêmen entrou no léxico otomano como o "túmulo dos turcos", e o cemitério militar em Sanaa ainda mantém seus registros. As perdas otomanas no Iêmen durante a segunda ocupação e a campanha da Arábia do Sul na Grande Guerra totalizaram dezenas de milhares, sendo as doenças - e não o combate - a principal causa, em consonância com a taxa de mortalidade do exército otomano como um todo. O cemitério militar turco em Sanaa, restaurado em 2011, preserva a memória desses soldados.
Reduzir tudo isso à nostalgia neo-otomana, no entanto, seria um erro de perspectiva, pois o problema não é otomano: é geográfico e social. O mesmo terreno já derrubou outros. O Egito de Nasser ficou atolado ali entre 1962 e 1967, no que muitos chamaram de seu Vietnã; a coalizão liderada pela Arábia Saudita, desde 2015, tem investido anos de poder aéreo e dinheiro nas terras altas sem nunca ter conseguido subjugá-las. A intervenção do Egito na guerra civil do Iêmen do Norte (1962-1967) - que custou a Nasser um conflito prolongado, frequentemente comparado a um "Vietnã árabe" - e a coalizão liderada pela Arábia Saudita, ativa desde 2015, confirmam o mesmo resultado: poder de fogo avassalador e vastos recursos, mas as terras altas permanecem inconquistadas.
A razão é estrutural. O terreno acidentado, as aldeias que parecem fortalezas, uma estrutura tribal que absorve e sobrevive ao ocupante, e uma tradição político-religiosa - a doutrina zaidita do dever de se rebelar contra um governante injusto - que renova a resistência a cada geração: esses são os fatores que recompensam o defensor e esgotam aqueles que projetam força de fora. Os houthis são a mais recente encarnação dessa constante, não uma anomalia. E é precisamente por essa razão que os atores externos optam por uma estratégia naval - o Mar Vermelho, Bab al-Mandab e a força marítima liderada pela Arábia Saudita que está sendo discutida -, pois isso os mantém afastados do território.
Uma memória indelével
A premissa provocativa com a qual partimos - a Turquia "ansiosa" por reviver sua derrota - inverte, assim, a lógica dos fatos. Não é a memória do Iêmen que seduz Ancara, mas a disciplina. A Turquia de Erdogan se projetou em muitos teatros de operações - da Síria à Líbia, do norte do Iraque ao Cáucaso, passando pelo Azerbaijão -, mas sempre onde pudesse aplicar força decisiva e limitada ou agir por meio de representantes, nunca em uma insurreição nas montanhas sem saída. A formulação cautelosa de Fidan - necessidades "técnicas", um pacto que "não substitui as alianças existentes" e, se alguma coisa, "pode se expandir" - é a linguagem de uma potência que deseja os dividendos políticos da solidariedade sem seu fardo militar.
Visto por uma lente multipolar, o Pacto de Meca é um realinhamento sunita orquestrado pela Arábia Saudita, Turquia e Paquistão - uma rede de segurança que toma forma à medida que as garantias dos EUA se mostram condicionais. No entanto, um tratado de defesa coletiva inspirado no Artigo 5º atinge seu limite precisamente aqui: esse modelo responde à agressão de um Estado através de uma fronteira; carece de uma doutrina contra um ator não estatal que não pode ser conquistado e não será dissuadido. É a lacuna entre a gramática da aliança e a natureza do adversário.
Olhando para o futuro, em um horizonte de doze meses: é provável que o apoio turco permaneça técnico - defesa aérea, vigilância, munição, conselheiros - em vez de se traduzir em mobilização para combate; é altamente improvável que Ancara envie tropas terrestres ao Iêmen.
Os indicadores que contradiriam essa avaliação são claros e observáveis: a chegada de unidades de combate turcas ou paquistanesas, uma invocação formal da cláusula de defesa mútua ou uma mudança da interdição naval no Mar Vermelho para operações terrestres no planalto. Até lá, o valor do pacto residirá na sinalização e na dissuasão por associação, e não como uma ferramenta contra os houthis.
Afinal, o cemitério dos impérios não precisa ser reaberto para continuar funcionando: basta simplesmente ser lembrado.
Tradução: Comunidad Saker Latinoamericana