
Raphael Machado
O mundo se redesenha em esferas de influência e apenas o poderio militar e a disposição para usá-lo parecem ser barreiras eficazes contra intervenções estrangeiras.
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Após uma operação iniciada às 2:00 am do horário de Caracas, forças especiais dos EUA empreenderam o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa Cilia Flores e os extraíram do país. A operação durou apenas 30 minutos e teve participação de pouco mais que um punhado de helicópteros, atuando bem próximos do chão.
O governo dos EUA e seus apoiadores reagiram com euforia diante do "grande feito" da operação. Donald Trump afirmou que apenas os EUA conseguiriam fazer algo do tipo.
Não obstante, até agora, o evento assemelha-se mais a uma pirotecnia propagandística do que a um grande feito militar. E isso porque a extração se deu, ao que tudo indica, sem qualquer oposição por parte do Estado venezuelano.
Há meses - desde que se intensificaram as tensões entre EUA e Venezuela - especula-se sobre a existência de negociações secretas entre Maduro e Trump. Jornais como o New York Times, inclusive, informaram que Maduro teria oferecido "tudo" a Trump, mas que este teria recusado as várias ofertas.
Várias outras negociações teriam ocorrido, inclusive a oferta de saída de Maduro, mas com a manutenção do sistema bolivariano no poder e com a coparticipação dos EUA na exploração do petróleo venezuelano junto com a PDVSA. Supostamente, os EUA teriam recusado essas ofertas.
É importante também apontar que pelo menos desde novembro de 2025, os governos brasileiro e colombiano tentam convencer Nicolás Maduro a renunciar. O importante empresário e lobista brasileiro Joesley Batista, que é aliado tanto de Lula quanto, hoje, de Trump, teria viajado para Caracas para negociar uma saída de Maduro. Supostamente, sem sucesso.
E ainda assim, permanece o fato: qualquer sistema antiaéreo portátil, como um MANPAD, poderia ter derrubado qualquer dos Apaches usados na operação. Mas nenhum foi usado. Na verdade, não há qualquer evidência do uso dos sistemas defensivos venezuelanos durante a operação. A narrativa oficial diz que todos teriam sido, simplesmente, "desativados". Isso talvez possa explicar a inação dos BUKs, mas não a ausência de uso de outros sistemas.
Não vimos, ademais, sinais semelhantes aos da Síria, com a deserção em massa dos militares. Padrino López e Diosdado Cabello, respectivamente ministros da Defesa e do Interior, possuem pleno controle sobre as Forças Armadas e sobre a Guarda Bolivariana. As ruas estão, ao que tudo indica, tranquilas. Não há comemorações de oposicionistas, nem qualquer movimentação da oposição em geral.
Talvez a remoção de Maduro tenha sido, de fato, negociada. Mas não necessariamente com o próprio Maduro. É impossível, porém, apontar de maneira contundente para um responsável por isso. Em um sentido puramente técnico, naturalmente, as responsabilidades primárias recairiam sobre a contrainteligência venezuelana e o aparato de segurança pessoal de Maduro - mas, neste caso, pode ter sido simplesmente uma questão de falha, mais do que de traição.
Agora, é prematuro falar propriamente em "mudança de regime" na Venezuela.
Em suas declarações à imprensa, logo após, a operação, Donald Trump afirmou que os EUA conduziriam uma "transição política" na Venezuela; mas não há, realmente, presença dos EUA na Venezuela neste momento. Quem espera uma tomada de poder por Maria Corina Machado se engana: Trump já descartou-a, considerando-a inepta por sua falta de popularidade junto ao povo venezuelano. Ao contrário, ele parece satisfeito com lidar com Delcy Rodríguez, que já assumiu a liderança venezuelana, apoiada consensualmente pelos governadores, ministros e generais chavistas.
Trump afirma que Rodríguez estaria disposta a colaborar completamente com os EUA e, na prática, "entregar" o petróleo venezuelano. Mas todas as declarações públicas da Venezuela até agora vão no sentido de condenar o sequestro, exigir a devolução de Maduro e enfatizar que a Venezuela resistirá às pretensões de Trump. Em outras palavras, existe um vácuo problemático entre as declarações de Trump e aquilo que está, realmente, acontecendo na Venezuela.
Naturalmente, não se exclui a possibilidade, por exemplo, de um eventual "acordão", que permita aos EUA a atuação no setor petrolífero venezuelano, com o chavismo mantido no poder em Caracas. O destino de Maduro numa negociação desse tipo fica em aberto. Tudo é possível, da pena de morte ao exílio, passando por uma pena de prisão com eventual soltura.
O principal ator político venezuelano, porém, são as forças armadas, não o PSUV, tampouco Maduro. E independentemente do arranjo alcançado e do futuro político próximo da Venezuela, dificilmente isso vai mudar.
O que é evidente, porém, é que temos aí uma mudança significativa no panorama internacional. Os EUA trataram a operação como uma "ação de polícia" - Maduro está sendo indicado por crimes que vão do narcotráfico à posse de metralhadoras (!) em violação à legislação dos EUA sobre armas de fogo (!!), tratando o território venezuelano, na prática, como se fosse território dos EUA.
O reconhecimento mútuo entre os países como Estados soberanos e, portanto, beligerantes legítimos em caso de conflito, implicando a obediência a determinadas regras de engajamento, constitui uma conquista significativa das civilizações. A criminalização dos soberanos estrangeiros abre as portas para a selvageria e para conflitos ilimitados e privados de regras de civilidade.
Mas para além dessa dimensão de retorno à mesma mentalidade da época da pirataria, fica bastante claro que apelos ao Direito Internacional e à ONU são, hoje, pouco eficazes.
O mundo se redesenha em esferas de influência e apenas o poderio militar e a disposição para usá-lo parecem ser barreiras eficazes contra intervenções estrangeiras.