
Raphael Machado
Mesmo uma vitória de Lula, hoje improvável, não fará mais que dar uma sobrevida e prolongar a agonia num falso senso de estabilidade.
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A perspectiva sobre as eleições brasileiras após o 1º turno é unânime: Lula e o Partido dos Trabalhadores foram varridos e humilhados, e as perspectivas de uma virada nas eleições presidenciais é mínima.
Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu 56 milhões de votos, ou aprox. 47% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53,8 milhões de votos, ou aprox. 45% dos votos válidos - o resultado leva ao 2º turno, a ser realizado no dia 28 de outubro. O problema para Lula é que o eleitorado dos candidatos que ficaram em 3º, 4º e 5º têm uma maior tendência para votar em Flávio Bolsonaro do que no próprio Lula.
Lula só tem como puxar votos tentando converter os que não foram votar, ou os que votaram nulo. São 30 milhões de eleitores nessas condições, portanto não é pouca gente. Mas historicamente, a tendência é que essa fatia do eleitorado aumente do 1º para o 2º turno, em vez de diminuir.
O revés de Lula, porém, não é apenas em sua própria disputa com Bolsonaro.
Em número de governadores estaduais, o seu partido, o PT, cai de 4 para 3 governadores. E o partido até conseguiu preservar seus assentos no Senado e somar 1 deputado federal a mais na Câmara, mas os seus rivais bolsonaristas do PL ganharam mais 13 cadeiras no Senado e 21 cadeiras na Câmara. Em outras palavras, mesmo que Lula ganhasse, não conseguiria governar.
A reação do partido de Lula e de seus militantes é a pior possível: responsabilizam o povo por "não saber votar" ou por "ser fascista", os candidatos de micropartidos de esquerda por não terem desistido de suas candidaturas, alegam narrativas fantasiosas de "manipulação" por parte dos EUA e das redes sociais - tudo, menos admitir que o governo de Lula padecia de problemas sérios e foi incapaz de dialogar com a população e entender as suas demandas.
Pior: abraçam uma ilusão na qual o governo de Lula teria sido, na verdade, excepcional e no qual todos os índices econômicos seriam maravilhosos, e "os pobres" deveriam agradecer a Lula de joelhos e votar nele para sempre.
A realidade, porém, é que excetuando na região nordeste, onde Lula nasceu, o PT virou o partido da classe média progressista e dos centros urbanos, enquanto as cidades pequenas e médias e uma parte significativa dos setores populares abraçou o bolsonarismo. E por que?
No que concerne a economia, a percepção de melhora é falsa. O governo Lula criou ou aumentou mais de 30 impostos e taxas de todos os tipos, voltados em sua maioria contra a classe média e trabalhadora. Para piorar, apertou a regulamentação dos microempreendedores, dificultando a sua vida no que concerne questões tributárias.
Os empregos criados foram principalmente no setor de serviços e no extrativismo, para não falar nos trabalhos autônomos e precários. Em contrapartida, o governo multiplicou ao infinito os "benefícios sociais", concedidos principalmente para a camada lúmpem da sociedade, parasitária e odiada pelos setores positivos. Aliás, apenas os setores mais ricos ligados às finanças receberam tantos benefícios quanto o lumpemproletariado no governo Lula. E não casualmente, as classes de apoio ao PT foram a classe A e a classe E, as duas pontas do sistema parasitário e improdutivo, que esmagam as classes produtivas (B, C e D) por cima (através da usura) e por baixo (através da criminalidade).
Não se pode subestimar ademais, o problema da segurança pública, para o qual temos alertado há muito tempo. O discurso de Lula sobre soberania é vazio quando ¼ da população brasileira (segundo estudo da Cambridge University Press) vive em território controlado por organizações narcotraficantes. A tolerância do brasileiro por essa situação acabou.
Mas a leniência do governo não. Ao contrário, o Brasil vive a situação esquizofrênica de ser suave com criminosos perigosos e extremamente repressivo contra quem diz coisas politicamente incorretas na internet. Tornou-se corriqueiro no Brasil que pessoas comuns seja presas e condenados por "crime de ódio" ao recusarem a entrada de alguma pessoa "trans" num banheiro feminino.
E num erro de julgamento crasso, o PT decidiu associar a própria sorte ao STF, exatamente o núcleo de poder liberal que garante a implementação de todas as pautas globalistas no Brasil e que opera um aparato draconiano de repressão e silenciamento. Lula se esqueceu de que ele próprio foi perseguido e preso pelo Judiciário brasileiro, e decidiu se aliar a este setor para tentar impor a mesma sina a Bolsonaro.
O tiro, porém, saiu pela culatra. A disputa de Lula é com Flávio Bolsonaro. Mas quem venceu essa eleição, estando condenado, preso, adoecido e censurado é Jair Bolsonaro.
Especulações sobre "interferência estrangeira" nas eleições são fúteis e pueris posto que desnecessárias. Todas as causas da derrota de Lula estão em seu próprio governo.
Nem na política externa - área mais elogiada pelos colegas estrangeiros - escapamos das contradições: condenação da Nicarágua no Conselho de Direitos Humanos da ONU, veto ao ingresso da Venezuela nos BRICS e deslegitimação da reeleição de Nicolás Maduro, aliança tácita com a França de Macron, Acordo UE-Mercosul, colaboração da ABIN com as inteligências da França e da Alemanha, pressão para tentar desacelerar o crescimento dos BRICS, e poderíamos continuar longamente.
É por isso que dentro do Brasil, o elemento da política externa não pode ser visto, nessas eleições, da maneira "dualista" como ele é visto de fora para dentro (em que se tem o mito de um "Lula multipolarista" e um "Bolsonaro atlantista"). Na verdade, tanto Lula quanto Bolsonaro jogam com os dois lados do campo geopolítico, são apenas seus discursos que são levemente divergentes. Naturalmente, os propagandistas de ambos os lados jurarão que não é assim, mas é o que a análise fria dos fatos aponta.
No fim das contas, estamos às portas do "fim da Era Lula", e dos momentos finais de uma carreira política que marcou a história do Brasil, que teve seus altos e baixos, seus pontos positivos e negativos, mas que termina de um modo agridoce, pela ausência de um projeto de nação e pela obsessão oportunista de se perpetuar no poder a qualquer preço - inclusive ao preço de trair os princípios da época da fundação do Partido dos Trabalhadores.
Lula deixará o PT órfão. Não houve preocupação com formar um sucessor à altura de Lula. Pior: a práxis do PT o levou a esmagar os partidos de esquerda menores e a absorver seus principais quadros para podá-los e controlá-los antes que eles pudessem se tornar maiores que Lula.
Nesse sentido, com o fim da carreira política de Lula morre a esquerda. Ou pelo menos UMA esquerda. A esquerda liberal-progressista da Sexta República e da Constituição de 88. Resta saber se o que triunfará na inevitável disputa por seu legado é uma esquerda ainda mais radicalmente progressista, ou se retornará uma esquerda nacionalista, tal como já existiu no Brasil em outras épocas.
Mesmo uma vitória de Lula, hoje improvável, não fará mais que dar uma sobrevida e prolongar a agonia num falso senso de estabilidade. Não só da esquerda, mas também do Brasil.